Reunião com Zelensky ainda não confirmada

Papa deverá encontrar-se com vítimas de abusos em Portugal

| 12 Mai 2023

O cardeal Parolin nesta sexta-feira, em Fátima: encontro do Papa com vítimas de abusos é quase certo em Portugal. Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, deu quase como garantido em Fátima que o Papa Francisco não deixará de manifestar, durante a sua presença em Portugal para a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), a sua “proximidade com as vítimas” de abusos sexuais no interior da Igreja.

Sem nunca se referir ao tipo de gesto que o Papa terá, nem sequer onde ou quando se registará tal iniciativa, as palavras do cardeal número dois do Vaticano são claras sobre a intenção do Papa: Francisco tem “uma grande sensibilidade” ao tema, que teve sempre presente nas suas visitas – sobretudo onde ele “teve mais relevância”. Por isso, também em Portugal, “não necessariamente durante a JMJ”, ele “encontrará certamente o modo de exprimir a sua proximidade e solidariedade” para com as vítimas portuguesas.

Das palavras do cardeal na conferência de imprensa antes do início da peregrinação de 12-13 de Maio em Fátima, pode inferir-se que é possível que o encontro do Papa com as vítimas possa ocorrer em Fátima. Se Francisco chegar a Lisboa na quinta-feira, dia 3 de Agosto, a ida a Fátima poderia ocorrer entre quinta e sábado – já que o programa “obrigatório” do Papa na JMJ inclui a via-sacra com os jovens na tarde de sexta-feira, 4, e a vigília no parque Tejo, sábado à noite.

Acerca do tema dos abusos, o cardeal Parolin sublinhou o “grande empenho da Igreja, já a partir do Papa Bento XVI” no combate ao problema, de modo a que se possa “fechar a dura página do passado em ordem à transparência e, sobretudo, à prevenção” É importante, acrescentou, adaptar “todos os procedimentos para que não se repitam estes casos”.

O mecanismo fundamental para a prevenção dos abusos é a “formação” do clero e dos agentes pastorais, afirmou. Por isso, é importante rever o processo formativo dos seminários.

Pietro Parolin recusou, no entanto, que haja divergências de fundo entre os responsáveis da Santa Sé que lidam com este assunto, referindo-se nomeadamente ao caso do padre Hans Zollner que se demitiu recentemente da Comissão de Protecção de Menores, do Vaticano.

“Trata-se de questões internas e de diferentes interpretações”, disse, acrescentando que não conhece o caso em concreto para acrescentar qualquer outro elemento.

O mesmo referiu acerca do caso do padre jesuíta esloveno Marko Ivan Rupnik: também não está “em condições de responder”, até por ter ouvido “tantas coisas de um lado e de outro” que não se sente competente para emitir juízos sobre o que se passou. Rupnik, recorde-se, foi já suspenso de celebrar missa e aparecer em público, depois de ter sido acusado por várias mulheres, incluindo freiras, de ter abusado delas psicológica e sexualmente.

Também sobre números globais de padres abusadores o cardeal disse não ter informação – apesar de, já em 2014, o Vaticano ter dado à ONU as estatísticas que tinha nessa altura: numa década, tinham sido expulsos 848 padres abusadores, conforme foi referido na altura pelos representantes diplomáticos da Santa Sé nas Nações Unidas (texto disponível a assinantes).

José Ornelas, bispo de Leiria-Fátima e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, acrescentou também sobre o tema que tem encontrado muita gente a felicitá-lo pela iniciativa da CEP em lançar a Comissão Independente e do estudo sobre os abusos. Mas também há quem conteste, admite. “Este período de conhecer a realidade é doloroso, mas é importante “compreender” o que se passa, afirmou.

 

Ucrânia: não sei, mas…

O desejo de contribuir para a paz é ainda uma visão longínqua de concretizar no Vaticano, admite Parolin. Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

Apenas chegado do Vaticano, de onde veio na manhã desta sexta-feira, 12, o cardeal Parolin foi questionado pelos jornalistas sobre a possibilidade de o Papa receber neste sábado, no Vaticano, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky.

