Papa altera regra e confirma possibilidade de mulheres serem leitoras e acólitas, já praticada na maior parte das dioceses

| 12 Jan 21

Manifestação da Revolta das Mulheres na Igreja, em Madrid, no início de Março 2020: muitas reclamam mais possibilidades de participação, o Papa formaliza agora o que já se pratica em muitos sítios. Foto reproduzida da página da Revolta das Mulheres na Igreja, na rede social Twitter

 

Um motu proprio (decreto) do Papa Francisco publicado nesta segunda-feira confirma aquilo que já é prática na esmagadora maioria das paróquias e dioceses católicas: as mulheres passam a poder ser também, formalmente, leitoras e acólitas – ou seja, podem proclamar os textos bíblicos ou colaborar no serviço do altar, durante as eucaristias.

“É uma boa notícia”, comenta o bispo de Bragança, D. José Cordeiro, especialista em liturgia e membro da Comissão Episcopal de Liturgia e Espiritualidade (CELE). Em declarações ao 7MARGENS, este responsável diz que esta é uma prática já em todas as dioceses do país, com a excepção de alguns párocos que não aceitam a ideia de mulheres (ou raparigas) a ler ou a servir como acólitas.

“O gesto do Papa é o reconhecimento de um percurso que já se faz na Igreja e que passa a ser assinalado por um acto litúrgico”, diz o bispo português. Ou seja, de acordo com o decreto agora publicado, as mulheres podem também ser instituídas como leitoras e acólitas, “mediante o discernimento dos pastores e depois de una adequada preparação”. Além da possibilidade de acesso das mulheres aos dois ministérios, prevê-se que a decisão implique “estabilidade, reconhecimento público e um mandato do bispo”, tornando “mais efectiva na Igreja a participação de todos na obra de evangelização”.

Esta mudança, acrescenta o Papa, permite “também que as mulheres tenham uma incidência real e efectiva na organização, nas decisões mais importantes e na orientação das comunidades, mas sem deixar de o fazer com o estilo próprio da sua marca feminina.”

A decisão corresponde não só a uma prática instalada, mas também aos pedidos de vários sínodos de bispos, o último dos quais, o da Amazónia, que alertava para a necessidade de pensar em “novos caminhos para a ministerialidade eclesial”. É urgente, dizia o documento final da assembleia de Outubro de 2019, “que se promovam e se confiem ministérios a homens e mulheres”.

 

Reconhecimento de outros ministérios a caminho?

No documento, escrito em forma de carta dirigida ao prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Luis Ladaria, o Papa recorda a história para justificar a mudança: os ministérios de leitor e acólito – denominados como “ordens menores” – eram, até ao Concílio Vaticano II (1962-65), apenas degraus para poder ser ordenado padre. Como só os homens podem ser presbíteros, os “degraus” anteriores estavam também vedados às mulheres.

Só depois passaram a ser considerados autónomos e podendo ser exercidos também por leigos, o que permite agora a sua abertura às mulheres em plano de igualdade. “Uma distinção mais clara entre as atribuições dos que hoje se denominam ‘ministérios não ordenados (ou laicais)’ e ‘ministérios ordenados’ permite dissolver a reserva dos primeiros apenas aos homens”, explica o Papa. E, se mantém a interdição do acesso das mulheres ao sacerdócio, “para os ministérios não ordenados é possível, e hoje parece oportuno, superar esta reserva”.

Este reconhecimento, que passará a ser formalizado através de um rito litúrgico na celebração de uma missa e exigirá o estabelecimento de critérios, permitirá a “preciosa contribuição que desde há tempo muitíssimos leigos, e também as mulheres, dão à vida e à missão da Igreja”.

Assim, conclui o Papa, o “sacerdócio próprio de cada fiel e o sacerdócio dos ministros ordenados mostrar-se-ão ainda mais claramente relacionados entre si para a edificação da Igreja e o testemunho do Evangelho”.

Para a aplicação do motu proprio, as conferências episcopais terão de estabelecer agora critérios para a formação e o acesso de candidatos, sublinha o bispo José Cordeiro. Este responsável da CELE acrescenta que, além destes dois ministérios, outros podem ser consagrados formalmente, como os de catequista, ministros(as) extraordinários(as) da comunhão ou do acolhimento, um serviço que já existia em alguns casos mas se desenvolveu nos últimos meses, por causa das regras de segurança para controlar a pandemia.

Para já, também fica de fora a possibilidade de mulheres diáconos, já que o tema continua em discussão. Em Agosto, o Papa instituiu uma nova comissão para estudo do problema, de forma a que a averiguar se historicamente há razões para que as mulheres possam aceder aquele que, agora, é o primeiro “grau” do ministério ordenado.

 

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