
Foi um serão diferente, entre diferentes: no sábado 12 de outubro (ver 7MARGENS), mais de meia centena de pessoas procuraram a sala, na Casa Diocesana de Vilar, onde se encontraram para conversar. A todas foi dado falar e muito se conversou acerca da Palestina durante mais de duas horas. A conversa, promovida pelo movimento Graal, contou com a participação de Micaela Miranda e de Luís Nuno Barbosa.
Vindas do Norte, do Centro, do Sul, das ilhas, da Grécia, da Palestina… Algumas vieram de bicicleta, chegadas da viagem “do rio até ao mar”, com os capacetes e bandeiras da Palestina. Traziam vidas de todas as idades; a mais nova teria nove anos e a mais velha, mais de oitenta.
Todas diferentes, nenhuma indiferente.
Vieram porque “vemos, ouvimos e lemos – não podemos ignorar!”: o culminar de décadas de ocupação da Palestina no recrudescimento da violência durante o último ano são realidades demasiado desumanas e desumanizadoras. É do conhecimento público o parecer de um painel de peritos que, num processo do procurador do Tribunal Penal Internacional (TPI), validou a verificação de crimes contra a Humanidade, em Gaza, de que são responsáveis o primeiro-ministro e o ministro da Defesa de Israel. Noutro processo, iniciado pela África do Sul, o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), órgão judicial principal das Nações Unidas, impôs ao Estado de Israel, em janeiro de 2024, um conjunto de medidas cautelares que, à luz da Carta das Nações Unidas e do Estatuto do TIJ, devem ser respeitadas e plenamente implementadas, no âmbito da Convenção da Prevenção e Punição do Crime de Genocídio. No entanto, o avanço da ocupação militar prossegue imparável.
Vieram porque querem estar presentes no tempo e no que acontece. Vieram porque acreditam que conversando se podem tecer relações e alicerçar a esperança de contribuir para abrir caminhos a percorrer em comunidade, onde o longe fica perto e cuidar é a palavra-chave.
Muitas trouxeram histórias na primeira pessoa de dias que viveram na Palestina. Histórias de espanto e de estupefação.
Espanto e encantamento pelo acolhimento das famílias palestinianas, que abrem as portas das suas casas com a mesa posta. Olhos brilhantes lembrando as delícias saboreadas nas refeições partilhadas. Surpresa pelo convite para participar em celebrações festivas nas quais as gentes de diferentes etnias e sensibilidades religiosas se juntam em alegre convívio.
Mas também, ao mesmo tempo e no mesmo contexto, estupefação perante a omnipresença do muro serpenteante cortando o horizonte em redor, das torres de vigia e dos portões que soldados israelitas fecham inopinadamente entre uns e outros.
Alguém lembrou o voo dos pássaros, que nenhum muro detém nas suas migrações intercontinentais, e as duas irmãs que continuam a partilhar a observação das aves que fazem metodicamente a partir de Gaza, enfrentando a morte iminente e a destruição arrasadora perpetrada pelo exército estrangeiro que prossegue a ocupação do território, transformando as cidades em escombros e as hortas em desertos.
E ecoou o apelo à ação perante a desumanização diária de que tantas pessoas são vítimas e a que nós não estamos imunes.
“E nós? O que podemos fazer?”
A esperança avança, também entre nós. Em Braga, todas as sextas, das 22h às 00h, no cruzamento da rua do Castelo com a rua do Souto, junto à Brasileira, tem lugar a vigília semanal pela paz, em solidariedade com a Palestina. No Porto, entre outras iniciativas, continua a realizar-se a vigília diária pela paz e em solidariedade com o povo da Palestina, todos os dias, às 21h, em frente ao edifício dos Paços do Concelho. Ambas são abertas a quem queira participar.
No sábado seguinte, 19 de outubro, foi publicada uma carta aberta dirigida ao Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal por Francesa Albanese (relatora especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinianos ocupados desde 1967), na sequência da visita que realizou ao nosso país. Configura um veemente apelo à ação que merece o nosso apoio. Aqui fica o convite a todas as pessoas e instituições para que a subscrevam.
Domingas Vasconcelos é cristã católica, arquiteta, está casada e vive no Porto.










