Papa deixa Moçambique: pela reconciliação, contra a corrupção e o regresso às armas

7 Set 19Igreja Católica, Igrejas Cristãs - Homepage, Newsletter, Papa Francisco, Últimas

O Papa na missa no estádio do Zimpeto, em Maputo. Foto: ReligionDigital/Direitos Reservados

 

Uma vigorosa denúncia da corrupção e novos apelos à reconciliação nacional, contra qualquer tentação de “vingança” pela força das armas marcaram a manhã de sexta-feira, última etapa da visita do Papa Francisco a Moçambique, antes da sua partida para Madagáscar, onde foi de novo recebido por uma multidão entusiasta.

Na missa que celebrou no estádio do Zimpeto, antes de deixar Maputo, o Papa referiu-se à pobreza e à corrupção que dela se aproveita, aproveitando a ajuda externa: “Moçambique possui um território cheio de riquezas naturais e culturais, mas paradoxalmente com uma quantidade enorme da sua população abaixo do nível de pobreza. E por vezes parece que aqueles que se aproximam com o suposto desejo de ajudar, têm outros interesses. E é triste quando isto se verifica entre irmãos da mesma terra, que se deixam corromper; é muito perigoso aceitar que a corrupção seja o preço que temos de pagar pela ajuda externa.”

Numa missa celebrada debaixo de chuva e perante uma multidão calculada em cerca de 80 mil pessoas, Francisco pediu que os moçambicanos ultrapassem as “histórias de violência, ódio e discórdias” que viveram nas últimas décadas, desde a independência em 1975. E voltou a repetir, como fizera no dia anterior, que a paz não é apenas a ausência de guerra, mas precisa de condições concretas: “Superar os tempos de divisão e violência supõe não só um acto de reconciliação ou a paz entendida como ausência de conflito, mas o compromisso diário de cada um de nós ter um olhar atento e activo que nos leva a tratar os outros com aquela misericórdia e bondade com que queremos ser tratados.”

Os alertas dirigiram-se a todos os sectores. Um mês depois da assinatura do (terceiro) “Acordo de paz definitiva”, e operante as ameaças de alguns dissidentes da Renamo (principal partido de oposição) voltarem a pegar em armas, o Papa disse que não se pode pensar no futuro recorrendo às “armas e à repressão violenta”. E acrescentou: “Não posso seguir Jesus, se a ordem que promovo e vivo é ‘olho por olho, dente por dente’. Nenhuma família, nenhum grupo de vizinhos ou uma etnia e menos ainda um país tem futuro, se o motor que os une, congrega e cobre as diferenças é a vingança e o ódio.”

 

Somos todos parte dum mesmo tronco

Antes da missa, o papa visitou o Hospital do Zimpeto, gerido pela Comunidade de Santo Egídio, grupo católico baseado em Roma, hoje presente em vários países e que esteve no centro da mediação que levou ao Acordo Geral de Paz, em Moçambique, em 1992. O hospital acolhe e trata gratuitamente doentes com sida, que é ainda um flagelo grave no país, dando prioridade às grávidas e à prevenção da transmissão da doença mãe-filho.

“A solicitude dos fiéis não pode limitar-se a uma forma de assistência – embora necessária e providencial num primeiro momento –, mas requer a atenção amiga que aprecia o outro como pessoa e procura o seu bem”, disse o Papa durante o encontro com doentes, médicos, enfermeiros e outros funcionários.

“Ouvistes aquele grito silencioso, quase inaudível, de inúmeras mulheres, de tantos que viviam envergonhados, marginalizados, julgados por todos. Por isso alargastes esta casa – onde o Senhor vive com aqueles que estão na berma da estrada – aos doentes de cancro, tuberculose e a centenas de desnutridos, sobretudo crianças e jovens”, acrescentou o Papa na mesma ocasião.

