
De acordo com o relatório da Save the Children, há 9,7 milhões de crianças em risco de não regressarem à escola este ano. Foto: Sonali Chakma, Save the Children.
Dois terços das crianças pobres não tiveram qualquer contacto com os seus professores durante o confinamento e oito em cada dez dizem ter aprendido “pouco ou nada” desde o encerramento das escolas. Os dados são revelados no relatório “Protect a Generation” (em português, Proteger uma Geração), divulgado esta quinta-feira pela organização de defesa dos direitos das crianças Save the Children, e tem por base um inquérito realizado a 25 mil crianças e adultos em 37 países onde a instituição desenvolve programas de ajuda.
Entre os menores que não tiveram aulas enquanto estavam em casa, 17% dizem ter sido alvo de violência. A percentagem baixa para 8% entre aqueles que tiveram acesso a aulas virtuais. O estudo revela ainda que, no grupo das crianças mais pobres, aqueles que tiveram acesso à Internet para aceder ao ensino à distância correspondem a menos de 1%.
As conclusões do estudo levam a Save the Children a considerar que a pandemia provocou “a maior emergência educativa da história”, com 9,7 milhões de crianças em risco de não regressarem à escola este ano.
O aumento das desigualdades no ensino durante o período de confinamento devido à pandemia de covid-19 é um dos temas em destaque na mensagem da Congregação para a Educação Católica dirigida esta quinta-feira, 10 de setembro, a alunos e professores de todo o mundo, e divulgada pelo L’Osservatore Romano.
“Cerca de dez milhões de crianças não terão acesso à educação nos próximos anos, aumentando a lacuna educacional já existente”, assinala a carta, apontando para a uma estimativa semelhante à Save The Children, e alertando ainda para a “situação dramática das escolas e universidades católicas” que, sem o apoio económico do Estado, “correm o risco de fechar ou de redimensionamento radical”.
Apesar disso, a Congregação para a Educação Católica convida todos a “unir esforços numa ampla aliança educacional para formar pessoas amadurecidas”, visando “uma humanidade mais fraterna” e sublinha que “é hora de olhar para frente com coragem e esperança”.
O drama das crianças “chefes de família”
Um outro relatório divulgado esta semana, elaborado pela Comissão Justiça e Paz da Igreja Católica da África do Sul, alerta para a marginalização e risco de exploração a que estão sujeitas as crianças “chefes de família”. Trata-se de crianças órfãs, cujos pais faleceram ou as deixaram sós para irem trabalhar longe de casa.
“O nosso pai só volta para casa no Natal. Ele compra-nos comida suficiente para duas semanas, depois deixa-nos novamente. E morremos de fome durante o resto do ano”, pode ler-se num dos testemunhos incluídos no relatório.
Marginalizados pela sociedade, que não os consideram “produtivos”, estes menores são frequentemente “depredados pelos seus próprios familiares que, após a morte dos seus pais, lhes tiram a herança”, explica o documento. A Comissão Justiça e Paz sul-africana salienta ainda como as crianças chefe de família apresentam “sintomas de autocomiseração e baixa autoestima, tanto que estão convencidas de que merecem a indiferença da sociedade”.
A Igreja sul-africana propõe o lançamento de programas especiais, em colaboração com o Governo e as organizações da sociedade civil, com o objetivo de promover uma verdadeira “regeneração moral que estimulará novamente o sentido de responsabilidade da sociedade e a vontade das famílias alargadas de cuidar dos filhos dos seus familiares falecidos ou ausentes”.










