No Consistório extraordinário que promoveu este fim de semana no Vaticano, o Papa Leão XIV colocou os cardeais da Igreja Católica a “escutar o que as feridas do mundo revelam sobre o coração humano”, particularmente a guerra. Mas fê-lo em registo sinodal, colocando os purpurados a escutarem-se uns aos outros em pequenos grupos. No final, Leão XIV manifestou o desejo de que este tipo de experiência se espalhe por toda a Igreja.
Falando na sessão de encerramento, o Pontífice disse levar consigo “não só o conteúdo das suas reflexões, mas também a experiência que as tornou possíveis”: a de “buscarem juntos o que melhor serve ao Evangelho foi para mim uma fonte de consolo e esperança”, disse. E, nesta linha, observou também: “Em toda a Igreja, desejamos promover espaços onde o povo de Deus possa escutar uns aos outros, rezar, discernir e caminhar juntos. Esta é a essência do processo de implementação do Sínodo”.
O percurso sinodal foi, de resto, um dos pontos fortes de uma das sessões, introduzido pelo cardeal Grech, responsável do Secretariado Geral do Sínodo. O Papa salientou, na intervenção final, que a questão da sinodalidade “não é primordialmente: ‘quem tem o poder de decidir?’”, mas “como salvaguardamos juntos o dom que o Senhor confiou à sua Igreja?”.
“Quando esta questão se torna o centro do nosso discernimento, as questões da autoridade, da corresponsabilidade e das decisões também encontram o seu devido lugar, iluminadas pela missão e pela fidelidade partilhada ao Evangelho”, acrescentou.
Leão XIV referiu-se à intervenção que o cardeal Grech havia feito, observando que a sinodalidade “não é uma coleção de reuniões, nem um método de trabalho” nem se limita a uma troca de ideias, mas “um lugar de conversão”, “um estilo espiritual” que “nasce do encontro, cresce através da escuta e amadurece através do discernimento”.
Leão XIV: “Quero confiar-vos o percurso de implementação do Sínodo”
Para tal, o sucessor de Pedro apelou diretamente aos cardeais para se envolverem neste processo, dizendo: “Quero confiar-vos, mais uma vez, o percurso de implementação do Sínodo. Peço-vos que o acompanhem com convicção nas Igrejas a que servem, fomentando uma compreensão autêntica e encorajando a participação de todos: trata-se de ajudar as nossas Igrejas a crescerem de uma forma cada vez mais evangélica”.
A guerra e a paz foram outro assunto debatido nos grupos, a partir de uma introdução do cardeal Victor Fernandez, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, o qual se centrou no capítulo V da Magnifica Humanitas, intitulado “Cultura do poder e civilização do amor”. A Encíclica chama a atenção para “uma preocupante reabilitação da guerra como instrumento de política internacional” (n. 190) – uma mudança de paradigma relativamente ao clima criado no pós-guerra, materializado na Carta das Nações Unidas.
É no coração humano, revelado nas “feridas do mundo” que o Papa vê um dos lugares em que “a paz também se decide”. Isto porque, acrescenta ele, “antes de se manifestar na história, a guerra surge dentro de nós, quando a suspeita substitui a confiança, o medo substitui a esperança e o outro é percebido como uma ameaça. Mas é nesse mesmo coração que Cristo continua a nos encontrar, a falar connosco e a nos converter”. “De um coração reconciliado, podem nascer palavras desarmadas, novos relacionamentos e uma paz capaz de alcançar até os povos mais distantes”, observa Leão.
Por outro lado, no espírito da Magnifca Humanitas, “a guerra não é meramente um conflito entre Estados. Ela surge muito antes, de uma cultura de poder que permeia a nossa maneira de pensar, de viver as relações, de exercer o poder, de usar a economia, a tecnologia e até mesmo a religião”. A resposta “exige a reconstrução de uma cultura de cooperação e diálogo, capaz de dar novo vigor ao multilateralismo, para que os povos possam aprender novamente a buscar juntos o bem comum de toda a família humana”.
Alguns dos cardeais presentes no Consistório abordaram o tema da resposta não violenta às muitas formas de violência, o que foi apreciado pelo bispo de Roma. “Trata-se – afirmou ele – de um modo de viver a história profundamente evangélico, fruto da contemplação do modo de agir de Jesus. Não consiste em renunciar ao conflito ou a uma atitude passiva, mas em escolher confrontá-lo sem reproduzir a sua lógica. Não renuncia à verdade nem silencia o mal, mas recusa-se a defendê-lo com violência e a transformar o outro em inimigo: começa por desarmar-se. Revela, assim, a lógica da Páscoa, em que o amor se manifesta como mais forte do que o ódio e o perdão quebra a espiral da vingança”.
Encontro de bispos sobre a família terá a participação… de famílias
Os trabalhos do Consistório permitiram ainda chamar a atenção para o sofrimento causado pela guerra, pela violência, pela pobreza e pelas inúmeras injustiças que marcam a vida das pessoas; alertar para os problemas dos jovens – as suas perguntas, mas também o seu sofrimento que às vezes os leva ao desespero; a apontar a Doutrina Social da Igreja e o desejo de que ela “se torne cada vez mais um património vivo das nossas comunidades, um critério fundamental para a formação de consciências e para o discernimento pastoral”.
A família foi também colocada como motivo de reflexão, quer enquanto “escola de relações, solidariedade e esperança” quer nas sus feridas e ruturas. Nesta linha, Leão XIV recordou a espécie de cimeira que vai organizar no Vaticano, em outubro próximo, com os líderes das igrejas orientais e os presidentes das conferências episcopais. Como já havia sido noticiado, esse encontro destina-se a “avaliar as medidas tomadas desde a Amoris Laetitia”, exortação apostólica do Papa Francisco, publicada em março de 2016.
A novidade agora dada foi que algumas famílias também participarão, para “compartilhar as suas experiências”. “A presença delas é essencial, mas espero que todos os que vierem se preparem ouvindo atentamente e trazendo consigo a experiência das famílias de suas Igrejas”, pediu o Papa.










