Jovens muçulmanos cantam diante do Papa: “O islão é paz” (Imagem captada do vídeo da transmissão).

 

O Papa Francisco convocou o exemplo de Eusébio, no seu encontro com jovens moçambicanos de diferentes religiões, para dizer que os mais novos nunca devem resignar nem desistir dos seus sonhos. Este foi um dos momentos altos do primeiro dia da visita de Francisco a Moçambique, durante o qual o Papa argentino insistiu na importância da “coragem da paz”, nas diferenças “necessárias”, na proposta da alegria e na sugestão da “mão estendida” para ajudar quem precisa.

Um ambiente de grande júbilo e contentamento marcou o primeiro dia papal nas ruas de Maputo, a capital moçambicana, bem como no pavilhão desportivo do Maxaquene e na catedral, dois dos locais onde decorreram actos do programa desta quinta-feira.

Num clima festivo, num coro que durou largos minutos, os cinco mil jovens reunidos no Maxaquene resumiam uma das ideias que marcou o dia de Francisco: “Pela reconciliação!” E repetiam ainda o grito quando o Papa entrou no pavilhão. De tal forma que, no seu discurso, o próprio Francisco fez uma pausa para perguntar aos jovens se queriam escrever uma nova página na história do seu país: “Vós juntos – assim como estais – sois o palpitar deste povo, onde cada qual desempenha um papel fundamental, num único projecto criador, para escrever uma nova página da história, uma página cheia de esperança, paz e reconciliação. Quereis escrever esta página?”

Ao grito de um “sim” que encheu o Maxaquene, o Papa disse que escutara o que os jovens diziam quando entrou e pediu-lhes que repetissem a frase, dizendo com eles várias vezes: “Pela reconciliação!” Uma hora antes, perante o Presidente Filipe Nyusi e representantes do corpo diplomático e da sociedade civil, Francisco já afirmara que a reconciliação é “o melhor caminho para enfrentar as dificuldades e desafios” que Moçambique enfrenta como nação.

 

Os golos de Eusébio e o roubo da alegria

Diante dos jovens – onde havia muçulmanos, hindus, bahá’is, protestantes e católicos e representantes de organizações juvenis –, o Papa Bergoglio insistiu na importância de eles saberem “jogar juntos”. Foi quando convocou o exemplo de Eusébio, “a pantegra negra”, como se referiu ao antigo jogador do Maxaquene e do Benfica.

“Sei que a maioria de vós gosta muito de futebol. Recordo um grande jogador destas terras que aprendeu a não se resignar: Eusébio da Silva, a pantera negra. Começou a sua vida desportiva no clube desta cidade. As graves dificuldades económicas da sua família e a morte prematura do seu pai não impediram os seus sonhos; a sua paixão pelo futebol fê-lo perseverar, sonhar e continuar para diante… chegando a marcar 77 golos para este clube de Maxaquene! Não faltavam razões para se resignar…”

Além de Eusébio, o Papa referiu ainda a atleta moçambicana Maria Mutola que, depois de participar em três Olimpíadas, ganhou na quarta, em Sidney, a medalha de ouro. “A ansiedade não a deixou absorta em si mesma; os seus nove títulos mundiais não a fizeram esquecer-se do seu povo, das suas raízes, mas continuou a olhar pelas crianças necessitadas de Moçambique. Como o desporto nos ensina a perseverar nos nossos sonhos!”

A partir do desporto e da audiência que tinha diante de si, o Papa insistiu ainda várias vezes na valorização positiva das diferenças: “Estais a fazer a experiência de que todos somos necessários: com as nossas diferenças, mas necessários. (…) vimos de tradições diferentes e inclusive podemos falar línguas diversas, mas isto não impediu de nos encontrarmos. (…) podemos fazer a experiência maravilhosa de deixar de lado as diferenças para lutar juntos por um objetivo comum. (…)Procurai crescer na amizade também com aqueles que pensam de maneira diferente.”

Brincando várias vezes com os jovens, o Papa apelou ainda: “Não deixeis que vos roubem a alegria. Não deixeis de cantar e expressar-vos de acordo com todo o bem que aprendestes das vossas tradições. Que não vos roubem a alegria!” Mas a alegria que se percebia no Maxaquene não era oca: os jovens de todas as confissões religiosas foram muito claros, nas músicas, danças e actuações artísticas, sobre a única mensagem que queriam partilhar com o Papa – e, indirectamente, dirigir aos políticos e à sociedade civil moçambicana: a paz e a reconciliação são a única coisa que (lhes) interessa.

Um grupo de jovens hindus durante a dança que fizeram perante o Papa Francisco (Imagem captada do vídeo da transmissão).

Mãos estendidas para dar

Os jovens muçulmanos cantaram uma música que repetia “o islão é paz”. Numa altura em que incidentes no norte do país têm sido interpretados como possíveis incursões de violência jihadista, até essa mensagem adquiriu um significado político concreto. E, na actuação dos jovens católicos, a coincidência entre a guerra e as catástrofes naturais como o Idai enquanto fenómenos que provocam a destruição e a morte foi também evidente.

