Visita ao Canadá a chegar ao fim

Papa diz no Canadá que luta contra os abusos é “irreversível”

| 28 Jul 2022

O Papa no Centro da Fraternité St Alphonse, no Quebeque, que acolhe 50 pessoas, entre as quais idosos, pessoas com dependências e doentes de VIH/sida. Foto © Vatican Media.

Francisco no Centro da Fraternité St Alphonse, no Quebeque, que acolhe 50 pessoas, entre as quais idosos, pessoas com dependências e doentes de VIH/sida. Foto © Vatican Media.

 

O Papa disse nesta quinta-feira, no Canadá, que a luta contra os abusos sexuais é “irreversível”, pedindo ao mesmo tempo perdão às vítimas dessas situações, cometidas por membros da Igreja ou em instituições católicas. 

“A Igreja no Canadá começou um percurso novo depois de ter sido ferida e transtornada pelo mal perpetrado por alguns dos seus filhos. Penso, particularmente, nos abusos sexuais cometidos contra menores e pessoas vulneráveis, escândalos que exigem acções fortes e uma luta irreversível”, afirmou Francisco, na catedral do Quebeque, onde presidiu à oração de vésperas com bispos, padres, diáconos, religiosas, seminaristas e agentes pastorais da Igreja Católica.

Referindo-se ao “caminho de cura e reconciliação com os irmãos e irmãs indígenas”, o Papa acrescentou: “Quero, juntamente convosco, voltar a pedir perdão a todas as vítimas. O pesar e a vergonha que sentimos devem tornar-se ocasião de conversão: que nunca mais aconteçam.”

Esta viagem ao Canadá teve como objectivo essencial pedir perdão aos indígenas pela forma como foram tratados em muitas instituições da Igreja: entre 1863 e 1998, mais de 150 mil crianças das “primeiras nações” terão sido tiradas às suas famílias e internadas nas escolas residenciais onde não tinham permissão para falar a sua língua nativa ou para realizarem quaisquer gestos característicos da sua cultura [ver 7Margens]. 

O internamento nestas instituições que se propunham assimilar à força as crianças autóctones tornou-se obrigatório na década de 1920, passando os pais a enfrentar a ameaça de prisão caso não cumprissem essa obrigação. Estimativas de várias fontes apontam para que mais de 6.000 crianças tivessem morrido durante o seu internamento forçado e um número muito maior tivesse sido vítima de maus-tratos, abusos sexuais e outras violências. No Canadá, chegaram a existir mais de 130 escolas residenciais financiadas pelo Governo e administradas por autoridades religiosas, sendo a Igreja Católica responsável por cerca de 70 por cento desses estabelecimentos.

“Nunca mais a comunidade cristã se deixe contaminar pela ideia da superioridade duma cultura sobre as outras e da legitimidade de usar meios de coação em relação aos outros”, pediu Francisco na homilia da oração de Vésperas, citado pela Ecclesia. 

O Papa alertou contra a tentação de sonhar com o regresso a uma “sociedade doutros tempos, onde a Igreja e os seus ministros tinham mais poder e relevância social”, o que constitui uma “perspectiva errada”. Esta nasce “de uma fé que, sentindo-se atacada, se considera como uma espécie de ‘armadura’ para se defender do mundo. Com amargura, acusa a realidade dizendo: ‘O mundo é mau, reina o pecado’, e assim corre o risco de se revestir dum ‘espírito de cruzada’. Tenhamos cuidado com isto, porque não é cristão”.

A Igreja no Canadá enfrenta três desafios, disse ainda: fazer Jesus conhecido, dar credibilidade ao anúncio enfrentando a “cultura da exclusão” e constituir-se como “comunidade acolhedora, que saiba ouvir e entrar em diálogo”.

Trudeau pede devoluções
Francisco com o primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, e a governadora-geral Mary Mey Simon, a primeira indígena do Canadá a assumir o cargo. Foto © Vatican Media.

Francisco com o primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau, e a governadora-geral Mary Mey Simon, a primeira indígena do Canadá a assumir o cargo. Foto © Vatican Media.

 

Noutro momento do dia, Francisco encontrou-se com o primeiro-ministro do país, Justin Trudeau. Após a reunião, este divulgou um comunicado no qual informa que as duas partes “discutiram a necessidade de a Igreja tomar medidas concretas para repatriar artefactos indígenas, fornecer acesso a documentos de escolas residenciais, abordar a doutrina da descoberta e garantir justiça aos sobreviventes, inclusive para o caso Rivoire”, o pedido de extradição do padre Johannes Rivoire, acusado de abusos sexuais, feito à França.

No início da missa presidida pelo Papa no Santuário Nacional de Sainte Anne de Beaupré, no Quebeque, dois manifestantes apareceram a segurar uma faixa pedindo o fim da “doutrina da descoberta”. A questão liga-se a documentos papais do século XV, utilizados para justificar a apropriação de territórios indígenas por parte das potências europeias; o conceito chegou a ser aplicado nos processos entre os novos Estados da federação americana e os povos nativos, conta também a Ecclesia noutra notícia.

O Vaticano recorda a bula Sublimis Deus, de Paulo III, de 1537: “Definimos e declaramos que os mencionados índios e todos os outros povos que posteriormente venham a ser descobertos pelos cristãos, de modo algum devem ser privados de sua liberdade e posse dos seus bens.”

Trudeau agradeceu ao Papa a sua visita ao Canadá para se encontrar com os povos indígenas nas suas terras ancestrais, “reconhecer as verdades sobre o sistema de escolas residenciais e reconhecer o seu doloroso legado”.

Após o pedido de perdão dirigido por Francisco aos sobreviventes, suas famílias e comunidades na segunda-feira, em Maskwacis, Alberta, o primeiro-ministro do Canadá, Francisco e o cardeal Parolin, secretário de Estado do Vaticano, discutiram a importância de um “envolvimento contínuo e significativo da Igreja Católica com as Primeiras Nações, Inuítes, e Métis para fazer avançar a cura e a reconciliação”.

Trudeau e Francisco discutiram também “desafios globais sem precedentes”, incluindo a paz e segurança na Ucrânia e os impactos globais da insegurança alimentar, em particular para os mais vulneráveis do mundo.

Num outro encontro entre o primeiro-ministro e o secretário de Estado Parolin, as duas partes abordaram “questões de migração em massa e mudanças climáticas”, além do reforço das relações bilaterais.

Depois da missa no Quebeque, o Papa fez ainda uma visita surpresa a uma instituição para idosos, toxicodependentes e doentes com HIV/sida. 

Francisco foi acolhido no jardim da estrutura pelo director, padre André Morency, pelos utentes permanentes e por aqueles que frequentam habitualmente o centro, num total de 50 pessoas, diz uma nota da Santa Sé.

“O Papa conversou com eles de maneira informal, ouvindo as suas histórias e pedidos de oração. Na despedida, doou ao centro uma imagem da Virgem Santíssima Senhora de Jerusalém”, conclui o comunicado.

Esta viagem ao Canadá conclui-se nesta sexta-feira, 29, com encontros dedicados aos indígenas, jovens e idosos, no Quebeque e em Iqaluit – que abriga o maior número de Inuítes, junto ao Ártico – além de uma audiência privada a sobreviventes das escolas residenciais. O Papa deixa o Canadá às 23h45 de Lisboa e deverá chegar a Roma às 7h50 locais (6h50 em Portugal continental). 

 

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