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Junto de refugiados

Papa condena em Lesbos o “naufrágio de civilização”

| 05/12/2021

Papa Francisco rodeado de crianças na ilha de Lesbos. Foto © Vatican Media

 

“I love you, I love you.” Mal o Papa chega ao campo de refugiados de Mavrovouni, em Mitilene (ilha de Lesbos, Grécia) várias das pessoas que ali estão à espera de uma autorização de residência ou da concessão de asilo aclamavam Francisco, algumas dizendo “bom dia”, outras apresentando as suas crianças para que o Papa as abençoe, outros registando o momento nos telemóveis. Na manhã deste domingo, percorrendo o campo durante meia hora, junto de vários deles, sobretudo das crianças, o Papa detém-se, acaricia ou abençoa. Há quem se atreva a entregar-lhe uma carta, que ele passa a um dos assessores e uma criança afegã que pede um abraço. Homens que choram, muitos muçulmanos, como se percebe por alguns gestos, muitos afegãos…

No penúltimo dia da sua viagem ao Chipre (quinta e sexta) e à Grécia (sábado até segunda-feira, dia do regresso a Roma), Francisco voltou a Lesbos, onde já tinha estado em 2016, quando levou 12 pessoas de três famílias para Roma, para denunciar um “naufrágio de civilização”.

“Se queremos recomeçar, olhemos sobretudo os rostos das crianças. Tenhamos a coragem de nos envergonhar à vista delas, que são inocentes e constituem o futuro”, afirmou o Papa, uma hora depois, diante da Presidente grega,

Katerina Sakellaropoulou, que o acompanhou na visita ao campo – a par de responsáveis católicos e ortodoxos, bem como de um grupo de refugiados reunidos numa tenda improvisada para o encontro.

As crianças “interpelam as nossas consciências, perguntando-nos: ‘Que mundo nos quereis dar?’ Não fujamos apressadamente das cruas imagens dos seus corpinhos estendidos, inertes, nas praias”, acrescentou o Papa. “O Mediterrâneo, que uniu durante milénios povos diferentes e terras distantes, está a tornar-se um cemitério frio sem lápides. Esta grande bacia hidrográfica, berço de tantas civilizações, agora parece um espelho de morte. Não deixemos que o mare nostrum se transforme num desolador mare mortuum, que este lugar de encontros se transforme no palco de confrontos. Não permitamos que este ‘mar das memórias’ se transforme no ‘mar do esquecimento’.” E num tom de súplica: “Por favor, irmãos e irmãs, paremos este naufrágio de civilização!”

Falando de uma grave “crise humanitária”, Francisco acrescentou que “as grandes questões devem ser enfrentadas em conjunto, porque, no mundo actual, são inadequadas as soluções fragmentadas”. Pretexto para se referir à vacinação contra a covid-19 e ao clima: “Enquanto a vacinação se está a processar esforçadamente a nível planetário”, enquanto “algo parece mover-se, embora com inúmeros atrasos e incertezas” na luta contra a emergência climática, já tudo parece falhar no que diz respeito às migrações, afirmou.

 

Uma odisseia que não cabe num papel

Na tenda, o Papa foi acolhido por um grupo de 40 católicas e católicos africanos – sobretudo congoleses e camaroneses – que cantavam, em francês, “demos graças ao Senhor, que ele é bom, o seu amor é eterno”. Esses requerentes de asilo tiveram em Christian Tango, 30 anos, do Congo, a sua voz. A odisseia para chegar à Grécia não cabia naquelas curtas notas, disse o refugiado, que está em Lesbos há um ano com duas filhas, mas deixou outra filha e a mulher para trás e não tem notícias delas.

Referindo-se à responsabilidade do mundo inteiro na resolução desta crise humanitária, o Papa sublinhou o eu a Presidente grega também referira na sua saudação inicial. Esta não é apenas uma crise da Grécia, mas de toda a Europa, onde “há quem persista em tratar o problema como um assunto que não lhe diz respeito”, disse o Papa – o que é “trágico”, considerou, no seu discurso, que se pode ler na íntegra no portal do Vaticano e que se pode ver e ouvir no vídeo a seguir:

 

Francisco não poupou nas críticas à política europeia: “É triste ouvir propor, como solução, o uso de fundos comuns para construir muros, arames farpados” – a própria Grécia construiu, desde há um ano, um muro de 40 quilómetros na fronteira com a Turquia.

Evocando a visita de há cinco anos e meio, o Papa lembrou as palavras do patriarca Bartolomeu na ocasião: “Quem tem medo de vós, não vos fixou nos olhos. Quem tem medo de vós, não viu os vossos rostos. Quem tem medo de vós, não vê os vossos filhos. Esquece que a dignidade e a liberdade transcendem o medo e a divisão. Esquece que a migração não é um problema do Médio Oriente e do norte da África, da Europa e da Grécia. É um problema do mundo inteiro.”

“Estou aqui para contemplar os vossos rostos, para ver-vos olhos nos olhos. Olhos cheios de medo e ansiedade, olhos que viram violência e pobreza, olhos sulcados por demasiadas lágrimas”, afirmou o Papa.

Superar a “paralisia do medo, a indiferença que mata”, ter em atenção as “vidas humanas em jogo, apela a que não se virem as costas nem se renegue a humanidade” são atitudes fundamentais para resolver esta situação, pois, cinco anos depois, “pouca coisa mudou na questão migratória”.

“É fácil arrastar a opinião pública incutindo o medo do outro; mas por que motivo não se fala, com o mesmo brio, da exploração dos pobres, das guerras esquecidas e muitas vezes abundantemente financiadas, dos acordos económicos feitos na pele do povo, das manobras ocultas para contrabandar armas e fazer proliferar o seu comércio?”, perguntou ainda.

Esta 35ª viagem do Papa termina na manhã desta segunda-feira, dia 6, com uma visita do presidente do Parlamento grego ao Papa, após o que este preside a um encontro com jovens. Às 11h30 (9h30 em Lisboa), Francisco parte de Atenas de regresso a Roma.

 

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