Papa em Marrocos: pontes para os imigrantes e diálogo com o islão em palavras e actos

| 2 Abr 19

Muçulmanos e cristãos marroquinos a tocar juntos, num encontro inter-religioso no início de Março. Foto reproduzida da página da diocese de Tânger na Internet: http://diocesistanger.org/

 

Insistências várias na necessidade de oferecer “pontes” e não muros a imigrantes e refugiados; e a confirmação de uma aposta séria no diálogo com o islão. Estes foram os dois temas mais importantes das pouco mais de 27 horas de visita do Papa Francisco a Marrocos, sábado e domingo passado (30 e 32 de Março), mas ainda houve espaço para falar sobre a questão dos abusos sexuais e assinar, com o rei de Marrocos,Mohammed VI, uma declaração “reconhecendo a singularidade e sacralidade de Jerusalém”.

“Consideramos importante preservar a Cidade Santa de Jerusalém / Al Qods Acharif como património comum da humanidade e, sobretudo para os fiéis das três religiões monoteístas, como lugar de encontro e símbolo de convivência pacífica, na qual se cultivam o respeito mútuo e o diálogo”, diz o texto.

“Com esta finalidade, devem ser mantidos e fomentados o caráter específico multirreligioso, a dimensão espiritual e a identidade cultural peculiar de Jerusalém / Al Qods Acharif”, diz ainda o documento, que pede para que se mantenha em na cidade “a plena liberdade de acesso aos fiéis das três religiões monoteístas e o direito de cada uma exercer o seu próprio culto (…) por um futuro de paz e fraternidade sobre a terra”.

Este foi o segundo texto assinado pelo Papa e líderes muçulmanos em menos de dois meses, depois da declaração sobre a Fraternidade Humana, de Abu Dhabi.

Neste documento em concreto, não se nomeia Israel nem a estratégia do actual Governo de Telavive, no sentido de levar ao reconhecimento internacional de Jerusalém como capital do país – uma decisão tomada pelos actuais presidentes dos Estados Unidos e Brasil. Mas acaba por se contrariar essa posição, ao mesmo tempo que se reafirma a posição que a Santa Sé vem defendendo há muito, no sentido de reconhecer a Jerusalém um estatuto especial.

Com estas viagens, os documentos e os seus gestos de aproximação, o Papa Francisco evidencia claramente a sua estratégia de aproximação ao islão, promovendo uma atitude diálogo e de pontes estendidas. Uma estratégia ingénua? O padre Amir Jajé, dominicano do Iraque e membro do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso, dizia, em declarações ao La Croix International, que o Papa assume alguns riscos com estas suas decisões, mas que o diálogo “é o único caminho, se quisermos ser verdadeiros com Cristo”. As acções do Papa, acrescentava, são “guiados pelas responsabilidades associadas à sua autoridade espiritual”.

 

Liberdade de consciência e dignidade humana

Esta aproximação, no entanto, não esquece outros factores importantes: um diálogo autêntico convida “a não subestimar a importância do factor religioso para construir pontes” entre as pessoas e implica o respeito das diferenças e o reconhecimento da “dignidade de todo o ser humano, bem como os seus direitos inalienáveis”. E, perante o rei, as autoridades, o corpo diplomático e muitos marroquinos anónimos, no seu primeiro encontro depois da chegada, o Papa acrescentou: “É por isso que a liberdade de consciência e a liberdade religiosa – esta não se limita à mera liberdade de culto, mas deve consentir a cada um viver segundo a própria convicção religiosa – estão inseparavelmente ligadas à dignidade humana.”

Neste espírito, deve passar-se “da simples tolerância ao respeito e estima pelos outros”, enriquecendo-se mutuamente com a diferença e buscando o que podem fazer juntos cristãos e muçulmanos. “Assim entendida, a construção de pontes entre os seres humanos, vista da perspetiva do diálogo inter-religioso, pede para ser vivida sob o signo da convivência, da amizade e, mais ainda, da fraternidade”, disse ainda, destacando a importância da Conferência Internacional sobre os Direitos das Minorias Religiosas no Mundo Islâmico, realizada em Marraquexe há três anos, e da criação do Instituto Ecuménico Al Mowafaqa, em Rabat, em 2012, com o objectivo de promover o ecumenismo e o diálogo com a cultura e com o islão.

