
Pessoas pobres na celebração com o Papa em Assis, assinalando o Dia Mundial dos Pobres. Foto captada da transmissão vídeo do Vatican News.
O Papa Francisco condenou a “hipocrisia” de quem diz “que são os pobres que são os responsáveis pela pobreza”. “Mais um insulto!”, considerou na sexta-feira em Assis, a propósito do Dia Mundial dos Pobres. E na homilia da missa de domingo, na Basílica de São Pedro, celebrando a mesma data perante dois mil pobres, Francisco lamentou ainda a pobreza em que muitas pessoas se vêem constrangidas a viver, “vítimas da injustiça e da desigualdade duma sociedade do descarte, que corre apressada sem os ver e, sem escrúpulos, os abandona ao seu destino”.
Foram dois momentos em que o Papa centrou de novo a sua atenção na situação dos mais vulneráveis da sociedade. Sexta-feira, em Assis, o Papa disse que é o momento de devolver a palavra e a dignidade que os pobres merecem. E acrescentou: “A fim de não fazer um exame de consciência sério sobre os próprios actos, sobre a injustiça de certas leis e medidas económicas, um exame de consciência sobre a hipocrisia daqueles que querem enriquecer para além das medidas, a culpa é lançada sobre os ombros dos mais fracos.”
A celebração de “oração e testemunho” presidida pelo Papa decorreu junto à Porciúncula, a pequena capela que São Francisco pensou em restaurar e que hoje está colocada dentro da Basílica de Santa Maria dos Anjos.
“A primeira marginalização de que sofrem os pobres é a espiritual. Por exemplo, muitas pessoas e muitos jovens encontram algum tempo para ajudar os pobres e levar-lhes comida e bebidas quentes. Isso é muito bom e agradeço a Deus pela generosidade. Mas, acima de tudo, fico feliz quando ouço que esses voluntários param um pouco para conversar com as pessoas, e às vezes rezam juntamente com elas”, afirmou o Papa.
Francisco apelou ainda a que se abram os olhos “para ver o estado de desigualdade em que vivem tantas famílias”. E pediu: “É hora de arregaçar as mangas para restaurar a dignidade com a criação de empregos. É hora de voltar a escandalizar-se com a realidade de crianças famintas, escravizadas, sacudidas pelas águas na agonia de naufrágios, vítimas inocentes de todo o tipo de violência”.
O encontro de oração e testemunho de sexta-feira, conta a Ecclesia, incluiu uma visita `s irmãs Clarissas e começou com um “abraço” virtual no átrio da Basílica de Santa Maria dos Anjos, onde o Papa recebeu simbolicamente o manto e o cajado do Peregrino.
O cajado, relata a mesma fonte, foi entregue por Abrhaley, um refugiado eritreu invisual que conversou com o Papa durante alguns momentos. Abrhaley chegou à Itália em 2018 graças à criação dos corredores humanitários.
Representantes do grupo de 500 pessoas pobres de diferentes partes da Europa”, e de quem trabalha junto delas, apresentaram o seu testemunho, visivelmente emocionados, tendo o Papa agradecido a coragem e elogiado a capacidade de “resistir”.
Católicos e jornalistas: “não virar a cara”

Papa distingue dois jornalistas vaticanistas pelo seu trabalho. Foto © Vatican Media
Na missa deste domingo, acerca do mesmo tema, o Papa criticou a “economia do descarte” que obriga os mais pobres a “viver à margem” da sociedade, apelando à intervenção organizada dos católicos para superar esta situação. Estes devem ser “pessoas que agem”, que “partilham o pão com os famintos, trabalham pela justiça, levantam os pobres e lhes devolvem a sua dignidade”, afirmou.
“O Dia Mundial dos Pobres, que estamos a celebrar, pede-nos que não viremos a cara para o outro lado, que não tenhamos medo de olhar de perto o sofrimento dos mais frágeis, para os quais é muito atual o Evangelho de hoje.”
Na homilia, o Papa elogiou ainda o trabalho das organizações católicas de solidariedade que não se limitam a “oferecer uma moeda” ou uma esmola pontual, mas oferecem um “olhar de esperança”.
O Dia Mundial dos Pobres foi instituído pelo Papa Francisco há cinco anos e é celebrado anualmente no penúltimo domingo do ano litúrgico, antes da festa de Cristo-Rei.
No sábado, o Papa distinguiu dois jornalistas com a Grã-Cruz da Ordem Pia, elogiando o jornalismo que deve “explicar o mundo, torná-lo menos obscuro, fazer com que as pessoas tenham menos medo e possam olhar para os outros com maior consciência e também com mais confiança”.
“É uma missão difícil”, disse Francisco, encorajando cada jornalista a “preservar e cultivar esse sentido de missão”, distinguindo Valentina Alazraki e Philip Pullella, após quatro décadas de trabalho a acompanhar a actualidade do Vaticano. O Papa considerou-os “companheiros de viagem” pelo facto de ambos serem veteranos no seu trabalho e terem acompanhado muitas viagens pontifícias ao longo das últimas décadas, desde o pontificado de João Paulo II.
O bom jornalismo, acrescentou Francisco, deve fundamentar-se em três verbos: “escutar, aprofundar, contar”, relata a Ecclesia.
Na mesma ocasião, Francisco entregou também o Prémio Ratzinger relativo a 2020 e 2021, que distingue trabalhos de teologia. Os prémios foram entregues a Hanna-Barbara Gerl-Falkovitz, perita em Edith Stein e Romano Guardini e Ludger Schwienhorst-Schönberger, especialista nos livros sapienciais da Bíblia e, em particular, do Cântico dos Cânticos; os premiados de 2020 foram Jean-Luc Marion e Tracey Rowland.