Francisco enalteceu ainda as pessoas que “transmitem esperança a muitas outras pessoas”, exemplificando com a arte local: “Como ensinam as esculturas de arte maconde, as ujamaa (família alargada, em suaíli, ou árvore da vida) com várias figuras agarradas umas às outras onde prevalece a união e a solidariedade sobre o indivíduo, devemos dar-nos conta de que somos todos parte dum mesmo tronco.”

Em Antananarivo, capital de Madagáscar, onde chegou às 16h30 locais de sexta, 6 de Setembro (mais duas horas que em Lisboa), o Papa tem à sua espera uma situação de pobreza – Madagáscar é um dos países mais pobres do mundo – e de grande instabilidade. Em declarações à agência Ecclesia, o pare dehoniano Agostinho Gonçalves diz que o povo “anseia pela paz numa situação de insegurança e violência generalizada”.

José Alfredo Caires, bispo português da diocese de Mananjary, descreve: “Estamos num país muito rico em recursos naturais, mas que vive na pobreza, eu diria na miséria.” O país não tem guerras “mas reina a corrupção em todos os sectores sociais e um banditismo galopante”, acrescenta o bispo, também em declarações à Ecclesia.

Artigos relacionados

Apoie o 7 Margens

Breves

Carlos Farinha Rodrigues destaca importância da “economia de Francisco” novidade

A mensagem do Papa sobre a economia assenta no “combate às desigualdades e exclusão social”, na “dignidade do trabalho” e nas “preocupações com a casa comum”, diz o economista Carlos Farinha Rodrigues, em declarações à Ecclesia, a propósito de um debate sobre o encontro “A Economia de Francisco”, que decorrerá no próximo ano.

Duches para crianças pobres de Roma com apoio do Papa novidade

A Esmolaria Apostólica, que coordena as iniciativas caritativas do Papa, irá apoiar um projeto de banhos solidários para crianças pobres de Roma, já a partir desta quinta-feira, 19 de setembro. A iniciativa surge da associação italiana de médicos voluntários, a ‘Medicina Solidária’. “Estamos em guerra contra a pobreza”, afirma Lucia Ercoli, médica e presidente da associação, que gere seis consultórios itinerantes, também com o apoio da Esmolaria Apostólica.

John Kerry quer políticos a acelerar combate à emergência climática

O ex-secretário de Estado dos EUA, John Kerry, quer uma mobilização global dos governantes para acelerar o combate às alterações climáticas. Durante o encontro “O Futuro do Planeta”, organizado em Lisboa pelas Fundações Oceano Azul e Francisco Manuel dos Santos, o antigo candidato à presidência dos Estados Unidos afirmou que os governos mundiais têm atuado de forma irresponsável no cumprimento do Acordo de Paris, de 2015.

Bispos sul-africanos querem proteger mulheres contra homicídios

Os bispos católicos da África do Sul aconselham o Governo a agir contra a violência dirigida a mulheres e meninas, após uma série de mortes e violações que causaram revolta no país, que tem um dos maiores índices de homicídios do mundo: 3000 mulheres mortas em 2018 e 58 assassinadas diariamente.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia 

Entre margens

O Brexit dos pobres novidade

Um Brexit puro e duro deixará um rasto de destruição nas vidas e famílias por todo o Reino Unido. Foi isso que a Igreja de Inglaterra disse, procurando ser fiel à sua responsabilidade profética.

Não aos casamentos prematuros: não andemos à deriva

As “tradições” acima narradas já tiveram o seu tempo. Devem ser abolidas, sendo importante que se encontrem rituais de passagem alternativos, que marquem a transição de rapariga para mulher, sem colocarem em causa a sua dignidade, nem o fundamento de se destacar que existe uma distinção clara entre o estado de uma menina e o de uma mulher.

“Todo o mundo é composto de mudança”

Li há dias uma notícia com o título: “Troca de padres não agrada a paroquianos”. Casos como este são excelente ocasião para esclarecer valores ou razões escondidas, concorrendo para o crescimento espiritual de todos (não só dos paroquianos).

