Foi com muito interesse que li as recentes declarações de D. José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.
O presente ano jubilar da Igreja Católica decorre sob o signo da Esperança. Pessoalmente, vi várias razões para sentir esperança relativamente à instituição a que D. José pertence, depois de ter reflectido sobre o alcance das suas palavras. Dois aspectos chamaram a minha atenção.
O primeiro foi a clareza com que o bispo português falou sobre a situação internacional, não se refugiando no nevoeiro linguístico antes típico do clero católico, mas exprimindo de forma desassombrada a sua preocupação sobre o rumo traçado pela actual administração da Casa Branca. É sabido que Donald Trump foi eleito com uma enorme base de apoio entre as denominações cristãs mais conservadoras. Não sendo ele próprio católico, escolheu para vice-presidente um católico ultra-conservador (JD Vance) e, no anterior mandato, já tinha nomeado para o Supremo Tribunal uma católica ultra-conservadora, Amy Coney Barrett. Seja como for, as observações que D. José Ornelas fez acerca do que se passa nos EUA foram surpreendentes: não pelo conteúdo (que se pautou por aquilo que devia ser óbvio a qualquer seguidor de Jesus Cristo), mas pela clareza – e até acutilância – da crítica. Numa palavra: parabéns.
O segundo aspecto foi ainda mais interessante para mim: o apelo ao voto nas próximas eleições legislativas. Não é a primeira vez que um homem da Igreja apela ao voto (ficaram célebres alguns padres do passado, em paróquias rurais e nortenhas, quando apelaram ao voto em Cavaco Silva), mas o facto de o fazer de forma tão «moderna» pareceu-me importante por aquilo que se pode deduzir desta atitude. No século XIX, o Papa Leão XIII fez justamente o contrário daquilo que fez D. José Ornelas, nas primeiras eleições democráticas em Itália: apelou a que os católicos boicotassem as eleições, ameaçando que a participação no acto eleitoral era incompatível com a prática católica. Dir-se-á que a Igreja Católica do Papa Francisco não é a mesma do Papa Leão XIII. E isto leva-nos precisamente para o problema que opõe católicos ultra-conservadores (como o actual vice-presidente dos EUA) aos ventos da mudança que o Papa Francisco deixou soprar.
A Igreja Católica deve ficar cristalizada no passado? Deve manter-se sempre a Igreja de Bento XVI ou de Leão XIII ou, já agora, de Urbano II (o papa que, no século XI, apelou à cruzada contra o Islão)? Os católicos conservadores, críticos do Papa Francisco, aduzem muitas vezes o argumento da imutabilidade da doutrina para apoiar o ideal da imutabilidade da Igreja. Com base nisso, a Igreja não poderia nunca ordenar mulheres; nunca poderia dar comunhão a recasados ou a casais do mesmo sexo; nunca poderia tornar facultativo o celibato do clero (o que, historicamente, é um absurdo, pois o celibato obrigatório é uma «inovação» do século XII). No entanto, como é que se pode falar em imutabilidade da doutrina quando, no seio do próprio Novo Testamento, ela já está em mudança? O Evangelho de João já mostra em relação ao de Marcos aquilo que os conservadores católicos mais contestam no Vaticano II: a possibilidade do desenvolvimento da doutrina.
As palavras de D. José Ornelas sobre a esperança suscitaram em mim um sentimento esperançoso em relação ao futuro da Igreja, porque nelas passou a lucidez de um homem que olha para a realidade com os olhos do Presente. Ser católico não deveria representar um exercício de saudosismo pela Igreja de outros pontificados, mas aceitar que, da perspectiva da fé, o católico está obrigado a dar um voto de confiança ao Espírito Santo pela inspiração de ter posto à frente da Igreja, no momento presente da História, o papa actual. As tensões entre conservadores e progressistas certamente continuarão; pela minha parte, alegro-me pelo facto de, na Igreja do presente pontificado, haver palavras como as de D. José Ornelas: palavras que pelo acerto, pela clareza e pelo arrojo são um grande motivo de esperança.
Frederico Lourenço é professor universitário e tradutor da Bíblia, Ilíada e Odisseia, entre outros textos clássicos. Este texto foi inicialmente publicado na página do autor no Facebook, e foi por ele cedido ao 7MARGENS para reprodução. Título da responsabilidade da redacção.










