
Momento da assinatura da encíclica numa foto captada a partir da transmissão vídeo do VaticanMedia disponível no canal YouTube.
O Papa Francisco assinou neste sábado, 3 de Outubro, em Assis, a sua terceira encíclica, Fratelli Tutti (Todos Irmãos), que se torna o 299.º documento do género na história da Igreja Católica.
A carta do Papa sobre a fraternidade e a amizade social será divulgada neste domingo, pouco depois do meio-dia de Roma (11h em Lisboa), após a oração do Angelus na Praça de São Pedro. Logo a seguir, o 7MARGENS publicará vários textos sobre o novo documento papal, incluindo um comentário do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
No Crux, o vaticanista John Allen escreve que “há três razões” que tornam potencialmente a Fratelli Tutti “o documento mais importante deste papado”.
“É o primeiro grande documento de Francisco desde que a crise do coronavírus eclodiu.” Apesar de já ter abordado as implicações da pandemia em várias ocasiões – incluindo a oração pela humanidade de 27 de Março, celebrada com a Praça de São Pedro vazia – o Papa não deixará agora de sistematizar o seu pensamento sobre a matéria.
Em segundo lugar, a encíclica surge num momento de encruzilhada para o próprio Francisco, diz o analista. “Um papa que é um campeão da unidade europeia viu a Polónia e a Hungria saírem progressivamente da órbita da UE, enquanto a Grã-Bretanha se afastou formalmente (…). Um papa que prega as boas-vindas e a compaixão pelos imigrantes viu os EUA elegerem um presidente que se candidatou a ser duro, e o seu próprio quintal em Itália foi governado durante algum tempo por um vice-primeiro-ministro” que recusava que “migrantes desesperados desembarcassem” nos portos italianos.
Francisco prega a não-violência, mas viu as Filipinas, “o país mais vibrantemente católico do mundo”, eleger “um líder que desencadeou uma torrente de execuções extrajudiciais; e o Brasil, “a maior nação católica do mundo, elegeu um chefe de Estado para quem a Laudato si’, a encíclica ambiental do Papa, é uma espécie de Magna Carta ao contrário, dizendo o que não fazer”. Por isso, a nova encíclica pode ser o melhor argumento que ele terá para explicar quais são os fundamentos intelectuais, espirituais e políticos do seu pensamento.
A terceira razão é que este documento – sucedendo em poucos dias a mais uma onda de choque no Vaticano, com a demissão do cardeal italiano Angelo Becciu, visto como um dos da “velha guarda” – pode trazer um novo impulso à reforma iniciada pelo Papa argentino. Mas também pode aumentar a pressão para que a reforma se faça e se aprofunde.
Fratelli Tutti pode ajudar a recordar as intuições mais importantes deste Papa, recentrando e resumindo vários dos grandes temas do pontificado.
Título inspirado de novo em São Francisco

Esta é a primeira vez, pelo menos nos tempos modernos, que uma encíclica é assinada fora do Vaticano. O nome deste tipo de documento vem do grego, significa “circular” e começou por ser uma carta que o Papa enviava às Igrejas em comunhão com Roma, com um âmbito universal. Uma encíclica estabelece doutrina sobre um aspecto da vida da Igreja ou da sociedade, com a autoridade papal.
Também ao contrário do habitual, em que os títulos são em latim, a partir das duas primeiras palavras do documento, a Fratelli Tutti tem o título em italiano. Neste caso, a inspiração é o início das Admoestações, um dos escritos de Francisco de Assis, o santo cujo nome inspirou o actual Papa no momento de escolher o nome com que deveria exercer o cargo.
O Papa assinou formalmente o texto naquela que foi a sua primeira saída do Vaticano desde o início da pandemia e da quarentena, recorda a Ecclesia. Também por causa das medidas de contingência que ainda vigoram, esta sua quarta visita a Assis teve carácter privado, tendo durado pouco mais de hora e meia – o tempo para a celebração da missa e da pequena cerimónia de assinatura formal da encíclica, realizada junto do túmulo de Francisco de Assis.
Entre as poucas pessoas presentes, estavam os responsáveis da Secção dos Assuntos Gerais da Secretaria de Estado do Vaticano, que acompanham a revisão e tradução dos documentos pontifícios – entre os quais, também o padre português António Ferreira da Costa –, como “sinal de gratidão” a quem trabalhou na redaçcão e tradução do documento, afirmou o Papa.
As duas anteriores encíclicas do atual pontificado foram a Lumen Fidei (A luz da fé), de 2013, que recolhe reflexões do seu antecessor, Bento XVI; e a Laudato Si’, de 2015, sobre o “cuidado da casa comum”, também ela inspirada no santo de Assis.
O antecessor de Francisco publicou três encíclicas, no seu pontificado (2005-2013); antes de Bento XVI, João Paulo II (1978-2005) assinou 14 encíclicas, entre 1979 e 2003. Leão XIII (1878-1903) foi o mais produtivo, tendo publicado 86 encíclicas – embora muitos pudessem hoje ser catalogadas como cartas apostólicas ou mensagens.
No caso deste novo documento, o título original em italiano será o título oficial em todas as línguas – tal como aconteceu com a exortação Querida Amazónia, que mantém o título em português/espanhol, e a Laudato Si’, que mantém o título no italiano que se falava no século XIII, na Umbria, a região onde São Francisco viveu.









