Papa escreve aos católicos alemães a incentivar o caminho sinodal

| 3 Jul 19 | Cristianismo - Homepage, Igreja Católica, Newsletter, Últimas

 

Capela da Reconciliação, em Berlim, da autoria dos arquitectos Rudolf Reitermann e Peter Sassenroth, construída no local onde já passou o Muro que dividiu a cidade em dois: o Papa quer uma mudança que traduza um caminho espiritual. Foto © António Marujo

 

Numa carta dirigida “ao povo de Deus peregrino na Alemanha”, o Papa Francisco intervém na actual procura de reformas pastorais no conjunto da Igreja alemã (ao nível da Conferência Episcopal) e na maioria das suas dioceses.

Em março último, na sua assembleia plenária, os bispos alemães comprometeram-se a iniciar um processo sinodal aberto a todos, com um programa que prevê a reflexão de questões como o exercício do poder na Igreja, a moral sexual, a forma de vida dos padres e a questão da ordenação das mulheres (este último ponto não consta da agenda oficial do processo sinodal por ser o mais controverso) e encaminhar as necessárias reformas e mudanças.

A carta de 19 páginas, publicada a 29 de junho, o Papa exprimiu o seu interesse em partilhar as preocupações dos bispos “com o futuro da Igreja na Alemanha”. As mudanças do nosso tempo levantam à Igreja questões que têm de ser reflectidas, diz: “Essa reflexão tem sentido e é urgente.”

O texto não ousa nomear concretamente nenhum dos temas que a hierarquia católica alemã se propõe debater neste processo sinodal. Nas entrelinhas podem ler-se duas claras advertências: que não se fique só pelas estruturas, mas que seja um caminho espiritual. “A erosão e o decrescimento da fé” não se resolvem com meras reformas nas estruturas mas sim com a evangelização e a confiança no Espírito Santo. “Uma primeira e a maior das tentações em meios eclesiais é crer que a solução dos problemas actuais e futuros se consegue só pela via das reformas das estruturas, da organização, da administração”, escreve Francisco. E, em vez de “reforma”, a carta do Papa prefere a expressão “conversão pastoral”.

A segunda advertência do texto é que a Igreja alemã não esqueça que é parte da igreja universal, que “o todo é mais do que a parte e do que a soma das suas partes”. Por isso, acrescenta, “não se pode ficar agarrados a questões que dizem apenas respeito a uma situação especial e local mas tem de ser alargar o horizonte”. Trata-se de um desejo claro de que a Igreja alemã, neste processo sinodal que se vai iniciar em setembro não avance com propostas que o Vaticano teria dificuldade em aceitar,  em nome da Igreja universal. Reformas sim, mas no contexto da Igreja universal.

Não fazendo alusão concreta a nenhum dos temas específicos da agenda sinodal, a carta dá necessariamente lugar a interpretações contraditórias. Vão nessa linha os comentários dos principais representantes da opinião pública. É uma carta “enigmática”, comenta o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung. E o Süddeutsche Zeitungescreve na sua edição de segunda-feira, dia 1: “‘Roma falou, o tema está encerrado’, costuma dizer-se. A carta que o Papa escreveu aos católicos alemães é o inverso: Roma falou, agora pode discutir-se sobre o que Francisco queria dizer”.

Os sectores conservadores defendem que o processo sinodal não pode continuar nos moldes previstos uma vez que os temas da sua agenda seriam tipicamente alemães e não da igreja universal.

A maioria dos bispos, pelo menos daqueles que até agora se manifestaram, não escondeu o seu sentimento de alívio ao verificar que a carta do Papa não manda parar o processo sinodal. Manifestam compreensão para com as preocupações pela unidade da Igreja mas sublinham o facto de que o Papa reconheça, nesta carta, a necessidade de reflexão necessária ao discernimento dos sinais dos tempos, no seguimento do Concílio Vaticano II. “O Papa Francisco quer dar o seu apoio à Igreja na Alemanha na sua procura de respostas às questões que a todos nos movem por uma reforma da Igreja que a torne capaz de ter um futuro”, afirmam, em declaração conjunta, o cardeal ReinhardMarx, presidente da Conferência Episcopal e Thomas Sternberg, presidente do Comité Central dos Católicos Alemães.

