Leão XIV disse aos bispos espanhóis que a sua maior preocupação naquele país é a extrema-direita, alertando-os para o facto de esta procurar “instrumentalizar a Igreja” e “conquistar o voto católico”. Esse terá mesmo sido um dos principais temas da conversa mantida entre o Papa e o comité executivo da Conferência Episcopal Espanhola (CEE), quando o organismo foi ao Vaticano para a sua primeira audiência.
O encontro aconteceu no passado mês de novembro, mas o seu teor só agora foi revelado pelo jornal El País (artigo exclusivo a assinantes). De acordo com este periódico, o Papa “surpreendeu” os nove bispos que compõem o comité ao “deixar claras as suas prioridades e ir direto ao assunto”.
De acordo com um prelado cuja identidade não é revelada pelo diário, o presidente da conferência episcopal, Luis Argüello, abriu o encontro atualizando o Papa sobre a situação da Igreja espanhola. Falou sobre questões gerais, como a secularização e os problemas demográficos, bem como sobre os casos de pedofilia clerical. Leão XIV ouviu em silêncio e, quando por fim tomou a palavra, abordou a questão que realmente o preocupava: a ascensão da extrema-direita. “O Papa vê que a extrema-direita está a usar os fiéis para os seus próprios fins”, afirmou o prelado. E de facto, à saída do encontro com o Papa, Argüello havia comentado com os jornalistas: “Vimos que Robert Prevost conhece bem Espanha”.
Vários grupos de extrema-direita têm vindo a acusar os bispos espanhóis de “traírem” os fiéis ao apoiar as políticas “anticristãs” do Governo como uma “troca de favores pré-acordada” por casos de pedofilia ou “como consequência do sistema de auxílio” que recebem.
Os mesmos grupos criticam ainda o episcopado por se manter “em silêncio perante o avanço do Islão” e chegam mesmo a propor que os fiéis deixem de assinalar a opção de doação à Igreja nas suas declarações de IRS.
Estas mensagens começaram a circular no Verão passado, no que parece ser uma tentativa de deslegitimar a hierarquia da Igreja e de atrair votos, refere o El País.
Após o encontro com o Papa no Vaticano, os bispos regressaram então com orientações concretas para estarem atentos às intenções destes grupos de extrema-direita, e também com a missão de resolver o mais rapidamente possível o conflito com o Governo espanhol relativamente à indemnização às vítimas de pedofilia, uma questão que estava paralisada há um ano e meio devido à recusa da CEE em assumir a responsabilidade pela indemnização de centenas de vítimas cujas reivindicações não considera credíveis. Bispos e Governo chegaram a acordo nesta matéria no passado dia 8 de janeiro [ver 7MARGENS].
Dias depois, a 27 do mesmo mês, os bispos apoiaram também o plano de regularização de imigrantes aprovado pelo governo em Conselho de Ministros e fortemente criticado pelo partido de extrema-direita Vox.

O bispo Luis Argüello e representantes do Governo espanhol,, após assinatura do acordo sobre as indemnizações às vítimas de abusos, a 8 de janeiro. Foto © Ministério da Presidência
O jornal El País assinala que alguns dos ataques mais diretos a Leão XIV provêm de portais digitais espanhóis ultraconservadores, que já desempenhavam um papel de destaque antes do conclave com uma “campanha contra ele”, mesmo antes de ter sido eleito. “Usaram um caso de pedofilia ocorrido em 2022 na diocese peruana de Chiclayo, quando o futuro papa era bispo da diocese, para o acusar de encobrimento”, recorda o periódico. Esta manobra teve início no Peru após a dissolução do Sodalício da Vida Cristã, uma organização católica acusada de inúmeros casos de corrupção, abusos de poder e violência sexual, nomeadamente contra crianças e adolescentes. Foi dissolvida por Francisco em 2025 e contou com o apoio de Prevost, apesar da forte oposição interna devido às ligações da organização.
“Vi com os meus próprios olhos estes grupos a distribuir panfletos em Roma contra Prevost”, diz um cardeal, citado pelo El País, recordando os dias do conclave. “Para o Papa, estes grupos são uma preocupação real”, confirma outra fonte do Vaticano. Trata-se de uma rede de setores de extrema-direita, interligados nos Estados Unidos, México, Peru e Espanha, que movimenta muito dinheiro e já era bastante ativa contra o Papa Francisco.
Quanto ao Papa Leão XIV, sabe-se que não era o candidato preferido da fação mais conservadora no conclave, e estará agora sob observação até que fique claro se seguirá o caminho de Francisco ou não. Mas já dá sinais disso mesmo e enfrenta “sabotagens subtis”: frases estão a ser inseridas nos seus discursos, exemplificam fontes do Vaticano. “Mas ele estuda a situação e, quando age, age”, asseguram.
Assim o indica o teor deste encontro com os bispos espanhóis. E provavelmente o confirmará a sua viagem apostólica a Espanha no próximo mês de junho, que foi esta semana oficialmente confirmada.










