Papa e imã de Al-Azhar fazem denúncia vigorosa da miséria e do extremismo

| 5 Fev 19

Foto © Vicariato Apostólico do Sul da Arábia.

É com um convite à reconciliação e à fraternidade entre todos os crentes, entre crentes e não-crentes e entre todas as pessoas de boa vontade que termina a declaração subscrita nesta segunda-feira, 4 de Fevereiro, em Abu Dhabi (Emirados Árabes Unidos, EAU) pelo Papa Francisco e o Grande Imã da Mesquita e Universidade de Al-Azhar (Cairo), Ahmad Al-Tayyeb. Antes, há uma vigorosa denúncia das injustiças e da miséria que afectam grande parte da humanidade. A declaração, que se intitula “Documento sobre a fraternidade humana pela paz mundial e a convivência comum”, faz um apelo “a toda a consciência viva que repudia a violência aberrante e o extremismo cego” e “aos que amam os valores da tolerância e da fraternidade, promovidos e estimulados pelas religiões”.

O Papa e o Grande Imã (Al-Azhar é considerada a universidade mais prestigiada do islão sunita) querem que este gesto testemunhe “a grandeza da fé em Deus que une os corações divididos e eleva o espírito humano” e seja “um símbolo do abraço entre Oriente e Ocidente, entre Norte e Sul e entre todos os que crêem que Deus nos criou para nos conhecermos, para cooperarmos e para vivermos como irmãos que se amam”. Francisco e Ahmad Al-Tayyeb, que condenam com firmeza o terrorismo, dizem que é isto o que esperam e tentam realizar “para alcançar uma paz universal de que disfrutem todas as pessoas nesta vida”.

A declaração marcou o primeiro dia (com actos públicos, já que no domingo foi só a chegada) da visita do Papa aos EAU, que incluiu um encontro inter-religioso, no Memorial do Fundador, e um encontro privado com os membros do Conselho Muçulmano de Anciãos, na Grande Mesquita do Xeque Zayed. Nesta terça-feira, o Papa celebrou missa no Zayed Sports City, depois de realizar uma visita privada à catedral. O primeiro dia foi ainda aproveitado por Francisco, no discurso que fez no encontro inter-religioso, para condenar a crueldade das guerras, que nenhuma religião pode aceitar ou justificar, designadamente as que têm lugar no Iémen, na Síria, no Iraque e na Líbia.

Francisco e Ahmad Al-Tayyeb afirmam que as crises políticas, a injustiça e a falta de uma distribuição equitativa dos recursos naturais – “com o que apenas beneficia uma minoria de ricos, em detrimento da maioria dos povos da terra” – causaram e continuam a causar um grande número de vítimas em inúmeros países. Relativamente às crises “que conduzem à morte de milhões de crianças, reduzidas já a esqueletos humanos – a causa da pobreza e da fome –, reina um silêncio internacional inaceitável”.

O texto manifesta “a importância de reavivar o sentido religioso e a necessidade de o reanimar nos corações das novas gerações, através da educação sã e a adesão aos valores morais e ao ensino religioso adequado, para que se afrontem as tendências individualistas, egoístas, conflituosas, o radicalismo e o extremismo cego em todas as suas formas e manifestações”.

A “necessidade indispensável de reconhecer o direito das mulheres à educação, ao trabalho e ao exercício dos seus direitos políticos” é outro aspecto reclamado no documento, que pede que se trabalhe para libertar a mulher de pressões históricas e sociais contrárias aos princípios da própria fé e dignidade. Além disso, é necessário protegê-la da exploração sexual, do tratamento como uma mercadoria ou um meio de prazer, e da ganância económica”. 

Para lá dos direitos das crianças e das mulheres, Francisco e Ahmad Al-Tayyeb defendem que devem também ser protegidos os dos idosos, dos débeis, dos deficientes e dos oprimidos, uma necessidade que deve ser garantida e protegida através de legislações rigorosas e da aplicação das convenções internacionais.

A Igreja Católica e a Universidade Al-Azhar, através da cooperação conjunta, anunciam e prometem levar este Documento às autoridades, aos líderes influentes, aos religiosos de todo o mundo, às organizações regionais e internacionais competentes, às organizações da sociedade civil, às instituições religiosas e aos pensadores; e participar na difusão dos princípios desta declaração.

 

 

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