Mais como travão ou mais como apoio, certo é que esta carta mostra que o Papa segue com muita atenção os temas e os debates em curso na Igreja alemã.

Artigos relacionados

“No tempo dividido” – Mistagogia da temporalidade na poesia de Sophia

“No tempo dividido” – Mistagogia da temporalidade na poesia de Sophia

Sophia chegou cedo. Tinha dez ou onze anos quando li O Cavaleiro da Dinamarca, cuja primeira edição data de 1964. É difícil explicar o que nos ensina cada livro que lemos. Se fechar os olhos, passados mais de 30 anos, recordo ainda que ali aprendi a condição de pe-regrino, uma qualquer deriva que não só nos conduz de Jerusalém a Veneza, como – mais profundamente – nos possibilita uma iniciação ao testemunho mudo das pedras de uma e às águas trémulas dos canais da outra, onde se refletem as leves colunas dos palácios cor-de-rosa.

Apoie o 7 Margens

Breves

Papa Francisco anuncia viagem ao Sudão do Sul em 2020 novidade

“Com a memória ainda viva do retiro espiritual para as autoridades do país, realizado no Vaticano em abril passado, desejo renovar o meu convite a todos os atores do processo político nacional para que procurem o que une e superem o que divide, em espírito de verdadeira fraternidade”, declarou o Papa Francisco, anunciando deste modo uma viagem ao Sudão do Sul no próximo ano.

Missionários constroem casa para cuidar e educar as vítimas do terramoto no Nepal

Mais de 400 crianças órfãs, pobres e com debilidades físicas vítimas do terramoto de 2015 no Nepal, residem hoje na casa de crianças Antyodaya em Parsa (centro do país). A casa, que foi construída em 13 de maio de 2017, tem o propósito “de alcançar as crianças mais desafortunadas das aldeias mais remotas, oferecendo-lhes educação e desenvolvimento pessoal”.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Entre margens

Manuela Silva e Sophia novidade

Há coincidências de datas cuja ocorrência nos perturbam e nos sacodem o dia-a-dia do nosso viver. Foram assim os passados dias 6 e 7 do corrente mês de Novembro. A 6 celebrou-se o centenário do nascimento de Sophia e a 7 completava-se um mês sobre a partida para Deus da Manuela Silva.

“Unicamente o vento…”

Teimosamente. A obra de Sophia ecoa. Como o vento. Como o mar. Porque “o poeta escreve para salvar a vida”. Aquela que foi. Que é. A vida num ápice. Luminosa e frágil. Do nascente ao ocaso. Para lá do poente. Celeste. Na “respiração das coisas”. No imprevisível ou na impermanência. A saborear o que tem. A usufruir do que teve. Na dor e na alegria.

Cultura e artes

Trazer Sophia para o espanto da luz

Concretizar a possibilidade de uma perspectiva não necessariamente ortodoxa sobre os “lugares da interrogação de Deus” na poesia, na arte e na literatura é a ideia principal do colóquio internacional Trazida ao Espanto da Luz, que decorre esta sexta e sábado, 8 e 9 de Novembro, no polo do Porto da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

As mulheres grávidas e o olhar feminino sobre a crise dos refugiados

Uma nova luz sobre a história dos refugiados que chegam à Europa, evitando retratá-los como “heróis ou invasores”. Francesca Trianni, realizadora do documentário Paradise Without People (Paraíso sem pessoas, em Inglês), diz que o propósito do seu filme, a exibir nesta quinta-feira, 31 de outubro, em Lisboa, era mostrar a crise dos refugiados do ponto de vista feminino.

Sete Partidas

Visto e Ouvido

Agenda

Parceiros

Fale connosco