Pandemia e vacinas: União Europeia à espera dos Estados Unidos? (análise)

| 9 Mai 21

Vacina, covid-19

A distribuição das vacinas pelos países mais pobres ainda está a ser gerida com muitas cautelas pela União Europeia e EUA. Foto © Spencerbdavis:Wikimedia Commons

 

Depois de o Presidente dos Estados Unidos da América (EUA) ter manifestado abertura à suspensão temporária dos direitos de propriedade intelectual das vacinas contra a covid-19 e de o Presidente da Rússia ter concordado em enveredar pelo mesmo caminho, a União Europeia viu-se, esta semana, na situação de um relativo isolamento quanto à eventual adoção dessa medida.

A República Popular da China, por seu lado, está desde há alguns meses a utilizar as próprias vacinas (Sinopharm e Coronavac) não apenas para responder a necessidades internas como também para difundi-las nas zonas do planeta em que tem interesses estratégicos. Acresce que, no caso da Sinopharm, a OMS nota que tem “requisitos de armazenamento fáceis”, o que a torna “altamente adequada para situações com poucos recursos”.

Neste quadro, a Europa até agora destoou e confundiu. E quem pesou na resistência a equacionar a suspensão das patentes foi, em primeiro lugar, Angela Merkel, pressionada pelos interesses do país no fabrico e exportação de vacinas.

O Presidente francês, Emmanuel Macron, e o chefe do governo italiano, Mario Draghi, começaram por manifestar concordância com a proposta de Biden, mas, ficando claro que os interesses dos países da União divergem, ficou decidido que o assunto seria discutido na reunião informal do Conselho Europeu, que decorreu esta sexta e sábado, no Porto.

Entretanto, circulou a ideia de que a medida anunciada pelos EUA era vaga e eventualmente não muito credível, pelo facto de aquele país ter adotado, desde Trump, uma orientação “nacionalista” na gestão das vacinas.

Compreende-se, assim, que dos encontros e da reunião de chefes de Estado e de governo da UE no Porto tenham saído dois grandes argumentos ou orientações: por um lado, definir como prioridade acelerar a produção de vacinas na Europa; por outro, manifestar disponibilidade para discutir as ideias de Washington, desde que haja uma proposta concreta em cima da mesa.

Macron disse este sábado, 8, durante a Cimeira, que “a prioridade atual não são as patentes, mas a produção” das vacinas. Ursula von der Leyen reforçou: “Penso que é muito importante e deveríamos estar abertos a esta discussão do licenciamento (…) mas devemos estar cientes de que estes são tópicos a longo prazo, não a curto ou médio prazo”, disse Ursula von der Leyen, no final do Conselho Europeu, no Palácio de Cristal.

Bruxelas pretende dizer que quem até agora tem exportado vacinas para os países em vias de desenvolvimento não têm sido os Estados Unidos, mas a União Europeia e que esta quer continuar nessa senda, estimulando a produção e apostando, ao mesmo tempo, no plano da solidariedade internacional, no mecanismo Covax. E Macron não deixa de espetar a alfinetada ao instar “os países anglo-saxónicos” a “acabarem com a proibição de exportações”.

 

Interesses políticos e económicos
vacina ebola, Foto ONU_Vincent Tremeau

Nem o mercado das vacinas nem a solidariedade via Covax impediram, até agora, de deixar grande parte dos países mais pobres arredados do processo de vacinação. Foto © ONU/Vincent Tremeau.

 

O que os dirigentes europeus não dizem é que nem o mercado das vacinas nem a solidariedade via Covax impediram, até agora, de deixar grande parte dos países mais pobres totalmente arredados do processo de vacinação. Justamente porque um dos fatores que tem pesado, além da falta de vacinas, é o poder económico para negociar as que existem ou até que podem vir a existir.

O que se conclui é que quer os Estados Unidos quer a Europa têm estado mais preocupados consigo mesmos e com os seus interesses políticos e económicos do que com uma visão sistémica e global do problema, que possa envolver a todos e que faça o planeta sair do flagelo que tem vivido.

Daí a oportunidade da mensagem vídeo que o Papa Francisco fez chegar ao espetáculo Wax Live, que decorreu na noite deste sábado para domingo em Los Angeles, como o 7MARGENS desenvolve noutra notícia. Voltando a clamar pela urgência de uma vacina para todos, alertou para os vírus que têm surgido com o desenvolvimento da covid: “O vírus do individualismo, que não nos torna mais livres nem mais iguais ou mais fraternos, mas antes nos torna indiferentes ao sofrimento dos outros. E uma variante desse vírus [que] é o nacionalismo fechado, que impede, por exemplo, um internacionalismo das vacinas”. Outra variante é quando colocamos as leis do mercado ou da propriedade intelectual “acima das leis do amor e da saúde da humanidade”, acrescentou o Papa.

A União Europeia acaba, assim, por se colocar à espera dos Estados Unidos, em lugar de avançar com uma estratégia própria inspirada pelos seus valores fundadores. E acaba por não responder com clareza aos cidadãos europeus sobre se a cedência temporária dos direitos das patentes, de modo a descentralizar a produção para países com mais dificuldades, pode contribuir para atenuar a gravíssima assimetria a que atualmente se assiste. Afinal, como se sabe, foram dinheiros públicos – ou seja, os contribuintes – quem pagou, em boa parte, os programas de investigação que conduziram à criação das vacinas.

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