No discurso aos movimentos populares

Papa defende rendimento básico universal e redução do horário de trabalho

| 18 Out 2021

 

“Este sistema [socioeconómico] com a sua lógica implacável do lucro está a ficar fora do controlo humano. Chegou a hora de travar a locomotiva, uma locomotiva descontrolada que nos está a conduzir ao abismo. Ainda estamos a tempo”.

Com estas palavras proféticas de denúncia, o Papa Francisco sintetizou uma série de “estruturas de pecado” para as quais, “em nome de Deus”, pediu ação decidida, numa alocução vigorosa e contundente dirigida aos participantes no IV Encontro Mundial dos Movimentos Populares, que ocorreu este sábado através da internet.

O bispo de Roma iniciou o seu discurso começando por chamar aos dirigentes desses movimentos “poetas sociais”, na medida em que, observou, “têm a capacidade e a coragem de criar esperança onde apenas há descarte e exclusão”.

Analisando a situação das zonas mais pobres onde os movimentos atuam, sublinhou o impacto da pandemia, afirmando:

“Todos sofremos a dor do confinamento, mas a vocês, como sempre, coube-vos a pior parte: nos bairros que carecem de infraestruturas básicas (em que vivem muitos de vocês e milhões e milhões de pessoas) é difícil ficar em casa, não só por não haver os meios necessários para assegurar medidas mínimas de cuidado e proteção, mas também simplesmente porque a casa é o bairro”. Denunciou o facto de os migrantes, os indocumentados e os trabalhadores informais sem salários fixos “se terem visto privados, em muitos casos, de qualquer ajuda estatal e impedidos de realizar as suas tarefas habituais, agravando assim a sua já tão dolorosa pobreza”, lamentando, ao mesmo tempo, o desinteresse manifestado pelos grandes meios de comunicação relativamente a estas situações.

 

Denúncia de “estruturas de pecado” que urge mudar

Na mesma linha, referiu também “uma pandemia silenciosa que, desde há anos, afeta crianças, adolescentes e jovens de todas as classes sociais” e que, neste tempo de confinamento se terá agravado: o stress e a ansiedade crónica, associados a diversos fatores como a hiperconetividade, a desorientação e a falta de perspetivas de futuro, que se agravam pela falta de contacto real com os outros (famílias, escolas, centros desportivos, igrejas, paróquias).  Apesar dos benefícios da tecnologia, nunca se pode substituir o encontro direto entre as pessoas, observou.

Refletindo sobre a ação necessária em prol da mudança, o bispo de Roma sublinhou os obstáculos e resistências que encontra quem age com uma consciência da complexidade das situações. E citou, no contexto, alguns terrenos e exemplos das tais “estruturas de pecado”, atrás referidas. Fê-lo implorando, em nome de Deus, em primeiro lugar, aos grandes laboratórios “para que liberalizem as patentes” e permitam um acesso universal às vacinas, sobretudo em países em que apenas três ou quatro por cento das pessoas estão vacinadas.

Aos grupos financeiros e organismos internacionais de crédito, implorou que “permitam aos países pobres garantir as necessidades básicas da sua população e que “perdoem as dívidas tantas vezes contraídas contra os interesses desses mesmos povos”.

Instou, a seguir, as grandes empresas extrativas – mineiras, petrolíferas, florestais, imobiliárias, agronegócios – a que “deixem de destruir os bosques, as áreas húmidas e as montanhas, deixem de contaminar os rios e os mares, deixem de intoxicar os povos e os alimentos”.

O Papa não esqueceu, por outro lado, aos “fabricantes e traficantes de armas”, pedindo que “cessem por completo a sua atividade, uma atividade que fomenta a violência e a guerra, muitas vezes no contexto de jogos geopolíticos que custam milhões de vidas e de deslocamentos”.

Os “gigantes da tecnologia” e das telecomunicações (que deixem de explorar a fragilidade humana, manipulando, desinformando e excitando discursos de ódio e facilitem o acesso a); os meios de comunicação (quando enveredam pela pós-verdade, a desinformação, a difamação, e esquecem a “empatia com os mais vulneráveis”.

E termina esta litania denunciando o intervencionismo e neocolonialismo das grandes potências: “quero pedir em nome de Deus aos países poderosos que acabem com as agressões, bloqueios e sanções unilaterais contra qualquer país em qualquer lugar da Terra”. “Não ao neocolonialismo”, defendeu, observando que “os conflitos devem resolver-se em instâncias multilaterais como as Nações Unidas”. “Já vimos como terminam as intervenções, invasões e ocupações unilaterais, embora sejam feitas com os mais nobres motivos ou justificações”, afirmou, ao terminar a lista.

 

Uns com excesso de trabalho e outros a sofrer por falta dele

“Sonhar juntos um mundo novo” foi o desafio que lançou o Papa aos seus interlocutores, como caminho para sair bem da crise (pandémica, mas não só) que atravessamos, ou seja, para sairmos melhores dela (isto porque, disse, “desta crise pandémica não vamos sair iguais. Ou se sai melhor ou se sai pior, mas tal como era antes não. Nunca ficaremos iguais.”). A preocupação de Francisco reside em estar já a ver sinais de se querer instaurar a”a mesma estrutura socioeconómica que tínhamos” antes da pandemia, com o argumento de que “é mais fácil, ou que “este é o melhor sistema possível” .

“Vamos escolher o caminho difícil”, desafiou

Que soluções defender? O Papa disse aos movimentos populares não ter a receita, mas apontou dois desafios que, ainda que não tocando no essencial, entende valer a pena estudar e experimentar.

O primeiro é o rendimento básico (o RBU) ou salário universal, “para que cada pessoa neste mundo possa aceder aos bens mais elementares da vida. É justo lutar por uma distribuição humana destes recursos. E é tarefa dos governos estabelecer sistemas fiscais e redistributivos para que a riqueza de uma parte seja partilhada com equidade, sem que isso implique uma carga insuportável, principalmente para a classe média”.

O segundo desafio é a redução do horário de trabalho. A este propósito, recordou: “No século XIX, os operários trabalhavam doze, catorze, dezasseis horas por dia. Quando conquistaram o horário de oito horas, não houve qualquer colapso, como previam alguns setores. Então, insisto, trabalhar menos para que mais gente tenha acesso ao mercado laboral é um aspeto que precisamos de explorar com urgência. Não pode haver tantas pessoas oprimidas pelo excesso de trabalho e tantas outras oprimidas pela falta de trabalho”.

 

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