
Papa Francisco aroveitou as dubia para esclarecer toda a Igreja sobre o documento. Foto direitos reservados
O Papa acaba de aprovar um esclarecimento de algumas dúvidas suscitadas pela sua sua carta apostólica sob a forma de ‘motu proprio’ Custodes Traditionis de julho deste ano, que é visto como um apertar das restrições aos tradicionalistas que têm vindo a recusar a reforma litúrgica do Vaticano II e a seguir a missa tridentina.
O novo documento, publicado este sábado, 18, em cinco idiomas, no sítio da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos na internet, responde a 11 dúvidas mais recorrentes (“dubia”), apresentadas pelos bispos e as respostas do dicastério, que especificam alguns pontos do Motu próprio, nomeadamente sobre normas acerca do uso dos livros litúrgicos como o Pontifical Romano e o Missal Romano.
A Congregação esclarece, logo a abrir, que a publicação das respostas, algumas delas acompanhadas de justificação, que o Papa foi informado do seu conteúdo e deu- o seu consentimento”.
Os esclarecimentos referem que não é permitido o uso de lecionários que reproduzam na língua local o ciclo de leituras do rito tridentino, referindo que foi desejo do Vaticano II alargar o leque de textos, a fim de dar acesso aos fiéis, num número determinado de anos, à leitura da maior parte da Sagrada Escritura.
Relativamente à dúvida sobe se os padres ordenados depois de 16 de julho, data do motu próprio Custodes Traditionis também estão obrigados a uma autorização do bispo local para celebrar segundo o Missal Romano de 1962, a resposta é que é “absolutamente desejável” para eles e para os que se preparam para o sacerdócio ordenado. O mesmo para os sacerdotes que concelebrem e para os que eventualmente tenham de substituir o que tem a autorização.
O documento dirigido aos presidentes das conferências episcopais entende que “não deve ser concedida licença para fazer uso do Ritual Romano e do Pontifical Romano anterior à reforma litúrgica”, dado que se trata de livros litúrgicos que “foram revogados”, com exceção das “paróquias pessoais canonicamente erigidas, mediante autorização do bispo diocesano.
É ainda recordado que a Custodes Traditionis pede ao bispo diocesano que verifique se os grupos que pedem para celebrar com o Missal Romano de 1962 “não excluem a validade e legitimidade da reforma litúrgica, dos ditames do Concílio Vaticano II e do Magistério dos Sumos Pontífices”.
Os setores mais radicalizados e opostos às reformas conciliares (e, desde logo, ao Papa Francisco), que estavam já a movimentar-se para exigir a revogação do “Motu próprio”, entendem que foram proibidas as ordenações e confirmações segundo o Pontifical Romano e, excetuando nas referidas “paróquias pessoais”, foram igualmente proibidos os sacramentos do batismo, matrimónio e ‘extrema-unção’ segundo o Ritual antigo. A reação é a de que se trata de criar um novo ‘índice de livros proibidos’ ou ainda de um “massacre natalício”.
“É triste ver como o mais profundo vínculo de unidade [a Eucaristia] se torna uma razão para divisão: compete aos bispos, cum Petro et sub Petro, salvaguardar a comunhão, condição necessária para poder participar na mesa eucarística”, escreve no preâmbulo destes esclarecimentos Arthur Roche, prefeito da Congregação para o Culto Divino.
A análise de Andrea Grillo, professor de Teologia Sacramental e Filosofia da Religião no Pontifício Ateneo de Santo Anselmo (Roma), vai mais longe. Considera que a raiz destes problemas está na ilusão que foi criada e alimentada a partir do “motu próprio” Summorum Pontificum, de Bento de XVI, de 2007, da “não irreversibilidade do Concílio” e da implementação das suas reforças, a partir de 1963. “Assim, escreve ele na Munera – Rivista Europea di Cultura, “em 14 anos de ‘práticas paralelas’, uma série de homens e mulheres, padres e bispos, abades e monges, religiosos e religiosas, deixaram-se fascinar por este ‘mito’ da “reversibilidade” do Concílio Vaticano II, o mito do paralelismo ritual, o mito do ‘desvio conciliar’, o mito não só da ‘missa de todos os tempos’, mas da liturgia imóvel e da tradição monumental”.
No fundo, para este teólogo, mais do que a liturgia, “é o próprio concílio Vaticano II que está em jogo.










