
O Papa Francisco durante a entrevista: “É mais forte quem vê a situação, quem pensa nas pessoas.” Foto captada do vídeo da entrevista.
“A nossa bandeira é amarela e azul”, responderam as autoridades ucranianas ao desejo do Papa Francisco de que a guerra naquele país dê lugar à negociação, numa entrevista que só vai ser emitida na íntegra no próximo dia 20, mas que já motivou uma onda de protestos e alguns apoios.
A entrevista ao Papa, feita na última semana pela Rádio Televisão Suíça, abordou vários focos de guerra no mundo, em particular na Palestina e na Ucrânia, e algumas partes foram antecipadas neste sábado, correndo, de imediato, a versão de que Francisco defenderia a rendição do país. De facto, quem coloca o tema nesses termos é o jornalista, quando pergunta o que pensa o entrevistado perante aqueles que “pedem a coragem da rendição, da bandeira branca” e os que, pelo contrário “dizem que isso legitimaria o mais forte”.
O Papa não tem dúvidas: “Creio que é mais forte quem vê a situação, quem pensa nas pessoas, quem tem a coragem da bandeira branca, para negociar. E hoje pode-se negociar com a ajuda das potências internacionais”, afirma. “A palavra negociar é uma palavra corajosa. Quando alguém vê que está derrotado, que as coisas não estão ia correr bem, precisa de ter a coragem de negociar”, acrescentou, sem esquecer de acrescentar que a Turquia está disponível para acolher as negociações. “Negociação nunca é rendição. É a coragem de não levar o país ao suicídio”, acrescentou.
Mal estas palavras começaram a correr mundo e a polémica se instalou, a Sala de Imprensa do Vaticano apressou-se a deitar água na fervura, traduzindo o que, alegadamente Francisco queria dizer: “O Papa retoma a imagem da bandeira branca proposta pelo entrevistador, para indicar a cessação das hostilidades, a trégua alcançada com a coragem da negociação. O seu desejo é o de uma solução diplomática para uma paz justa e duradoura.”
O Governo ucraniano não perdeu tempo a rejeitar de forma perentória o que disse ser um apelo do Papa para iniciar negociações com a Rússia. Kiev “nunca” se renderá, assegurou o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba. “A nossa bandeira é amarela e azul. Esta é a bandeira pela qual vivemos, morremos e prevalecemos. Nunca hastearemos quaisquer outras bandeiras”, observou, este domingo, na sua conta na rede X (ex-Twitter), em resposta direta ao Papa, citada pela televisão Al Jazeera. Kuleba pediu ainda ao Papa que fique “do lado do bem” e não coloque os lados opostos “em pé de igualdade e chame isso de ‘negociações’”.
Na Alemanha, um porta-voz governamental disse esta segunda-feira, 11, aos jornalistas que Olaf Scholz “não concorda com o Papa nesta questão”, fazendo notar que “a Ucrânia está a defender-se contra um agressor”. Por sua vez, a ministra da Defesa do país, Annalena Baerbock, havia dito na véspera, não compreender as observações do Papa.
Uma posição importante é a das instituições representadas no Conselho de Toda a Ucrânia das Igrejas e Organizações Religiosas, que diz, em comunicado, que “capitular perante o mal triunfante seria equivalente ao colapso da ideia universal de justiça e uma traição às instruções fundamentais (…) legadas pelas grandes tradições espirituais”.
Sem nunca nomear o Papa, aquele Conselho recorda que a oração pela paz, o regresso dos soldados e dos refugiados é feita diariamente, mas “a rendição a um tal inimigo não seria uma questão de paz, mas de vitória da escravatura sobre a liberdade”.
Esta polémica apanhou os responsáveis máximos da Igreja Greco-Católica da Ucrânia numa reunião do Sínodo Permanente que decorreu nos Estados Unidos da América, sob a presidência do arcebispo. Num comunicado, o Sínodo procurou desvalorizar o que disse o Papa, dizendo que o que ele fez, relativamente a vários conflitos foi vincar a necessidade de chegar à paz. E acentuou o que, do seu ponto de vista, está em causa na Ucrânia:L “As intenções de Putin e da Rússia são claras e distintas. Não é só ele: 70 por cento da população russa apoia a guerra genocida, incluindo o Patriarca Cirilo e a liderança da Igreja Ortodoxa Russa. Os objetivos expressos são traduzidos em ações concretas”, afirma o comunicado.
“Na mente de Putin, acrescenta o documento, não existe Ucrânia, nem história ucraniana, nem língua, nem vida religiosa ucraniana independente. Tudo o que é ucraniano, na sua opinião, é uma construção ideológica que deve ser destruída. Na sua opinião, a Ucrânia não é uma realidade, mas simplesmente uma ‘ideologia’, que ele descreve simultaneamente como ‘nazista’.”
Quem veio a público defender o Papa foi o ex-diretor de La Civiltà Cattolica, o padre Antonio Spadaro. Numa entrevista publicada esta segunda-feira pelo jornal italiano Il Fatto Quotidiano, aquele jesuíta disse que Francisco foi claro, ao sublinhar que negociação não é rendição, mas que as suas palavras ou não foram escutadas ou foram mal compreendidas.
Para Spadaro, o problema está em que negociar incomoda muito a quem tende a ver o mundo partido ao meio. E muitos não perdoam ao Papa ter ousado questionar o conceito de guerra justa, acrescentou aquele padre e jornalista.









