Papa entregou cruz da JMJ a Portugal e pediu que os jovens escolham quem sofre e recusem “febre” consumista

| 23 Nov 2020

O Papa pede escolhas vigorosas aos jovens. O cardeal Tolentino diz que os mais novos “estão entre os mais afectados” pela pandemia, mas que devem ter confiança e ver-se como protagonistas da história. Neste domingo, no Vaticano, jovens panamianos entregaram, a uma delegação portuguesa os símbolos da Jornada Mundial da Juventude.

Missa Papa Cristo-Rei- Entrega dos símbolos da JMJ a Lisboa.

O Papa Francisco durante a homilia: “Hoje, escolher é não se deixar domesticar pela homogeneização.” Foto © Tony Neves

 

O Papa Francisco pediu aos jovens católicos que façam escolhas na sua vida, dedicando-se a quem sofre e rejeitando uma mentalidade consumista e o “pensamento dominante”, que descarta os mais necessitados.

É necessário fazer “escolhas vigorosas, decisivas e eternas”, afirmou o Papa. “Hoje, escolher é não se deixar domesticar pela homogeneização, é não se deixar anestesiar pelos mecanismos do consumo, que desactivam a originalidade, é saber renunciar às aparências e à exibição”, afirmou o Papa Francisco, na homilia da missa do dia de Cristo-rei. No final da celebração, os símbolos da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) foram entregues por jovens panamianos à delegação de jovens portugueses que se deslocou a Roma para o efeito.

“Escolher a vida é lutar contra a mentalidade do usa e deita fora, do tudo e imediatamente, para orientar a existência rumo à meta do céu, rumo aos sonhos de Deus. Escolher a vida é viver, e nós nascemos para viver, não para vegetar”, acrescentou o Papa, retomando alguns temas da mensagem que dirigira, na véspera, aos participantes do encontro A Economia de Francesco que, por sua iniciativa, juntou dois mil jovens de 120 países para debater uma nova organização económica e financeira do mundo, mais justa e ambientalmente sustentável.

 

“Não ficarem parados nas margens da vida”
Missa Papa Cristo-Rei- Entrega dos símbolos da JMJ a Lisboa.

Momento da passagem da cruz da JMJ para os jovens portugueses: o melhor ideal possível são “as obras de misericórdia concretizadas na vida”, disse o patriarca de Lisboa. Foto © Tony Neves

 

“Escolhas banais levam a uma vida banal”, avisou Francisco, sublinhando que “a beleza das opções depende do amor” e dando exemplos: “Se escolhemos roubar, tornamo-nos ladrões; se escolhemos pensar em nós mesmos, tornamo-nos egoístas; se escolhemos odiar, tornamo-nos furiosos; se escolhemos passar horas no telemóvel, tornamo-nos dependentes. Mas, se escolhermos Deus, vamo-nos tornando dia a dia mais amáveis; e, se optarmos por amar, tornamo-nos felizes.”

Francisco perguntou ainda: “Faço alguma coisa por quem tem necessidade, ou pratico o bem somente para as pessoas queridas e os amigos? Ajudo alguém que não me pode restituir? Sou amigo duma pessoa pobre? E muito mais, tantas perguntas que podemos fazer.”

Alertando depois para a “febre de consumir” e a “obsessão pelo divertimento”, afirmou que “amar é principalmente dom, escolha e sacrifício” e que é importante para os jovens terem “grandes sonhos”, de modo a alargar “horizontes” e não ficarem “parados nas margens da vida”.

O Papa comentava deste modo o texto do evangelho lido momentos antes. “As obras de misericórdia são as obras mais belas da vida. Se tens sonhos de verdadeira glória – não da glória passageira do mundo, mas da glória de Deus –, este é o caminho.” E recordaria ainda o exemplo de São Martinho de Tours – cuja festa se assinala a 11 de Novembro – que cortou o seu manto e deu metade ao pobre, suportando o riso de escárnio de alguns à sua volta”.

 

“Combater a cultura dominante do egoísmo”, pede cardeal Tolentino

Na missa, concelebraram com o Papa os cardeais Kevin Farrell, prefeito do Dicastério para os Leigos, Família e Vida, e os portugueses José Tolentino Mendonça, bibliotecário do Vaticano, e Manuel Clemente, patriarca de Lisboa, bem como os bispos auxiliares da diocese da capital, Américo Aguiar e Joaquim Mendes, coordenadores do comité local da JMJ 2023. Em representação do Governo português, o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, participou também na celebração, enquanto o Presidente da República enviou uma mensagem pessoal ao Papa, através da delegação portuguesa.

