
“Estes desenvolvimentos não deixam claro qual o papel do cardeal Ouellet em tudo isto, sendo que ele era visita do Instituto, documentada em vários momentos e amigo de um dos lados em conflito.” Foto. Cardeal Ouellet © Site do Instituto das Dominicanas do Espírito Santo (França)
O Papa Francisco acaba de ordenar uma nova visita apostólica ao instituto francês das Dominicanas do Espírito Santo, a fim de aprofundar denúncias de abusos que ali se terão verificado nos primeiros anos da década passada.
Esta decisão, anunciada por um comunicado emitido pelo próprio instituto nesta segunda-feira ao fim do dia, vem adensar ainda mais o contexto de várias polémicas vindas a lume nos últimos tempos, na sequência da expulsão de uma religiosa, decidida em 2021 pelo cardeal Marc Ouellet, então prefeito da Congregação para os Bispos.
Recorde-se que um tribunal civil de França condenou recentemente este cardeal (e, com ele, a congregação e dois religiosos que foram encarregados de uma visita canónica à instituição) por abuso de poder e por parcialidade, visto ele ser amigo de uma religiosa daquela comunidade que se opunha àquela que foi expulsa.
Escassos dias depois de o Vaticano ter apresentado um protesto junto do embaixador da França na Santa Sé, em que se insurgia contra o que considera ter sido uma intromissão indevida das autoridades judiciais francesas na vida interna de uma comunidade religiosa, eis que o Papa cria uma comissão “multidisciplinar independente” para aprofundar casos e situações de abusos espirituais e eventualmente também sexuais.
A comissão, que deverá apresentar resultados daqui a 12-15 meses, é presidida pelo historiador Paul Airiau, que colaborou com a Comissão Independente que estudou os abusos sexuais da Igreja Católica em França (CIASE), e é constituída por outro historiador, um exorcista, um psiquiatra, um antigo magistrado e uma superiora religiosa.
Para compreender a constituição deste grupo, importa ter em conta informação complementar divulgada sobre o caso pelo jornal La Croix (texto reservado a assinantes).
Segundo esta fonte, a congregação, que tem a casa-mãe na localidade de Pontcallec e que dirige vários estabelecimentos de ensino, com uma orientação considerada tradicionalista, viveu uma crise profunda entre 2010 e 2013, com a chegada de um numeroso grupo de noviças que não aceitou a rigidez de algumas normas internas.
Nessa altura, instalou-se um mal-estar e mesmo divisão na comunidade, quando se pretendia iniciar um processo de beatificação do fundador, o abade Berto, que foi, durante o Concílio Vaticano II, o teólogo privado do bispo Lefèbvre. Ao mesmo tempo, conheceram-se denúncias de comportamentos e práticas de abuso sexual e sinais de que o abade poderia ter pertencido a uma sociedade secreta, em que vigoravam práticas esotéricas.
O choque desencadeado por estas revelações foi ainda agravado por um recurso abusivo a exorcismos, alegadamente para libertar espiritualmente algumas das noviças, práticas reconhecidas por um departamento da Cúria, que nunca foram objeto de qualquer sanção.
Estas divisões e feridas constituíram o contexto das inquirições desencadeadas pelo Vaticano a partir de 2020, tendo o mandato com esse fim sido atribuído pelo Papa ao cardeal Ouellet.
Segundo refere o La Croix (texto reservado a assinantes), Francisco terá enviado em 2022 uma carta às Dominicanas do Espírito Santo, na qual pede desculpa pelo facto de nem sempre a Cúria Romana ter agido da melhor maneira para com elas. Isso mesmo é reconhecido no comunicado divulgado esta segunda-feira, quando se diz que o Papa se mostrou “consciente das deficiências” do acompanhamento pelas autoridades da Santa Sé.
A tarefa da comissão agora designada deverá centrar-se na “escuta atenta das vítimas”, e terá por objetivos “descrever e compreender a natureza exata dos abusos cometidos entre 2012 e 2013 na perspetiva das diferentes disciplinas; identificar as causas que tornaram possíveis tais abusos e a sua inserção na história do Instituto e da Igreja contemporânea; e identificar as consequências dos abusos para as vítimas”.
Desse trabalho deverão sair “recomendações e pontos de atenção, quer para um melhor apoio às vítimas, quer para a prevenção dos abusos no futuro”.
Estes desenvolvimentos não deixam claro qual o papel do cardeal Ouellet em tudo isto, sendo que ele era visita do Instituto, documentada em vários momentos e amigo de um dos lados em conflito.
Não fica claro como foi possível que o processo judicial civil desencadeado por uma religiosa, que condenou o cardeal e o instituto religioso, se desenvolvesse sem que o Vaticano fosse colocado a par da situação, tendo ele sido bastante mediatizado. E fica também por esclarecer por que avançou a Cúria Romana com a penalização extrema (expulsão) de uma religiosa, quando os conflitos e sofrimentos no interior da congregação se arrastaram anos a fio até à atualidade.









