Papa deixa África e o Índico: A pobreza “não é inevitável”

10 Set 19Igreja Católica, Igrejas Cristãs - Homepage, Papa Francisco, Últimas

O padre Pedro Opeka com as crianças da “Cidade da Amizade”. Foto © Anne Aubert/Wikipedia

 

“Se olharmos ao nosso redor, quantos homens e mulheres, jovens, crianças sofrem e estão literalmente privados de tudo! Isto não faz parte do plano de Deus” e a pobreza “não é inevitável”. As denúncias do Papa Francisco, na homilia da missa celebrada domingo, dia 8, em Antananarivo, capital de Madagáscar, são uma das ideias fortes da sua visita de três dias a Madagáscar e às Ilhas Maurícias, últimas etapas da viagem que antes o levara já a Moçambique.

No campo diocesano de Soamandrakizay, um espaço de 30 hectares, onde sábado à noite o Papa presidira a uma vigília com jovens, Francisco reforçou que só o “espírito de fraternidade” pode “superar a miséria, a corrupção e o extremismo, que ameaçam a dignidade humana e a natureza.”

Naquele que é um dos países mais pobres do mundo, o Papa deu uma atenção especial a todos os que, apesar das dificuldades, adversidades climáticas e conflitos armados ainda procuram a paz, a segurança e, mais que tudo, ultrapassar os “interesses pessoais”.

Exemplos disso mesmo foi a sua presença na Casa da Amizade,  em Akamasoa, criada e dirigida pelo o padre vicentino Pedro Opeka, antigo aluno do então padre Jorge Mario Bergoglio. Surgida junto de uma lixeira a céu aberto, o projeto, além de apoiar o realojamento digno das populações, promove a assistência médica, a construção de creches, escolas e parques.

“Se não se parte da base imprescindível da educação, não haverá desenvolvimento nem consciência do próprio valor. Aqui em Akamasoa, todas as crianças vão à escola, todas”, afirmava o padre Pedro Opeka, originário da Argentina, em reportagem do Vatican News.

 

Trabalho infantil, um problema muito grave

“O problema do trabalho infantil em Madagáscar é muito grave”, acrescenta Pedro Opeka, que começou a trabalhar no país em 1970. Conta a reportagem citada que, apesar do afeto que recebe por parte das crianças que o abraçam e o cumprimentam com um rosto sorridente, o padre Pedro se sente triste: “Há sofrimento das crianças, porque as famílias são pobres, muito pobres… e a mãe e o pai mandam os jovens trabalhar, não à escola. Os pais e as mães. E o Estado não intervém”, apesar da lei segundo a qual os menores têm obrigatoriedade de frequentar a escola.

“Nunca deixem de lutar perante os efeitos nefastos da pobreza”, pediu o Papa, exaltando a iniciativa de várias famílias na construção das aldeias com equipamentos médicos, sociais e educativos.

Desde a independência de Madagáscar, em 1960, o país tem vivido vários problemas. Em 1975, foi instituída uma segunda república, com Didier Ratsiraka a assumir o controlo autoritário do poder. Até Marc Ravalomana ter ganho as eleições em 2001, levando Ratsiraka a fugir o país. O novo Presidente viria a ser por sua vez deposto em 2009, pelo exército, cedendo o lugar ao milionário Andry Rajoelina.

Na sequência do golpe, os Estados Unidos e a União Europeia cortaram a ajuda a Madagáscar e a União Africana isolou diplomaticamente o país. Após vários desastres naturais que assolaram o país em 2012, Ravalomana e Rajoelina reuniram-se nas Seicheles com a mediação do Presidente da África do Sul, Jacob Zuma.

A visita do Papa ao país coincide, por isso, com uma época em que o país tenta a estabilização política, o restabelecimento da ordem e a promoção do desenvolvimento.

No final da tarde de domingo, o Papa rezou com os trabalhadores da Pedreira de Mahatzana. E, num encontro com clero, religiosas e seminaristas, agradeceu-lhes o facto de eles terem escolhido “ficar e estar ao lado do povo, com o povo”.

Os católicos representam 35% da população de Madagáscar, de acordo com dados do Vaticano. A Igreja Católica tem mais de seis mil escolas, desde o ensino primário à Universidade, que abrangem quase 700 mil alunos, além de várias outras instituições de ação social.

 

Uma luta vitoriosa

“É uma luta, uma luta vitoriosa aquela que se combate contra a ignorância, garantindo uma educação; é-o também quando se leva a presença de Deus ao contribuir para o respeito de todas as criaturas, na ordem e perfeição que lhes pertence, evitando o seu abuso ou exploração; e são sinais da vossa vitória também, quando plantais uma árvore ou ajudais a fornecer água potável a uma família”, acrescentou, numa referência aos temas da defesa do ambiente, outra das prioridades manifestadas durante estes cinco dias, nos três países visitados.

Na segunda-feira, 9 de setembro, na missa celebrada em Port-Louis, capital da República da Maurícia, Francisco relembrou o exemplo do missionário francês Jacques-Désiré Laval. Considerado herói nacional, ele foi importante para “dar confiança aos mais pobres e abandonados para que fossem os primeiros a organizar e encontrar respostas para os seus sofrimentos”.

Beatificado em 1979 pelo Papa João Paulo II, Jacques-Désiré Laval ficou conhecido como o “apóstolo da Maurícia”, em grande parte devido ao seu trabalho missionário na ilha entre 1841 e 1864, ano da sua morte. Membro dos Missionários Espiritanos, o padre Laval dedicou a sua vida a apoiar os antigos escravos, procurando integrar-se na sua cultura e ajudando-os a melhorar as condições da sua agricultura e cuidados de higiene.

“A sua solicitude levou-o a confiar nos mais pobres e descartados, para que fossem eles mesmos os primeiros a organizar-se e a encontrar respostas para as suas tribulações”, afirmou o Papa sobre o padre Laval, acrescentando também que por ter aprendido a língua dos escravos recém-libertados, o missionário pode ajudar a anunciar o evangelho.

(Vídeo sobre o padre Laval, realizado pelo padre Firmino Cachada)

A multidão que participou na missa saudou o Papa com ramos de palma, simbolizando as 100 mil palmeiras que serão plantadas na ilha como forma de combater a desflorestação.

Francisco sublinhou ainda que é importante manter o “impulso missionário” e o “rosto jovem da Igreja e da sociedade”. Num país em que o desemprego jovem cresceu nas últimas décadas, essa realidade rouba aos jovens a possibilidade de serem “protagonistas da sua própria história comum”, afirmou.

Após a celebração da missa, o Papa almoçou com os bispos da Conferência Episcopal do Oceano Índico, que reúne os episcopados da Maurícia, Rodrigues, Reunião, Seicheles e Comores. Num encontro final com as autoridades políticas e o corpo diplomático, enalteceu o valor da integração multiétnica e da paz. Regressou depois a Madagáscar, de onde parte nesta terça-feira para Roma.

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