
“Estou convosco”, afirma o Papa na carta publicada esta segunda-feira, 2 de dezembro. Foto © Vatican Media
O Papa escreveu uma carta pastoral aos católicos da Nicarágua, encorajando-os a permanecerem firmes na sua confiança em Deus, apesar dos desafios que enfrentam. Sem nunca se referir declaradamente à crescente perseguição religiosa de que a Igreja tem sido alvo por parte do regime ditatorial de Daniel Ortega, Francisco manifesta a sua proximidade e assegura: “a fé e a esperança fazem milagres”.
“Estou convosco”, afirma o Papa na carta publicada esta segunda-feira, 2 de dezembro, animando os fiéis a confiarem na Providência de Deus, “único guia seguro”, sobretudo nos momentos mais difíceis, quando humanamente “se torna impossível compreender o que Deus quer de nós”. Nestas circunstâncias, recorda, “somos chamados a não duvidar do seu cuidado e da sua misericórdia”.
Francisco enfatiza ainda que a confiança em Deus e a fidelidade à Igreja são “dois grandes faróis” que iluminam as vidas dos fiéis e convida-os a olhar para a figura de Maria, referindo-se a uma expressão popular muito usada pelos nicaraguenses na sua tradicional celebração de La Gritería (festa em honra da Imaculada Conceição, que acontece no dia antes daquela solenidade, a 7 de dezembro): “¿Quién causa tanta alegría? ¡La Concepción de María!“.
O Papa expressa a sua esperança de que esta celebração seja uma fonte de alento “nas dificuldades, incertezas e privações” e exorta os fiéis abandonarem-se nos braços de Jesus com a oração “Deus primeiro”, que tantas vezes é repetida na Nicarágua. Lembra ainda que, no coração de cada um, está a “liberdade das filhas e dos filhos de Deus”, que “ninguém pode tirar”.
“Quero transmitir-vos a minha proximidade e a certeza de que rezamos incessantemente à Virgem Santa para que vos console e acompanhe, confirmando-vos na fé. Quero dizer com força, a Mãe de Deus não para de interceder por vós, e nós não deixamos de pedir a Jesus que vos traga sempre pela mão”, escreve ainda o Papa naquela que é a sua primeira carta pastoral ao povo da Nicarágua.
Uma voz que se soma a muitas mais

Manifestação contra o regime ditatorial em Masaya, Nicarágua. Foto © Jorge Mejía peralta, via Wikimedia Commons
A missiva de Francisco chega uma semana depois de a Assembleia Nacional da Nicarágua ter aprovado uma profunda remodelação da Constituição do país, que reforça o poder presidencial e restringe os direitos dos cidadãos e das organizações da sociedade civil, com consequências consideradas nefastas para as confissões cristãs [ver 7MARGENS].
Um dos novos artigos do projeto de Constituição refere que “nenhuma pessoa ou organização pode, sob a capa de uma religião, atentar contra a ordem pública”, e que “as organizações religiosas devem manter-se livres de qualquer controlo estrangeiro”, o que é visto como especialmente dirigido às denominações cristãs, em especial à Igreja Católica.
Também na última semana, os bispos do Panamá, Costa Rica, Honduras, El Salvador e Guatemala, reunidos no quadro do Secretariado Episcopal da América Central (SEDAC) decidiram convocar “um dia de oração pela difícil situação política e social” que o país vizinho enfrenta.
A data escolhida para concretizar a iniciativa é o dia 8 de dezembro, festa da Imaculada Conceição de Maria, e o objetivo é que em todas as dioceses e paróquias da América Central se expresse a “profunda solidariedade e comunhão com o povo de Deus na Nicarágua, que, muitas vezes, enfrenta uma realidade desafiadora”.
A crescente opressão contra a Igreja na Nicarágua levou igualmente a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre a incluir aquele país, pela primeira vez em 18 anos, no relatório Perseguidos e esquecidos?, apresentado em Portugal no passado dia 20 de novembro.
O documento descreve inúmeras situações de perseguição religiosa que o 7MARGENS tem vindo a noticiar. “O regime de Ortega-Murillo anulou o estatuto jurídico de inúmeras instituições ligadas à Igreja e comunidades religiosas, e confiscou os seus bens. Além disso, encerrou os meios de comunicação católicos e proibiu as celebrações religiosas em espaços públicos. O presidente Ortega chegou mesmo a atacar verbalmente a Igreja Católica durante um discurso público”, pode ler-se.
Lembrando o caso do bispo Rolando Álvarez, de Matagalpa, que foi condenado – sem julgamento – a 26 anos de prisão e destituído da cidadania pelas suas críticas ao Governo, e se encontra atualmente exilado no Vaticano, o relatório assinala que “a vigilância das paróquias católicas está a aumentar” e que “agentes do Governo assediam e intimidam regularmente o clero e os fiéis”, sendo que “os membros da Igreja que defendem publicamente os direitos humanos ou criticam o Governo podem enfrentar ameaças, violência física e detenção”.