Francisco pediu ainda aos jovens que mostrem o poder da “mão estendida”: para com os mais idosos, para com as vítimas dos ciclones, para com os que chegam à cidade à procura de trabalho ou para com o planeta. Essa mesma preocupação quis o Papa concretizá-la, já ao final da tarde, com a visita privada à casa Mateus 25 (alusão à passagem bíblica que fala do julgamento final, em que os que se salvam são os que ajudam os necessitados). A instituição acolhe cerca de uma centena de crianças de rua, toxicodependentes, doentes e sem-abrigo e é resultado da cooperação de várias congregações religiosas.

A mão estendida a quem precisa é também condição para uma paz que se joga no concreto. Aliás, já no discurso perante o Presidente e o corpo diplomático, o Papa tinha sido claro no pedido aos políticos: “Não cesseis os esforços enquanto houver crianças e adolescentes sem educação, famílias sem teto, trabalhadores sem trabalho, camponeses sem terra… Tais são as bases dum futuro de esperança, porque futuro de dignidade! Tais são as armas da paz.”

Nessa primeira intervenção, num dos salões do palácio da Ponta Vermelha, a residência oficial do Presidente da República, Francisco falou da necessidade da “coragem da paz” e da tenacidade e inteligência necessárias para guardar essa “flor frágil”. E que não pode deixar ninguém de lado: “Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade”, afirmou, num discurso que foi também ouvido pelos líderes dos dois principais partidos da oposição.

 

Recado a padres e religiosos: o mundo mudou

Antes, num gesto simbolicamente importante, o Presidente Filipe Nyusi mencionou os seus dois adversários políticos pelo nome, convidando-os a levantar-se diante de Francisco: Ossufo Momade, pela Renamo, e Daviz Simango, do Movimento Democrático de Moçambique. Filipe Nyusi não se cansou de recordar o importante papel da Igreja Católica no país, desde há séculos, em campos como a educação e a saúde, bem como o gesto do Papa Paulo VI ao receber, em audiência, os dirigentes dos movimentos de libertação das então colónias africanas portuguesas, entre os quais Marcelino dos Santos, então líder da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique, que governa o país desde a independência em Setembro de 1975).

Já à tarde, na catedral, no encontro com responsáveis da Igreja Católica – bispos, padres, religiosas, catequistas e seminaristas – Francisco repetiu alguns dos apelos. Contestou os muros que dividem e criam “ódio, rancor” e pediu que aqueles agentes não se deixem paralisar pelo medo. Mas a ideia forte do seu discurso foi quando apelou a que os mais empenhados da Igreja olhem para a realidade “como ela é”. E acrescentou: “Os tempos mudam e devemos reconhecer que muitas vezes não sabemos como inserir-nos nos novos cenários; podemos sonhar com as ‘cebolas do Egipto’, esquecendo que a Terra Prometida está à frente, não atrás, e neste lamento pelos tempos passados, vamo-nos petrificando, vamo-nos mumificando. Em vez de professar uma Boa Nova, o que anunciamos é algo cinzento que não atrai nem inflama o coração de ninguém.”

Finalmente, referiu-se à crise de identidade do clero, afirmando: “Perante a crise de identidade sacerdotal, talvez tenhamos que sair dos lugares importantes e solenes; temos de voltar aos lugares onde fomos chamados, onde era evidente que a iniciativa e o poder eram de Deus.” Esses lugares de origem, referiu, são o serviço às pessoas e o cansaço por causa de estar próximo de quem necessita.

 

“É uma honra que os americanos me ataquem”

Terça-feira, na viagem que levou o Papa de Roma para Maputo, não faltou um pequeno incidente: ao receber a oferta de um livro do jornalista francês Nicolas Senèze, correspondente do La Croix no Vaticano, que fala sobre “Como a América quer mudar o Papa”, Francisco comentou “É uma honra para mim que os americanos me ataquem” e voltando-se para o seu secretário, acrescentou: “É uma bomba.”

O livro, conta o Le Monde, explica como grupos conservadores católicos dos EUA se têm organizado para não só atacar o Papa como para tentar que este pontificado se torne apenas um “parêntesis”, através de uma operação baptizada como The Red Hat Report  (Relatório chapéu vermelho), numa alusão ao barrete dos cardeais.

Para sossegar os espíritos mais inquietos, o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, distribuiu uma declaração escrita aos jornalistas: “Num contexto informal, o Papa quis dizer que considera as críticas sempre uma honra, sobretudo quando provêm de pensadores com autoridade e de uma nação importante, como é o caso”.

Nesta sexta-feira, o Papa despede-se de Maputo, depois de visitar o hospital de Zimpeto e celebrar uma eucaristia para cerca de 90 mil pessoas, no estádio nacional com o mesmo nome. Às 12h40 (menos uma hora em Lisboa) está prevista a sua partida para Antananarivo, capital de Madagáscar, segunda etapa desta viagem africana que ainda o levará a Port-Louis, capital das Maurícias.

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