Papa e Guterres no Dia da Terra: só “juntos” venceremos as crises ambiental e do coronavírus

| 22 Abr 20

António Guterres com o Papa Francisco, no final do encontro entre ambos, a 20 de Dezembro de 2019. Imagem do vídeo do Vatican News disponibilizado no canal YouTube

 

No 50º aniversário da celebração do Dia da Terra, assinalado esta quarta-feira, 22 de abril, as mensagens do Papa Francisco e do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, coincidiram no essencial: a par da crise provocada pela pandemia de coronavírus, há uma crise ambiental no planeta e, para vencer ambas, toda a comunidade internacional terá de se unir e trabalhar em conjunto.

“Devemos trabalhar juntos para salvar vidas, aliviar o sofrimento e diminuir as consequências económicas sociais e devastadoras” da crise provocada pelo novo coronavírus, começou por apelar António Guterres no vídeo divulgado pela ONU, destacando logo de seguida que “o impacto do coronavírus é imediato e terrível, mas há outra emergência profunda: a crise ambiental do planeta”.

Sublinhando que a rutura climática está prestes a alcançar um “ponto sem retorno”, Guterres considera que “a crise atual é um despertar sem precedentes” e pode ser transformada numa “oportunidade real de fazer as coisas certas para o futuro”.  Nesse sentido, o secretário-geral da ONU propôs seis medidas concretas a tomar “sem hesitação, para proteger o nosso planeta”.

Entre as ações propostas, destacam-se o fim do subsídio aos combustíveis fósseis e a utilização dos fundos públicos para investir em “setores e projetos sustentáveis que ajudem o meio ambiente e o clima”, defendendo que “os poluidores devem começar a pagar pela sua poluição.” Segundo Guterres, “os riscos e oportunidades relacionados com o clima têm de ser incorporados no sistema financeiro” e as políticas orçamentais devem “transformar a economia cinzenta numa economia verde”. A última medida proposta vem reforçar a mensagem inicial: “Precisamos de trabalhar juntos como uma comunidade internacional.”

 

“Falhámos na responsabilidade de guardiões da Terra”

Com outras palavras, o Papa Francisco lançou o mesmo apelo durante a sua habitual catequese de quarta-feira, desta vez dedicada ao Dia Mundial da Terra: “Como a trágica pandemia de coronavírus está a mostrar-nos, somente juntos e ajudando os mais frágeis podemos vencer os desafios globais”, afirmou.

No discurso que fez na Biblioteca do Palácio Apostólico, Francisco assinalou que esta “é uma oportunidade para renovar o compromisso de amar a nossa casa comum e cuidar dela e dos membros mais frágeis da nossa família”.

O Papa considera que “por causa do egoísmo, falhámos na nossa responsabilidade como guardiões e administradores da Terra. (…) Poluímo-la e depredámo-la, colocando em risco a nossa própria vida”. Recorrendo a um “ditado espanhol que diz: ‘Deus perdoa sempre; nós, homens, perdoamos às vezes; a Terra nunca perdoa”, o Papa justificou assim o estado do planeta: “A Terra não perdoa: se deterioramos a Terra, a resposta será muito negativa.”

Por isso, dirigindo-se a “toda a humanidade”, e em particular aos cristãos, pediu “uma nova maneira de olhar para a nossa casa comum”. “Ela não é um depósito de recursos a serem explorados. Para nós, fiéis, o mundo natural é o ‘Evangelho da Criação’, que expressa o poder criativo de Deus em plasmar a vida humana e em fazer o mundo existir junto com o que ele contém para sustentar a humanidade.”

Papa Francisco, “fomos nós que arruinámos a obra do Senhor”, pelo que será agora essencial “redescobrir o sentido do respeito sagrado pela terra, porque não é apenas a nossa casa, mas também a casa de Deus. Daí vem a consciência em nós de estarmos numa terra sagrada”, algo que pode ser aprendido com os “povos nativos”, que “têm a sabedoria do ‘viver bem’, do viver em harmonia com a terra’, recordou.

No final da mensagem, também o Papa reforçou, uma vez mais, a necessidade de união nas medidas a tomar. “Precisamos de uma conversão ecológica expressa em ações concretas. Como uma família única e interdependente, precisamos de um plano partilhado para afastar as ameaças contra a nossa casa comum.” E terminou citando um trecho da sua encíclica Laudato si’, “sobre o cuidado da casa comum”, cujo quinto aniversário se assinala em maio: “Não se pense que estes esforços são incapazes de mudar o mundo. Estas ações espalham, na sociedade, um bem que frutifica sempre para além do que é possível verificar; provocam, no seio desta terra, um bem que tende sempre a difundir-se, por vezes invisivelmente”.

