Papa ajoelha e beija os pés a líderes sul-sudaneses a pedir compromisso pela paz

| 12 Abr 19

 

 

Gesto foi criticado por articulistas que recordam que Francisco não ajoelha diante do sacrário por causa da ciática de que sofre; Vaticano fala de um “sinal extraordinário para invocar o compromisso dos líderes sul-sudaneses pela paz”. Papa confirma desejo de visitar o país, acompanhado do arcebispo de Cantuária.

Rosto sereno, o Papa Francisco dirige-se aos responsáveis do conflito no Sudão do Sul e pede-lhes: “A vós, que assinastes o acordo de paz, peço-vos como irmão: permanecei na paz.” Gesto imediato, volta-se para o seu tradutor, pede-lhe em italiano “acompanha-me” e vai junto do Presidente sul-sudanês e dos restantes líderes e beija-lhes os pés (como se pode ver no vídeo acima, do Vatican Media e da TV2000). 

“Gesto do servo dos servos de Deus”, “comovente e surpreendente”, como escreve o responsável pelo pelos serviços informativos do Vaticano, Andrea Tornielli? Um “sinal extraordinário para invocar o compromisso dos líderes sul-sudaneses pela paz, como o define a Sala de Imprensa do Vaticano? Ou uma atitude indigna, ajoelhando-se perante criminosos de guerra, como se apressaram a criticar alguns jornalistas? Ou ainda pondo em contraste a recusa do Papa em aceitar beijos na mão e a sua dificuldade em ajoelhar perante o sacrário e a forma como se foi ajoelhar perante aquelas pessoas?

O pequeno discurso do Papa concluiu o retiro espiritual que os líderes sul-sudaneses fizeram quarta e quinta, no Vaticano, e que foi preparado em conjunto pelo arcebispo de Cantuária e líder espiritual dos anglicanos, Justin Welby, com o apoio do Vaticano. A guerra civil no mais jovem país do mundo, que se tornou independente em 2011, já terá provocado mais de 400 mil mortos desde 2013 e cerca de quatro milhões de deslocados e refugiados.

A iniciativa tem uma razão de fundo: o Sudão do Sul alcançou a sua independência depois de décadas de conflito, porque a maioria da sua população é cristã, por oposição ao norte, onde domina o islão. Grupos de cristãos, apoiados também pelos argumentos de vários responsáveis religiosos, defenderam a autonomia e independência do país em relação ao Sudão norte.

 

À frente do povo, as mãos unidas!

Sul-sudaneses em fuga: o jovem país foi devastado em seis anos por uma guerra civil que provocou 400 mil mortos e quatro milhões de deslocados: o Papa quer um “forte compromisso dos responsáveis com o próprio povo”. Foto © ACN Portugal

 

“Peço com o coração: vamos em frente. Haverá muitos problemas, mas não se espantem. Continuem, resolvam os problemas. Vocês iniciaram um processo; que acabe bem! Haverá lutas entre vocêsmas que sejam dentro dos gabinetes. À frente do povo, as mãos unidas! Assim, de simples cidadãos, podem converter-se em pais da nação. Permitam-me pedir isso com o coração, com meus sentimentos mais profundos”. O Papa referiu a palavra mais de 30 vezes e afirmou: “A paz é possível, não me cansarei de repetir isso.” Mas exige um “forte compromisso dos responsáveis com o próprio povo”.

A escutar o Papa, estavam vários líderes políticos, entre os quais o Presidente Salva Kiire os doisvice-presidentes designados: Rebecca Nyandeng De Mabiore Reik Machar, líder da oposição. No próximo dia 12 de Maio, todos tomarão posse dos cargos na sequência do acordo assinado em Setembro. Também os responsáveis do Conselho de Igrejas do Sudão do Sul, que reúne diferentes confissões cristãs. Diante de todos eles, o Papa garantiu: “Confirmo o meu desejo e a minha esperança de que, com a graça de Deus, possa ir em breve à vossa amada nação, juntamente com os meus irmãos aqui presentes, o arcebispo de Cantuária e o ex-moderador da Igreja Presbiteriana”, John Chalmers.

O Papa insistiu na preocupação com o destino dos sul-sudaneses: “Os meus pensamentos dirigem-se principalmente para as pessoas que perderam os seus entes queridos e as suas casas, para as famílias que se separaram e nunca voltaram a encontrar-se, para todas as crianças e idosos, para as mulheres e homens que sofrem terrivelmente devido aos conflitos e às violências que espalharam a morte, a fome, a dor e as lágrimas”.

Um dos parágrafos do discurso (que pode ser lido aqui na versão espanhola) fala especificamente sobre o “olhar do povo”. Francisco afirmou: “O olhar de Deus está posto especialmente sobre vós e é um olhar que vos oferece a paz. Mas também há um outro olhar sobre vós: o olhar do vosso povo, um olhar que expressa o ardente desejo de justiça, de reconciliação e de paz.”

“Desejo assegurar a minha proximidade espiritual a todos os vossos compatriotas, em particular aos refugiados e doentes, que ficaram no país com grandes expectativas e a respiração suspensa, esperando o resultado deste dia histórico”, afirmou o Papa. “E, como Noé esperou que a pomba lhe levasse o ramo da oliveira para mostrar o fim do dilúvio e o começo de uma nova era de paz entre Deus e os homens, assim o vosso povo espera o vosso regresso à pátria, a reconciliação de todos seus membros e uma nova era de paz e prosperidade para todos”.

Francisco acrescentou, em jeito de apelo final: “Espero de todo o coraão que se respeite o armistício – por favor, respeitem o armistício! –, que as divisões políticas e étnicas sejam superadas e que a paz seja duradoura, pelo bem comum de todos os cidadãos que sonham em começar a construir a nação”.

No final, cada um dos presentes recebeu uma Bíblia, oferecida e assinada no momento pelo Papa e por Justin Welby. Em cada exemplar, havia uma dedicatória: “Busca o que une. Supera o que divide”.

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