O rei de Marrocos também sublinhou as mesmas ideias do Papa. No discurso com que acolheu Francisco, Mohammed VIafirmou que as três religiões abraâmicas não existem para se tolerar mas “para se abrir uma à outra e conhecer-se”, fazendo o bem uma à outra.

Uma das iniciativas do rei para concretizar esta perspectiva foi a criação de um instituto de formação de imames, pregadores e pregadoras, que o Papa visitou ainda no sábado.

Alguns dos 1300 estudantes – metade dos quais são estrangeiros, provenientes de países africanos na maior parte – falaram com Francisco. No La Croix, refere-se o caso de uma nigeriana proveniente da zona dominada pelo grupo terrorista Boko Haram, que testemunhou a favor de um islão de “paz e bondade” e que afirmou querer trabalhar em prol da coexistência pacífica e do reconhecimento de direitos iguais para mulheres e homens.

 

Deus faz as pontes com as asas de anjos

Sobre a criação do Instituto Ecuménico Al Mowafaqa, o Papa afirmou que essa “louvável iniciativa expressa a preocupação e a vontade dos cristãos, que vivem [em Marrocos], de construir pontes para manifestar e servir a fraternidade humana”.

A ideia de ponte foi usada pelo Papa, no final da sua viagem, para resumir o sentido das suas intervenções, quer sobre o diálogo inter-religioso, quer em relação à problemática dos imigrantes e refugiados. Questionado por um jornalista marroquino sobre os frutos da sua visita para a paz e a coexistência, Francisco respondeu que para já se vêem flores e que os frutos virão mais tarde, mas que não se deve desistir da “flor de coexistência”.

“Haverá muitas dificuldades porque infelizmente há grupos intransigentes”, acrescentou o Papa. “Em todas as religiões há sempre um grupo integralista que não quer continuar e vive de lembranças amargas, de lutas passadas e busca mais a guerra e semeia o medo. (…) precisamos de pontes e ficamos tristes quando vemos pessoas que preferem construir muros. Por que estamos tristes? Porque aqueles que constroem muros acabarão sendo prisioneiros das muralhas que constroem.”

Francisco recorreu depois a uma citação do escritor bósnio-jugoslavo Ivo Andrić, autor de O Pátio Maldito: “Aqueles que constroem pontes irão muito longe. Construir pontes é para mim algo que vai além do humano, porque é preciso um grande esforço. Fiquei muito impressionado com as palavras do escritor Ivo Andrić, no romance A Ponte Sobre o Drina: ele diz que a ponte é feita por Deus com as asas dos anjos para que os homens comuniquem, entre as montanhas e as margens de um rio, para que os homens possam comunicar uns com os outros. A ponte é para comunicação humana. Isso é lindo e eu vi-o em Marrocos.”

No centro de acolhimento a imigrantes gerido pela Cáritas marroquina, o Papa insistiu na ideia da dignidade de quem procura outro país para viver. Repetindo os verbos que já utilizou em outras ocasiões – acolher, proteger, promover e integrar –, insistiu na necessidade de alargar “canais regulares de migração”, de modo a retirar o espaço de manobra aos “‘comerciantes de carne humana’ que se aproveitam dos sonhos e carências dos migrantes”. Enquanto isso não for concretizado, deve enfrentar-se “a premente realidade dos fluxos irregulares com justiça, solidariedade e misericórdia”, recusando “formas de expulsão colectiva” e simplificando e incentivando “percursos extraordinários de regularização, sobretudo nos casos de famílias e menores”.

Para os cristãos, “não se trata apenas de migrantes”, mas é “o próprio Cristo” que bate à porta, disse ainda Francisco, perante uma plateia onde se encontravam muitos imigrantes, oriundos sobretudo da África subsariana – Camarões, Nigéria, Guiné, RD Congo, ou Senegal, por exemplo. No encontro com o clero, os religiosos e os membros do Conselho Ecuménico de Igrejas, destacou ainda: “Ser cristão não é aderir a uma doutrina, a um templo, ou a um grupo étnico; ser cristão é um encontro, um encontro com Jesus Cristo. Somos cristãos, porque alguém nos amou e veio ao nosso encontro e não por resultado do proselitismo. Ser cristão é saber-se perdoado, saber-se convidado a agir no mesmo modo com que Deus agiu para connosco, pois ‘por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros’.”

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