Admitindo que essa possibilidade existe, o cardeal disse que, no entanto, ainda não havia qualquer confirmação, pelo menos desde que saíra do Vaticano, na manhã de sexta-feira. “O Papa não deu mais detalhes, também não me sinto à vontade” para dar, acrescentou o principal responsável pela diplomacia vaticana.

Parolin acrescentou que desde o início “a Santa Sé ofereceu-se como lugar de mediação” para mediar o conflito da Rússia com a Ucrânia, na linha do que fez a diplomacia do Vaticano nas duas guerras mundiais do século XX, o cardeal acrescentou que o primeiro passo é chegar a um cessar-fogo, para depois entabular negociações de paz. Mas, até agora, “não houve resposta positiva, nem de uma parte nem da outra”, apesar da “disponibilidade” já transmitida pela Santa Sé.

O cardeal acrescentou que trazia muito presente, nesta sua vinda a Fátima, “a intenção da paz no mundo”. E relacionando a sua viagem com a JMJ de Lisboa, em Agosto, disse que os jovens são “transportadores de alegria e de paz e por isso são também solução para os problemas do mundo em que vivemos”.

Já à noite, na homilia da celebração da palavra que se seguiu à procissão das velas, o secretário de Estado disse que a Igreja pretende construir “pacientemente a cultura do encontro, do diálogo, da reconciliação e da fraternidade sem muros” e a “permanecer junto dos crucificados da história”. Os cristãos “não devem deixar que a esperança lhes seja roubada pela morte, pelos soberbos e os violentos”, antes a Igreja é chamada a ser “o instrumento vivo” da esperança.

O cardeal falou perante uma multidão que fez o santuário transbordar de peregrinos, naquela que é a maior peregrinação dos últimos anos. E acrescentou: “Quando não se encontra uma alternativa à violência, à guerra, ao ódio fratricida, à exclusão, à marginalização, então a esperança duma mudança radical e dum futuro diverso e bom é simplesmente impossível.” A alternativa a tudo isso, acrescentou, é Jesus, com “a sua proximidade aos doentes, o gesto de lavar os pés dos discípulos, o seu corpo cravado na cruz, com o perdão levado até ao extremo, até ao amor aos inimigos.”

 

Santuário a transbordar

Uma multidão como há anos não se via em Fátima. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

De facto, o mar de velas que encheu a Cova da Iria comprovou o que o reitor do santuário, padre Carlos Cabecinhas, afirmara durante a tarde: registou-se nos últimos dias um “regresso em força dos peregrinos a pé” e os responsáveis do santuário têm este ano “a alegria de acolher inúmeros e expressivos grupos”. O mesmo se passa com os grupos estrangeiros: estavam registados 136 grupos de 26 países de quatro continentes, uma estatística que “anima” os responsáveis do santuário.

Questionado pelo 7MARGENS sobre se uma afirmação do bispo Ornelas em entrevista às agências Lusa e Ecclesia –Fátima deve focar-se na “atenção aos mais pequenos, concretamente às crianças que passam fome, que não têm escola ou são abusadas – poderia levar a que o Vaticano promovesse uma campanha de atenção às crianças em todos os santuários do mundo, Parolin disse que iria transmitir a ideia ao Papa. “A atenção às crianças e pessoas vulneráveis” deve ser o centro de qualquer estrutura da Igreja Católica, disse.

Também instado pelo 7MARGENS, o cardeal comentou a situação da falta de bispos em Portugal: Bragança e Setúbal há mais de um ano, os da Guarda e Beja pediram a resignação nos últimos meses. Há padres que recusam o convite e alguns bispos já criticaram o núncio – na entrevista já citada, Ornelas diz que o processo “não está a funcionar” por ser demasiado lento e pouco participativo.

Esta é uma “prioridade para a Santa Sé”, disse Parolin, no sentido de nomear bispos novos num “tempo relativamente breve”. Mas tendo sido núncio por algum tempo – na Venezuela, entre 2009 e 2013 – Parolin admitiu que por vezes os processo estão concluídos e os padres dizem que não, obrigando a voltar ao início.

 

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