Cultura e artes

O coração inebriado de Agostinho, na leitura das “Confissões”

No início, logo depois da primeira peça musical de Rão Kyao, um dos actores declamará: “Quem me fará repousar em ti? Quem fará com que venhas ao meu coração e o inebries para eu esquecer os meus males e te abraçar a ti, meu único bem?” No dia que a liturgia católica dedica a Agostinho de Hipona, 28 de Agosto, no antigo convento de Santo Agostinho, hoje transformado em Museu de Leiria, o Teatro Maizum produz, a partir das 22h, uma leitura encenada das “Confissões”.

Três rostos para a liberdade

De facto, para quem o sabe fazer, o cinema é mesmo uma arte muito simples: basta uma câmara, um ponto de partida e pessoas que se vão cruzando e dialogando. E temos um filme, quase sempre um magnífico filme. Vem isto a propósito do último trabalho do iraniano Jafar Panahi: Três Rostos.

A potência benigna de Dietrich Bonhoeffer

O influente magistério de Dietrich Bonhoeffer, a sua vigorosa resistência ao nazismo e o singular namoro com Maria von Wedemeyer são três momentos da vida do pastor luterano que merecem uma peculiar atenção na biografia Dietrich Bonhoeffer. Teólogo e mártir do nazismo, da autoria do historiador italiano Giorgio Cavalleri. A obra, publicada pelas Paulinas em Maio, permite agora que um público mais vasto possa conhecer aquele que é geralmente considerado como um dos mais influentes teólogos do século XX.

Festa de Maria Madalena: um filme para dar lugar às mulheres

A intenção do autor é dar lugar às mulheres. Não restam dúvidas, fazendo uma leitura atenta dos quatro Evangelhos que Jesus lhes dá o primeiro lugar. A elas, anuncia-lhes quem é Ele, verdadeiramente. Companheiras de Cristo, continuarão a sua missão, juntamente com os homens. Anunciando, tal como eles, a Paixão e a Ressurreição de Jesus Cristo; curando, baptizando em nome do Senhor. Tornando-se diáconos. Sabe-se, está escrito. Mas, nos Actos dos Apóstolos, elas desaparecem sem deixar rasto.

Sete Partidas

Amazónia, um pulmão a proteger

 Nestas últimas semanas, a Amazónia pegou fogo nas redes sociais! “A Amazónia está a arder”! – lia-se por todo o lado, em textos acompanhados de fotos ilustrativas, algumas das quais nem tinham nada a ver com a situação, ou porque eram fotos antigas ou de outras...

Visto e Ouvido

"Correio a Nossa Senhora" - espólio guardado no Santuário começou a ser agora disponibilizado aos investigadores

Agenda

Set
20
Sex
“Um milagre todos os dias” – projecção de filme e debate @ Universidade Católica Portuguesa (Lisboa)
Set 20@11:15_13:00

O filme, estreado em 2018, foi realizado por Henrique Manuel Pereira e produzido pela Escola das Artes da Universidade Católica. Destaca a vida do Lar das Irmãzinhas dos Pobres, do Pinheiro Manso, inclui mais de três dezenas de depoimentos de residentes, funcionários, religiosas, voluntários e benfeitores.

“Com manifestações de humor e de solidão, de força e de fragilidade, de abnegada dedicação e criativo serviço, tendo por horizonte a ‘última estação da vida’, o filme configura um retrato realista do pulsar da vida daquela que é uma das instituições mais apreciadas e estimadas da cidade do Porto”, lê-se na sinopse.

A projecção será seguida por um debate com a participação do realizador, José Leitão (Centro de Reflexão Cristã), e João Eleutério, professor da Faculdade de Teologia.

Set
21
Sáb
Visitas guiadas ao Convento e Igreja de São Domingos, em Lisboa @ Convento de São Domingos
Set 21@10:00_12:00

As visitas serão acompanhadas pelo arquitecto João Alves da Cunha; haverá duas visitas: às 10h e 11h.

Encontro Também Somos Terra @ Casa de Espiritualidade do Linhó (Irmãs Doroteias)
Set 21@11:00_18:00

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco