
A uma Igreja sinodal, missionária e “em saída” só pode corresponder uma teologia “em saída”, que não se contenta com “uma teologia de gabinete”, ciente de que “o que estamos a viver não é simplesmente uma época de mudança, mas uma mudança de época”, como o Papa não se cansa de sublinhar, desde o discurso à Cúria, em 2013. Foto Vatican Media
“A reflexão teológica é chamada a uma viragem, a uma mudança de paradigma, a uma ‘corajosa revolução cultural’ que a comprometa, antes de mais, a ser uma teologia fundamentalmente contextual, capaz de ler e interpretar o Evangelho nas condições em que os homens vivem quotidianamente, nos diversos ambientes geográficos, sociais e culturais”.
O desafio, com a assinatura do Papa Francisco, chega-nos numa carta apostólica intitulada “A promoção da teologia” que chancela a aprovação dos novos estatutos da Pontifícia Academia de Teologia, mas que tem manifestamente um alcance e um propósito que estão para lá da Academia.
A uma Igreja sinodal, missionária e “em saída” só pode corresponder uma teologia “em saída”, que não se contenta com “uma teologia de gabinete”, ciente de que “o que estamos a viver não é simplesmente uma época de mudança, mas uma mudança de época”, como o Papa não se cansa de sublinhar, desde o discurso à Cúria, em 2013.
A teologia de que a Igreja e a sociedade hoje carecem, segundo o bispo de Roma, “é impelida a não se fechar em si mesma, na auto-referencialidade que conduz ao isolamento e à insignificância, mas a ver-se inserida numa teia de relações, antes de mais com outras disciplinas e outros saberes”.
Por outro lado, é uma teologia que se foca na “abertura ao mundo, às pessoas, na concretude da sua situação existencial, com os seus problemas, feridas, desafios e potencialidades”.
A viragem ou “mudança de paradigma” que urge fazer na reflexão teológica implica que esta se repense “epistemológica e metodologicamente”, o que, além da valorização de um método mais indutivo, a partir dos contextos e condições de vida, passa por “desenvolver uma cultura de diálogo e encontro entre diferentes tradições e diferentes saberes, entre diferentes confissões cristãs e diferentes religiões, confrontando-se abertamente com todos, crentes e não crentes”.
Esse diálogo deverá ocorrer também “no seio da comunidade eclesial”, com a “consciência da essencial dimensão sinodal e comunitária do fazer teológico”. É que, faz notar a carta apostólica, os teólogos não podem “deixar de viver a fraternidade e a comunhão em primeira pessoa, ao serviço da evangelização e para chegar ao coração de todos”, devendo também promover “entre eles a capacidade de escutar, dialogar, discernir e integrar a multiplicidade e a variedade das instâncias e dos contributos”.
Na parte final da carta, o Papa reconhece como “necessária” a atenção ao carácter científico da teologia, sem, no entanto, “obscurecer a sua dimensão sapiencial”. “A razão científica, explica, deve alargar os seus limites na direção da sabedoria, para não se desumanizar e empobrecer”. Deste modo, a teologia (…) mostra-se “um verdadeiro saber crítico enquanto saber sapiencial, não abstrato e ideológico, mas espiritual, elaborado de joelhos, prenhe de adoração e oração; um saber transcendente e, ao mesmo tempo, atento à voz do povo, portanto, uma teologia ‘popular’, que se dirige misericordiosamente às feridas abertas da humanidade e da criação e no seio da história humana, para a qual profetiza a esperança de um cumprimento último”.
NB – O texto desta carta apostólica encontra-se, neste momento, disponível apenas em italiano.









