Palmirinha – Bolbos, socas e Deus

| 16 Fev 21

Em memória da Ir. Domingos,
dedico este texto às Irmãs Teresa e Mary John

PalmiraSignifica “peregrino”, “palmeira”, “cidade das palmeiras”
ou “aquela que nasceu rodeada de palmeiras”.
Palmira é um nome feminino e de origem árabe,
a partir das palavras
palmyra ou polomnitsa,
que podem ser traduzidas como “palmeiras” ou “palmas”

Irmã Maria Domingos, Monjas Dominicanas

A Irmã Maria Domingos num dia de passeio em Setembro de 2016. Foto © Maria do Carmo Mourão Marques Lito.

 

A Ir. Maria Domingos deixou-nos nesta segunda-feira, 15, ao meio dia, na hora que marca a passagem da manhã para a tarde, como se o dia se pudesse dividir em dois. Impossível. O Sol vai-se levantando e depois tombando, devagarinho, até se deitar. Mas o zénite, implacável, revelou-se. Parou ao meio dia, para a Domingos se despedir.

Foi baptizada de Palmira e eu, tentando ter coragem para escrever este texto, pedi ajuda ao Google. Descubro a beleza deste nome e apercebo-me o quanto o nome lhe assentou bem. Soube que se chamava Palmira nas idas aos médicos e hospital. Nas esperas, aguardávamos o sinal, com número e senha para entrar. Às vezes, chamavam pelo nome! Uff! E quando este soava, eu disfarçava a sua surdez, e dizia-lhe: Palmirinha, vamos! Sim, vamos, dizia a peregrina, a que nasceu e viveu rodeada de palmeiras.

Fui cativada por esta mulher franca, alegre, desconcertante, terna e ousada. E livre.

Monja improvável na minha vida!

Acho que me cativou a sua agudeza de espírito, os seus braços fortes carregados de ramos da poda, as suas desconcertantes tiradas teológicas, as socas cor de rosa que levou para o hospital, as galochas em dia de chuva, os dedos em mãos postas, de recolhimento quando rezava, as gorjetas astronómicas que deixava ao senhor do táxi, a sua alegria quase infantil quando descobriu uma maquineta para enterrar bolbos, pois os seus dedos já lhe trocavam as voltas. A docilidade de coração que exprimia na amizade profunda com o frei Mateus Peres. As suas gargalhadas e o seu silêncio. O cuidado e o acolhimento de muitos improváveis num Mosteiro.

Um dia, conversámos sobre o mistério da contemplação. Ela disse: “Sabes, eu também não sei explicar, mas é um Dom, Bli, é um Dom de Deus, um desejo de ver TUDO revelado em Jesus Cristo.” Eu respondi que era uma prática quase inalcançável para mim, que sou tão fraca. Lembro-me que me disse: “Exige verdade de vida, uma sintonia plena com tudo o que é simples, o que damos e recebemos, a gratuidade e acima de tudo com a Justiça. A de Deus e a que somos chamados a cultivar.”

Quando desmanchávamos a casa do Mosteiro do Lumiar, há dois anos, preparando a partida para Fátima, as Manas Domingos, Teresa e Mary John deram-nos o letreiro de cartão pardo com letras pretas desenhadas à mão, que diz CLAUSURA. Esse letreiro estava colado na parede que separa a entrada do resto da casa. Estava colado com fita-cola, e ainda se nota um ténue traço de lápis a marcar o meio da folha, qual truque discreto, para marcar a simetria. Nessa altura ela disse-me: “Sabes, a clausura não são paredes, são as pessoas.”

Era assim a minha Palmeirinha. Cresceu tanto que chegou ao Céu.

 

Maria do Carmo Mourão Marques Lito

 

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