41ª viagem apostólica

Papa chega à Hungria, por entre “gélidos ventos de guerra” e ameaças à liberdade

| 27 Abr 2023

Pormenor do avião papal. Foto © Vatican Media

Francisco tem à sua espera um programa exigente, com pelo menos 13 eventos (entre cerimónias protocolares, encontros, visitas e celebrações). Foto © Vatican Media.

 

Muitos vaticinaram que, depois da hospitalização no mês passado, o Papa iria adiar a sua visita à Hungria. Mas enganaram-se. Francisco já foi à basílica de Santa Maria Maior, em Roma, para rezar diante do ícone da Salus Populi Romani e confiar a sua peregrinação a Nossa Senhora, como fez em cada uma das 40 viagens apostólicas anteriores. Parte esta sexta-feira, pelas 7h10 (hora de Lisboa) rumo à capital húngara, Budapeste, onde ficará durante três dias a testar o acolhimento de um regime – e do seu líder – claramente hostil às posições do Papa em várias áreas, e que o elege como principal adversário político.

Esta será a segunda vez que Francisco irá visitar o país, depois de aí ter estado brevemente em setembro de 2021, para presidir à missa de encerramento do 52º Congresso Eucarístico Internacional, quando ia a caminho da Eslováquia. Desta vez, espera-o um programa exigente, com a participação em pelo menos 13 iniciativas (entre cerimónias protocolares, encontros, visitas e celebrações), naquela que é conhecida como a “cidade das pontes”: passou por  guerras e ocupações, destruição e reconstrução, divisões e reunificações e, desde 24 de fevereiro de 2022, tem recebido um fluxo ininterrupto de refugiados da Ucrânia.

Entre esta sexta-feira e domingo, o Papa irá reunir-se com autoridades civis e políticas, incluindo a presidente Katalin Novak e o primeiro-ministro Viktor Orbán, bispos e cardeais, refugiados e pessoas deslocadas (incluindo vários ucranianos), jovens, crianças doentes e representantes do mundo da ciência e da cultura. O programa inclui ainda uma reunião com a comunidade greco-católica do país.

Quanto aos discursos de Francisco, que serão todos proferidos em italiano, abordarão os temas da unidade da Europa, o futuro dos jovens, o diálogo ecuménico, o incentivo a uma Igreja que viveu períodos de perseguição e o drama da guerra e o apelo à paz, numa nação em que 61% dos habitantes se declaram católicos e que partilha 135 km de fronteira com a Ucrânia, avança o Vatican News.

“A hospitalidade e a caridade estão no coração dos húngaros”, refere o núncio apostólico no país, o arcebispo Michael Banach, que acredita que “a guerra teve uma influência muito positiva sobre a Igreja, que fez o bem na Hungria ao acolher refugiados ucranianos. Isso aconteceu desde os primeiros dias da guerra: a Cáritas e as dioceses estavam presentes na fronteira, nas estações de comboio, em todos os lugares”.

Banach destaca ainda que o Papa encontrará na Hungria uma Igreja Católica que é “verde”. “Nas escolas católicas, a encíclica Laudato si’ é estudada; nunca encontrei essa atenção noutros lugares. A cidade de Budapeste, que comemora o seu 150º aniversário este ano, tem orgulho em ser uma cidade verde. É claro que há desafios, mas é possível ver o cuidado com que os habitantes e os seus representantes políticos levam a sério as questões ambientais. A Igreja também faz isso”, assinala o representante da Santa Sé.

 

Um Governo que não respeita a liberdade?

Papa Francisco e primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, no Vaticano, a 21 de abril de 2022. Foto © Vatican Media

O Papa Francisco e o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, no Vaticano, a 21 de abril de 2022. Foto © Vatican Media.

 

Semelhante a Portugal em área (93 mil quilómetros quadrados) e população (perto de dez milhões de habitantes), a Hungria fica no coração da Europa Centro-Oriental e não tem litoral. Libertada do jugo soviético em 1989, iniciou um processo de transição para a democracia e economia de mercado. Em 1991, juntamente com a Polónia e a então Checoslováquia, formou o Grupo de Visegrado, aliança militar, económica e política nascida com o objetivo de promover a integração dos três países na União Europeia (UE) e na OTAN-NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte). A nação aderiu à Organização Atlântica em 1999 e à UE em 2004. Em 2007, aderiu ao espaço Schengen sem, no entanto, adotar o euro como moeda.

O governo do atual primeiro-ministro húngaro, o ultranacionalista Viktor Orbán, tem sido, no entanto, polémico. Apesar de ter conseguido que o país recuperasse economicamente, reduzindo drasticamente o desemprego e os níveis da dívida pública, tomou algumas medidas controversas sobre a liberdade de imprensa, o pluralismo de informação e educação, a autonomia do poder judicial e de outras instituições independentes (incluindo religiosas), e as políticas migratórias (rejeitando a redistribuição obrigatória por quotas de refugiados e iniciando em 2015 a construção de um muro ao longo da fronteira sul para interromper o fluxo de migrantes da chamada “rota dos Balcãs”. Tais medidas suscitaram vários apelos e medidas do Conselho da Europa e da União Europeia.

Outro motivo de conflito com as instituições europeias foi a aprovação de uma lei, em 15 de junho de 2021, que tornou ilegal a exibição a um menor de conteúdos que representem ou promovam “qualquer desvio da identidade correspondente ao próprio sexo atribuído no nascimento, mudança de sexo ou promoção da homossexualidade”. Esse diploma autorizou que os cidadãos alertassem as autoridades para comportamentos que alegadamente violem “o papel do casamento e da família consagrado na Constituição” e que não tenham em conta os direitos das crianças a identificar-se “com o sexo de nascimento”.

No início deste mês, o parlamento húngaro aprovou uma lei que permitiria a qualquer cidadão denunciar de forma anónima casais homossexuais com filhos, em conformidade com os limites impostos pelo Governo à comunidade LGBTI em prol da proteção infantil. A Presidente da Hungria, Katalin Novák, acabou por vetar essa lei, na sexta-feira passada.

Num artigo publicado esta quarta-feira, a redação do site italiano Il Sismografo assinala que existem “algumas coincidências fundamentais” entre Orbán e o Papa quando ao conceito de família; no entanto, questiona o que acontecerá se Francisco repetir na Hungria que a homossexualidade não é crime.

 

Colaboração entre os dois Estados

Relativamente à guerra na Ucrânia, recorde-se que a Hungria se opôs ao regime de sanções aplicado a Moscovo e ao envio de armas para Kiyv, e vetou inicialmente um pacote de ajuda da UE à Ucrânia para o ano de 2023, apesar de receber milhares de ucranianos refugiados que fugiam do conflito. Além disso, no passado dia 14 de março de 2023, o Parlamento húngaro voltou a adiar a votação da ratificação da adesão da Finlândia e da Suécia à OTAN, solicitada pelos dois países escandinavos após o início do conflito.

Será interessante perceber também como reagirá a liderança húngara – e o primeiro-ministro Viktor Orbán, em particular – perante o Papa e os seus discursos. Um responsável político europeu, que esteve num jantar com Órban há cerca de dois anos, confidenciou ao 7MARGENS que uma das cosias que o primeiro-ministro magiar disse na conversa foi que quem ele sente que é o seu adversário político mais forte é o Papa Francisco. A questão dos migrantes, os avisos de Francisco contra os populismos e o modo como o Papa critica certas leis – como as relativas à discriminação das pessoas LGBTI – são alguns dos temas em que Órban não se sentirá á vontade com as chamadas de atenção de Francisco.

Ainda assim, há muito que a Hungria colabora com o Vaticano no âmbito da troca de prisioneiros desde que uma operação semelhante foi realizada com sucesso no caso de prisioneiros arménios no Azerbaijão. Nesse campo, os dois Estados continuaram a colaborar nos últimos 14 meses e prevê-se que continuem a fazê-lo, em função da evolução do conflito na Ucrânia. Um trabalho relevante e imprescindível, mas além do qual, por motivos diferentes, parecem não conseguir ir no que diz respeito às negociações para um cessar-fogo entre Moscovo e Kiyv.

De qualquer forma, esta será, nas palavras que Francisco proferiu no passado domingo após a oração do Regina Coeli, “uma viagem ao centro da Europa, sobre a qual continuam a soprar gélidos ventos de guerra”, e aquela (das que fez entretanto e das que estão previstas) que lhe permitirá estar mais próximo do centro do conflito. Deixando uma mensagem de afeto à população húngara, que prepara “com muito empenho” esta visita, o Papa pediu: “Não nos esqueçamos dos nossos irmãos e irmãs ucranianos, ainda atingidos por esta guerra. Agradeço-vos de coração por isto e peço a todos vós que me acompanheis com a oração nesta viagem”, declarou.

 

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