Um triângulo onde assenta toda a nossa fé em Jesus de Nazaré: a Palavra, a Tradição e a Razão. A Palavra é, antes de tudo, o instrumento fundamental da comunicação humana, permitindo-nos expressar pensamentos, sentimentos e intenções. Mas é a Palavra aquela que nos é comunicada por Deus. Ela serve como ponte entre Deus e cada um/a de nós e de nós com todos/as os outros, o indivíduo e o mundo, tornando possível a partilha de experiências e valores, bem como a transmissão do saber através das gerações. Ao dar forma ao pensamento, a Palavra e a palavra não apenas revela o que Deus sente, mas também o que sentimos e pensamos, e contribui para a edificação da cultura e do conhecimento coletivo.
A Tradição pode ser entendida como o conjunto de práticas, crenças, valores e conhecimentos transmitidos de geração em geração, formando a base cultural de uma sociedade. Ela não se limita apenas à repetição do passado, mas envolve também a sua interpretação e adaptação ao presente, servindo de elo entre aquilo que herdamos e as novas realidades que enfrentamos. Assim, a Tradição orienta comportamentos, preserva identidades e oferece referências que ajudam na compreensão do mundo e na construção do sentido coletivo.

“Um triângulo onde assenta toda a nossa fé em Jesus de Nazaré: a Palavra, a Tradição e a Razão.” Ilustrações do livro “A Bíblia tinha mesmo razão?”
A Razão pode ser definida como a faculdade humana de pensar, compreender e julgar de forma lógica e crítica. É através da Razão que analisamos informações, estabelecemos relações entre ideias e tomamos decisões fundamentadas. No âmbito filosófico, a Razão é frequentemente vista como o principal instrumento para alcançar o conhecimento, distinguir o verdadeiro do falso e construir argumentos sólidos, sendo essencial para o desenvolvimento da ciência, da ética e da própria cultura.
A relação entre a Palavra, a Tradição e a Razão constitui um dos grandes temas do pensamento. Ao longo dos séculos, filósofos e pensadores refletiram sobre como a linguagem molda a transmissão do conhecimento e a construção da racionalidade. A tradição, por sua vez, oferece um contexto cultural e histórico que enriquece e desafia o exercício da razão, criando um diálogo contínuo entre o passado e o presente. A expressão “Palavra de Deus” assume um significado especial, pois representa a comunicação divina dirigida à humanidade, seja através das Escrituras Sagradas, seja por meio de tradições orais. Considerada fonte de verdade e orientação espiritual, a Palavra de Deus não apenas transmite ensinamentos e valores, mas também serve como fundamento para a fé e a prática de inúmeras comunidades ao longo da história. A sua interpretação, muitas vezes mediada pela tradição, desafia a razão humana a dialogar com o mistério e a transcendência, promovendo uma busca contínua de sentido e compreensão.

‘A chamada “questão da mulher na Igreja” revela-se como um tema profundo e multifacetado quando observado à luz da Palavra, da Razão e da Tradição.’ Foto: Mulheres participantes no Sínodo sobre a sinodalidade, 7 Outubro 2023, à saída de uma das sessões da assembleia. © António Marujo/7MARGENS
Apliquemos estas três noções a um caso concreto: aquilo que se designa como a “questão do papel da mulher na Igreja” – mas que é uma “questão inventada pelo homem”. A chamada “questão da mulher na Igreja” revela-se como um tema profundo e multifacetado quando observado à luz da Palavra, da Razão e da Tradição. Pela Palavra, encontramos diversos exemplos de mulheres que desempenharam papéis fundamentais na história bíblica, como Maria, mãe de Jesus, Maria Madalena e tantas outras que foram reconhecidas pela sua fé e coragem, tendo sido apóstolas. Essas narrativas servem de inspiração e mostram que a presença feminina é essencial na vivência cristã, sendo frequentemente associada à entrega, serviço e testemunho. A Tradição, por sua vez, apresenta-se como um conjunto de práticas e interpretações que, ao longo dos séculos, definiram o “lugar da mulher na Igreja”. Se por um lado houve momentos de restrição e silêncio, por outro também se destacam figuras femininas santas, doutoras, religiosas e leigas, que marcaram a espiritualidade e a história eclesial. A Tradição é dinâmica e reflete tanto os desafios do seu tempo como as possibilidades de abertura e valorização da mulher na comunidade cristã. Pela Razão, somos convidados a refletir criticamente sobre o “papel da mulher na Igreja”, questionando modelos que perpetuam desigualdades e propondo caminhos para uma participação mais igualitária. O exercício racional permite dialogar com a Palavra e com a Tradição, promovendo uma compreensão renovada que reconheça o valor e a dignidade de todas as pessoas na vida e missão eclesial. Assim, a integração destes três pilares pode contribuir para uma Igreja mais inclusiva, fiel à mensagem do Evangelho e aberta aos sinais dos tempos.
Não existe pela Palavra, Tradição e Razão, nenhuma inconveniência na ordenação de mulheres, quer sejam diáconas, presbíteras e bispas, a não ser que a inventemos. É certo duas coisas, primeiro as mulheres não querem ser os “diáconos”, “sacerdotes” e bispos de hoje, mas as diáconas, presbíteras e bispas que, olhando para os martirizados e oprimidos, seriam a brisa que irradia Vida.
Não existe nenhum impedimento a que o sejam, exceto o perigo para a “masculinidade”, pela Palavra, Tradição e Razão, que formam, afinal, a base de toda a Igreja.
Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental.
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