Desmatamento no rio da Saudade, na Amazónia. Foto © Gérard Moss/Projecto Brasil das Águas-Simpósio Religião, Ciência, Ambiente

 

Tomando as palavras do Papa Francisco, também a coordenadora dos Green Anglicans, Rachel Mash, fez questão de assinalar, a propósito da celebração do Dia Mundial da Terra, que “partilhamos todos a mesma casa comum”. Em comunicado enviado ao 7MARGENS, a coordenadora ambiental da Igreja Anglicana da África do Sul sublinhou que “estamos a tomar consciência de que somos parte de uma rede de vida. O coronavírus ensina-nos que a nossa segurança depende das ações de outros, tal como as mudanças climáticas mostram que o futuro de toda a Terra depende das ações de todas as nações”.

Rachel Mash acredita que “o mundo ao qual iremos retornar poderá ser diferente” e que estamos perante “uma oportunidade para redesenhar os nossos valores e prioridades”. Em linha com as medidas sugeridas por António Guterres, a reverenda anglicana defende que “deveremos repensar a nossa relação com a economia, a sociedade e a natureza. (…) Neste Dia da Terra, vamos comprometer-nos a renovar a face da Terra”, desafiou.

Também o Comité de Ligação Inter-Religioso da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas sublinhou ideias semelhantes, numapelo dirigido às Nações Unidas e subscrito pelo Conselho Mundial (ou Ecuménico) de Igrejas. “As escolhas que agora fizermos irão moldar a nossa sociedade durante anos e é crucial que os esforços para reconstruir as economias coloquem a saúde das pessoas acima do lucro”, diz o documento. “Os governos prometeram montantes extraordinários para evitar catástrofes económicas devido a esta pandemia, mas esse dinheiro não deve ser utilizado para financiar a futura degradação ambiental. Não devemos voltar a relançar os subsídios aos combustíveis fósseis e os padrões de consumo insalubres”, insiste aquele organismo inter-religioso.

Na carta, pede-se que os planos para uma recuperação justa da covid-19 tenham “em conta as medidas necessárias para combater as alterações climáticas com uma abordagem gerida, planeada e justa, defendendo “os direitos humanos, a saúde e o bem-estar dos cidadãos como fundamentais para a estabilidade e a segurança de todos os países”.

 
ONG pede que “ambiente natural saudável” se inclua na lista de direitos humanos

Da ONG internacional Birdlife chegou, no mesmo dia, um desafio concreto para a ONU. Numa carta dirigida a António Guterres, a organização ambientalista pediu que as Nações Unidas declarem o ambiente natural saudável como um direito humano fundamental.

Em simultâneo, a Birdlife lançou no seu site a petição “#1Planet1Right, a healthy planet is a human right”, que pretende recolher o maior número de assinaturas possível com o intuito de dar força a esta ação.

Na carta, a organização internacional apela à ONU para que, “no âmbito da sua resposta à pandemia de coronavírus, acrescente um Artigo 31 à Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), consagrando o direito universal a um ambiente natural saudável, garantido por políticas públicas, governado pela sustentabilidade e pelo melhor conhecimento científico e sabedoria tradicional”.

A declaração, redigida na sequência da II Guerra Mundial, estabelece, em 30 artigos, os direitos humanos fundamentais que têm de ser protegidos globalmente, da liberdade de expressão à educação, mas não se refere à proteção do ambiente.

A Birdlife assinala que, a concretizar-se esta adenda, tratar-se-á do primeiro acrescento desde que o documento foi aprovado e proclamado em 1948. E propõe um prazo para atingir este objetivo: dezembro de 2023, data em que se celebrará o 75º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Mais de 80 instituições confirmaram já o seu apoio à iniciativa da Birdlife, incluindo a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA).

“O Artigo 31 será uma dádiva para as gerações futuras”, considera Domingos Leitão, diretor executivo da SPEA. “Num país como Portugal, rico em biodiversidade e sistemas naturais únicos, em terra e no mar, será uma garantia de que os nossos filhos e netos continuam a usufruir dos benefícios proporcionados pela natureza”, defende.

Para o responsável desta ONG nacional, “não existe melhor forma de comemorar o Dia da Terra, do que consagrar um ambiente natural saudável como direito humano fundamental. Num sinal de que a humanidade aprendeu com a crise do coronavírus, que infelizmente alguns líderes aproveitam como desculpa para revogar proteções ambientais.”

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