Visita à Hungria e Eslováquia

Papa enfrenta teste à saúde e à diplomacia no centro do populismo xenófobo europeu

| 12 Set 2021

Num dos pontos altos da viagem à Eslováquia, o Papa visita a minoria cigana num bairro onde não há água, nem luz nem gás. Será um recado também para a Hungria vizinha, que Francisco visita neste domingo durante sete horas. A política anti-imigração dos dois países será um teste à diplomacia, mas a própria viagem é um teste à saúde de Francisco, depois da intervenção cirúrgicas a que foi submetido há dois meses. 

 

Papa Francisco, Eslováquia, Hungria

Logotipo da viagem do Papa Francisco à Eslováquia e Hungria, 12-15 Setembro 2021

O Papa Francisco chega bem cedo (6h45, hora de Lisboa) na manhã deste domingo, 12 de Setembro, a Budapeste, capital da Hungria. Ali permanecerá sete horas, seguindo depois para a Eslováquia, onde ficará até quarta-feira. Esta é a primeira viagem desde que foi operado no início de Julho, mas é também um teste diplomático: Francisco estará no coração dos nacionalismos populistas e xenófobos europeus, que penalizam severamente a imigração e quem apoie os imigrantes ou refugiados, contrariando claramente as suas perspectivas sobre o tema.

Durante a viagem, o Papa, de 84 anos, terá dois encontros ecuménicos e dois com as representantes judeus – precisamente nas vésperas do Yom Kipur, o principal feriado do judaísmo. Mas aquele que porventura será mais significativo decorrerá terça-feira em Košice (Eslováquia), com a minoria roma. Perseguidos pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial, os ciganos enfrentam ainda a xenofobia e são vítimas de discriminação e pobreza.

Este gesto constitui um gesto claro de apelo à inclusão em dois países cujas orientações políticas dos últimos anos têm ido na direcção oposta do que Francisco propõe.

Ainda no último domingo, 5, o Papa apelou na sua alocução do Ângelus a que refugiados afegãos sejam recebidos noutros países. E tem insistido em múltiplas ocasiões na importância de acolher imigrantes ou refugiados, manifestando a sua preocupação com políticas que fazem lembrar “as de Hitler em 1934” e dizendo que o soberanismo “é um exagero que acaba sempre mal, levando a guerras”, como dizia em 2019.

Mais do que palavras, Francisco já levou mesmo 12 refugiados para o Vaticano. Em Abril de 2016, várias famílias sírias que estavam num campo de refugiados em Lesbos viajaram no avião do Papa, no regresso a Itália.

Pelo contrário, Eslováquia e Hungria têm manifestado muitas reservas em acolher afegãos em fuga do seu país, depois da tomada de poder pelos taliban. Num comunicado recente do grupo de Visegrado (que inclui Eslováquia, Hungria, Polónia e República Checa), dizia-se que “a imigração ilegal incontrolada representa uma das ameaças mais graves para a segurança e a coesão da União Euorpeia e que os cidadãos esperam acções credíveis para enfrentar este fenómeno”.

Dados da UE citados pelo Religión Digital mostram que nesta região estão os países que mais migrantes devolveram à procedência: Hungria – 90 %, Áustria – 62 % e Eslováquia – 57 %.

O facto de o Papa passar em Budapeste apenas para presidir à eucaristia de encerramento do Congresso Eucarístico Internacional, que decorreu nesta semana na capital húngara, denota a distância que ele quer marcar em relação às políticas soberanistas e anti-imigração do primeiro ministro, Viktor Orbán, uma das vozes mais activas na defesa desta orientação.

 

Proibido dar uma sanduíche

Desde 2015, quando a crise europeia em relação aos refugiados atingiu um dos picos de gravidade, o Vaticano tem manifestado um grande distanciamento em relação a Orbán. Nesse ano, em Budapeste, quem oferecesse uma sanduíche a algum imigrante poderia ser detido pela polícia, como testemunhava um católico húngaro que reside em França e que esteve duas semanas na sua cidade, em Setembro de 2015, a apoiar refugiados e imigrantes que dormiam na gare central.

Na mesma altura, Orbán mandava erguer uma vedação ao longo da fronteira sul da Hungria, de modo a manter afastados do país os requerentes de asilo da UE, como recorda um trabalho da agência Associated Press citado pelo jornal Crux.

 

No ano seguinte, quando confrontado com o muro que o então candidato presidencial Donald Trump defendia para a fronteira entre os EUA e o Mèxico, o Papa dizia que quem constrói muros “não é cristão”.

Orbán, que se apresenta como protestante calvinista e defensor dos “valores europeus e cristãos”, tem identificado os migrantes com o terrorismo e afirmado que eles são alheios à cultura “ocidental e cristã”. Apesar de Orbán se abster se criticar directamente o Papa, vários dos seus próximos não o têm evitado: o Religión Digital recorda o jornalista Zsolt Bayer, amigo do primeiro-ministro e membro do Fidesz, o partido de Orbán, que em 2017 dizia que as afirmações do Papa sobre imigração apenas repetem a “mensagem cretina de políticos de Bruxelas”. E jornais pró-governamentais já apelidaram o Papa de “anti-cristão”.

É de prever que o primeiro-ministro húngaro esteja presente na missa presidida pelo Papa, mas a incerteza gerou um pequeno incidente que obrigou o Vaticano a esclarecer que a missa é apenas um acontecimento espiritual.

 

Ciganos sem luz, água ou gás

Ainda na Hungria, é de notar a diferença de tom do que o Papa diz sobre a homossexualidade e o dever de acolhimento ou proximidade da Igreja em relação aos homossexuais, em contraste com a marginalização a que o Governo húngaro tem votado a comunidade LGBT, com as leis recentemente promulgadas.

Na Eslováquia, a oposição ao Papa não será tão violenta quanto na Hungria, até porque a visita terá sido impulsionada sobretudo pela Presidente Zuzana Caputová, 48 anos, defensora de uma política activa ambientalista. Já o primeiro-ministro, o conservador Eduard Heger, apesar de aliado de Orbán na questão migratória, manifestou a sua satisfação por acolher o Papa, num país onde 62 por cento se identificam como católicos.

O encontro do Papa com a minoria cigana será mais um dos gestos de Francisco no sentido de trazer as “periferias” para o centro. Bairros de lata como no Brasil, prisões como em Itália, campos de refugiados na Grécia ou centros de reabilitação de drogas mereceram já visitas do Papa. Agora, em Košice, a segunda cidade da Eslováquia, a visita ao campo Lunik IX será mais uma etapa das “periferias” de Francisco, num bairro que não tem água corrente, gás ou electricidade.

No encontro com os judeus eslovacos, o Papa argentino escutará o testemunho de um sobrevivente da Shoah, outro ritual em várias ocasiões e viagens já realizadas por Francisco.

 

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