Três rapazes receberam a cruz das jornadas: Fernando Vieira (Braga), Guilhermino Sarmento (Lisboa) e João Amaral (representando a diocese das Forças Armadas e de Segurança). Duas raparigas receberam o ícone de Nossa Senhora: Tatiana Severino (Porto) e Daniela Calças (Lisboa).

Depois da missa, o patriarca de Lisboa afirmou que os jovens católicos são desafiados a ir “ao encontro dos outros, das necessidades dos outros”, em resposta aos apelos do Papa.

“Foi muito bonito que o Papa, na homilia, tenha pegado nas obras de misericórdia para dizer aos jovens” que o melhor ideal possível são “as obras de misericórdia concretizadas na vida”.

Na véspera, o cardeal Tolentino afirmara que a JMJ de Lisboa tem de ser mais do que um megaevento, devendo antes preocupar-se em levar ao compromisso dos jovens católicos, no sentido de combater a “cultura dominante do egoísmo”, entendendo a vida como “serviço e dedicação” aos outros.

Durante uma conferência realizada na Igreja de Santo António dos Portugueses, no centro de Roma, o cardeal disse que a JMJ é uma “oportunidade extraordinária para acender o Evangelho nos corações”. E é também uma intensa “jornada de evangelização” e um “sinal profético, actualizando no coração dos jovens a consciência de que eles próprios são um sinal”, acrescentou, citado pela Ecclesia.

(No vídeo a seguir, a conferência do cardeal Tolentino)

 

Jovens com futuro incerto, mas protagonistas

Antes, em declarações à Ecclesia e Rádio Renascença, o cardeal bibliotecário da Santa Sé afirmou que, com a pandemia, e “de forma silenciosa, os jovens estão entre os mais afectados, porque olham para o futuro de uma forma muito incerta”. Mas, acrescentou, “é preciso dar confiança aos jovens e dizer-lhes que eles são protagonistas da história”.

“Talvez, para muitos jovens, este tenha sido o primeiro grande golpe nas suas expectativas, na sua esperança, viram como o mundo é instável, como as nossas seguranças são precárias”, disse. “É preciso aprender com isto, mas que tudo o que se sofre nesta hora não impeça os jovens de viver com esperança, de vibrar, de olhar para o depois, construindo um mundo que possa ser uma resposta aos grandes problemas que nos conduziram até aqui.”

A entrega dos símbolos, inicialmente prevista para 26 de abril, Domingo de Ramos, foi adiada para este domingo, por causa da pandemia. Na missa, aliás, o Papa anunciou que, a partir de agora, as celebrações diocesanas da Jornada da Juventude (que intercalam com a jornada mundial) passam a ser no domingo de Cristo-Rei.

A cruz da JMJ, primeiro símbolo da jornada, tem 3,8 metros de altura e foi entregue pelo Papa João Paulo II aos jovens no Domingo de Ramos de 1984. Desde aí, a cruz, feita em madeira, já esteve em quase 90 países dos cinco continentes. Já a réplica do ícone de Nossa Senhora Salus Populi Romani (salvadora do povo romano), muito venerada na capital italiana, retrata a Virgem Maria com o Menino nos braços e foi introduzido como segundo símbolo da JMJ pelo Papa João Paulo II, em 2000.

A JMJ foi anunciada pelo Papa Wojtyla em 1985, depois de um encontro com milhares de jovens, em Roma, a pretexto do Ano Internacional da Juventude instituído pela ONU. A primeira edição da JMJ realizou-se em Roma, em 1986. Sucessivamente, a edição mundial decorreu em Buenos Aires (1987), Santiago de Compostela (Espanha, 1989), Czestochowa (Polónia, 1991), Denver (EUA, 1993), Manila (Filipinas, 1995), Paris (França, 1997), Roma (Itália, 2000), Toronto (Canadá, 2002), Colónia (Alemanha, 2005), Sidney (Austrália, 2008), Madrid (Espanha, 2011), Rio de Janeiro (Brasil, 2013), Cracóvia (Polónia, 2016) e Cidade do Panamá (Panamá, 2019).

O anúncio oficial de que Lisboa seria a cidade escolhida para a nova edição (inicialmente prevista para 2022) foi feito a 27 de Janeiro de 2019, no final da JMJ do Panamá. Dois meses antes, a notícia tinha sido antecipada no Religionline, antecessor do 7MARGENS.

Missa Papa Cristo-Rei- Entrega dos símbolos da JMJ a Lisboa.

“Foto de família” da delegação portuguesa, no final da missa com o Papa. Foto © Tony Neves

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