Visita à Bienal de Veneza

Papa alerta para o turismo excessivo e as alterações climáticas

| 28 Abr 2024

Francisco dedicou seis horas à cidade de Veneza, onde se deslocou de barco. Foto © Vatican Media, via Agência Ecclesia.

Francisco dedicou seis horas à cidade de Veneza, onde se deslocou de barco. Foto © Vatican Media, via Ecclesia.

O Papa elogiou este domingo a história de Veneza como “lugar de encontro e de intercâmbio cultural”, alertando ainda para os riscos colocados à cidade pelo turismo e as alterações climáticas.

“Veneza, que sempre foi um lugar de encontro e de intercâmbio cultural, é chamada a ser um sinal de beleza acessível a todos, a começar pelos últimos, um sinal de fraternidade e de cuidado pela nossa casa comum. Veneza, terra que faz irmãos”, disse, na homilia da Missa a que presidiu na Praça de São Marcos, citado pela agência Ecclesia.

A celebração encerrou uma visita de seis horas à cidade italiana, dedicada ao pavilhão da Santa Sé na Bienal de Arte, instalada na prisão feminina de Giudecca, onde se encontrou com as reclusas e sublinhou a “dignidade” de todas as pessoas. “Ninguém tira a dignidade de uma pessoa, ninguém”, assinalou, no pátio da instituição.

Após ter atravessado de barco os canais venezianos, Francisco falou da “beleza encantadora” da cidade e dos “muitos problemas que a ameaçam”. “As alterações climáticas, que têm impacto nas águas da lagoa e no território, a fragilidade dos edifícios, do património cultural, mas também das pessoas, a dificuldade de criar um ambiente à escala humana através de uma gestão adequada do turismo”, advertiu. Na homilia, sublinhada com uma salva de palmas, nesta passagem, considerou que estas realidades correm o risco de gerar “relações sociais desgastadas, individualismo e solidão”.

O Papa destacou o simbolismo de uma cidade “construída sobre a água e reconhecida por esta singularidade”. “Veneza é uma só com as águas sobre as quais se encontra e, sem o cuidado e a proteção deste ambiente natural, poderia mesmo deixar de existir. O mesmo acontece com a nossa vida: também nós, imersos desde tempos imemoriais nas fontes do amor de Deus, fomos regenerados no batismo, renascemos para uma vida nova pela água e pelo Espírito Santo e fomos colocados em Cristo como ramos na videira.”

Depois de atravessar o pontão que liga a Basílica da Saúde, onde se encontrou com jovens das dioceses do Veneto, à Praça de São Marcos, o Papa foi recebido por responsáveis regionais e autárquicos. 

Perante milhares de pessoas, Francisco sustentou que os cristãos devem oferecer à sociedade “frutos de justiça e de paz, frutos de solidariedade e de cuidado mútuo, escolhas de cuidado com o ambiente, mas também com o património humano”.“Precisamos que as nossas comunidades cristãs, os nossos bairros, as nossas cidades se tornem lugares hospitaleiros, acolhedores, inclusivos”, reforçou.

A homilia recorreu a imagens da “longa história que liga Veneza ao trabalho da vinha e à produção de vinho”, bem como às passagens da Bíblia que fazem referência a estas realidades. “A metáfora da videira, se por um lado exprime o cuidado amoroso de Deus por nós, por outro adverte-nos, porque se rompermos este vínculo com o Senhor, não poderemos gerar frutos de vida boa e corremos o risco de nos tornarmos nós próprios ramos secos. É feio isto, tornar-se ramos secos, esses ramos que são deitados fora”, observou. O Papa acrescentou que “permanecer no Senhor significa crescer na relação com Ele, dialogar com Ele, acolher a sua Palavra, segui-lo no caminho do Reino de Deus”.

No final da Missa, antes da recitação do ‘Regina Coeli’, D. Francesco Moraglia, patriarca de Veneza, agradeceu a presença de Francisco, destacando as mensagens do seu pontificado em favor dos migrantes, da paz e da defesa da natureza. O Papa saudou os presentes e todos os responsáveis pela organização da visita, deixando um pedido final: “Por favor, não se esqueçam de rezar por mim, porque este trabalho não é fácil.”

Francisco teve ainda uma visita privada à Basílica de São Marcos, seguindo depois num barco-patrulha até ao heliporto do Colégio Naval ‘F. Morosini’, em Santa Helena, para regressar ao Vaticano.

 

Espaço do Vaticano sobre direitos humanos e “os últimos” 

A prisão feminina de Giudecca acolhe o espaço do Vaticano na Bienal de Veneza. Foto © Vatican Media, via Agência Ecclesia.

A prisão feminina de Giudecca acolhe o espaço do Vaticano na Bienal de Veneza. Foto © Vatican Media, via Ecclesia.

Francisco foi o quarto pontífice a visitar Veneza, que recebeu Paulo VI em 1972, João Paulo II em 1985 e Bento XVI em 2011, mas o primeiro a visitar a Exposição Internacional de Arte da Bienal, na sua 60ª edição, recordou a agência Ecclesia.

O espaço do Vaticano, em 2024, é “dedicado ao tema dos direitos humanos e à figura dos últimos”, para promover “a construção de uma cultura do encontro, eixo central do magistério do Papa Francisco”.

A prisão feminina de Giudecca acolhe o projeto intitulado ‘Com os meus olhos’, confiado a Chiara Parisi e Bruno Racine, em colaboração com artistas como Maurizio Cattelan, Bintou Dembélé, Simone Fattal, Claire Fontaine, Sônia Gomes, Corita Kent, Marco Perego & Zoe Saldana, Claire Tabouret, além da participação especial de Hans Ulrich Obrist.

O Papa encontrou-se com os artistas que participaram no Pavilhão do Vaticano, destacando a importância do seu trabalho para superar o racismo, as desigualdades sociais ou a crise ecológica. “Daqui, gostaria de enviar a todos esta mensagem: o mundo precisa de artistas. É o que demonstra a multidão de pessoas de todas as idades que frequentam espaços e eventos artísticos”, declarou Francisco.

 

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