
Hebe Pastor de Bonafini: “Nós sentimos que a Praça é o grito de muitas mães, não apenas o nosso.” Foto © Margarita Solé/Ministerio de Cultura – Argentina
Desde há 45 anos que Hebe Pastor de Bonafini só pedia justiça e que o Estado argentino lhe devolvesse a verdade sobre o que tinha sido feito a dois dos seus filhos e à nora que a ditadura militar argentina (1976-83) um dia lhe roubou. Todas as quintas-feiras colocava na cabeça o lenço branco com uma inscrição bordada: “Aparición con vida de los desaparecidos” e ia, com dezenas, centenas ou, por vezes, milhares de mães pedir justiça diante da Casa Rosada, o palácio presidencial argentino. A co-fundadora e presidente da Associação das Mães da Praça de Maio morreu neste domingo, 20, a poucos dias de completar 94 anos (4 de Dezembro). O Papa Francisco, com quem Hebe se encontrara, e por causa de quem se reconciliara com o catolicismo, enviou uma mensagem de condolências.
Nascida em 1928, Hebe casou aos 14 anos, em 1942, com Humberto Alfredo Bonafini, com quem teve três filhos: Jorge Omar, Raúl Alfredo e María Alejandra. Em Fevereiro de 1977, o mais velho foi sequestrado e desapareceu. Em Dezembro do mesmo ano, aconteceu o mesmo ao filho mais novo e, em Maio de 1978, também à sua nora, Maria Elena Bugnone, mulher de Jorge. A ditadura militar argentina não poupava a meios para perseguir, torturar e matar os opositores políticos.
Desde esse tempo, com outras mães, Hebe Pastor começou a manifestar-se, em silêncio, exigindo que o paradeiro dos seus filhos fosse esclarecido. “Nós sentimos que a Praça é o grito de muitas mães, não apenas o nosso. (…) Essa Praça é o grito da justiça: da prisão para os assassinos, da justiça social, do trabalho e da dignidade, de que a política também tem de ser feita pelos jovens como uma acção que nos liberta e não como a corrupção que nos mostram… Enfim, a Praça contém tudo isso”, dizia ela, em 1999.
Na mesma ocasião, Hebe Pastor descrevia: “Marchamos meia hora cada quinta-feira. Não faltamos nunca, nunca. São umas 300 pessoas, mais ou menos, incluindo umas 60 ou 70 mães de Buenos Aires (há 15 filiais em todo o país) e, quando fazemos marchas grandes, vêm 60 mil, 80 mil pessoas.”
Sobre o papel da hierarquia católica, dizia que ela tinha abençoado os assassinos. “Isto são coisas terríveis, que não podem ter perdão. E a Igreja não pode continuar a ter esta gente, que continua a dar a comunhão, a fazer baptismos, que perdoa os pecados”, afirmava.
Por causa disso, e por pensar que Jorge Mario Bergoglio tinha também apoiado a ditadura, viu com maus olhos a eleição do arcebispo de Buenos Aires, em 2013, como Papa. Acabaria a reconciliar-se com ele e, por causa dele, com o catolicismo, em 2016, depois de, após várias insistências, ter acedido a ir falar com Francisco, no Vaticano.
Conversaram por duas horas e meia. “Eu tinha perdido completamente a fé e, graças ao Papa Francisco, redescobri-a”. E acrescentava, em Maio deste ano: “Depois dessa conversa, tudo continuou como uma amizade. Quando o relacionamento começou, a minha fé foi restaurada, tão necessária… Sem fé não se pode viver, e graças a essa fé eu converso com os meus filhos todas as noites”.
Numa carta enviada às Madres de Plaza de Mayo, o Papa Francisco expressou o seu pesar pela morte de Hebe Pastor: “A sua audácia e coragem, nos momentos em que prevalecia o silêncio, mantinham viva a busca da verdade e da memória”.
A presidente das Mães soube transformar a dor pelo desaparecimento dos filhos “numa busca incansável para defender os direitos dos mais marginalizados e invisíveis”, acrescentou Francisco na carta dirigida à Associação, e na qual também recordava o encontro que teve com ela, em 28 de Maio de 2016, de acordo com a notícia do Vatican News.
Hebe de Bonafini, que nunca perdeu nenhuma das 2036 manifestações desde 30 de abril de 1977, encetou agora a sua “última marcha”, escreveu o Papa, que se dirigiu às Mães: “Não permitai que se perca todo o bem que foi feito.”
As luzes e as sombras
Também o arcebispo de La Plata, Víctor Manuel Fernández, um dos mais próximos do Papa dentro do episcopado argentino, escreveu na sua conta no Twitter que rezou “pelo descanso eterno” da líder das Mães da Praça de Maio, depois de ter visitado Hebe Pastor, na sexta-feira, no hospital, levando-lhe uma saudação do Papa. “Encontrei-a muito bem preparada”, contou, dizendo que Hebe lhe afirmara estar “pronta” enquanto esboçava um sorriso.
O portal de notícias da Unisinos, universidade jesuíta brasileira, faz notar que, em contraste com essa mensagem, a Conferência Episcopal Argentina se limitou a uma declaração de “formalidade institucional”.
Na Argentina, o Governo decretou três dias de luto nacional, mas o jornal Clarín recorda, no perfil que escreveu sobre ela, que Hebe Pastor também suscitava rejeição, a par do fervor com que muitos a olhavam. “Foi chamada ‘a Rocha’ pela sua teimosia, a sua obstinação, a sua intransigência, a sua rudeza, a sua franqueza, a sua linguagem simples e brutal, as suas explosões que sempre a levaram à beira da perturbação’”, lê-se no jornal.
“Ela viveu uma imensa tragédia pessoal, o desaparecimento dos seus dois filhos e da sua nora, às mãos dos centuriões da ditadura; e transformou essa dor privada numa dor colectiva, deu ao seu drama e ao do resto das mães, uma dimensão social como nenhum outro drama na Argentina jamais tinha tido antes.”
Bonafini fez ainda mais, acrescenta o jornal, apontando também as sombras que rodearam a sua acção nos últimos anos: “por sua própria decisão, e sem muito mais fundamentos do que os ditados pela sua tragédia pessoal, retirou toda a autoridade moral aos governos democráticos do país nos últimos trinta anos até que, seduzida pelo ex-Presidente Néstor Kirchner, se juntou ao governo com a fúria dos convertidos, enquanto tomava a seu cargo o programa Sonhos Partilhados, um plano de habitação que geriu pelo menos 1,2 mil milhões de pesos [pouco mais de 7,7 milhões de euros] e pelo qual acabou por ser acusada de corrupção e envolvida num escândalo cuja investigação e limites judiciais estão nas mãos do sistema de justiça federal.”










