Papa fala de unidade, ortodoxos cortam relações entre si

| 5 Dez 18 | Diálogo ecuménico e inter-religioso, Igrejas Cristãs

Foto: RSE

O Papa Francisco escreveu ao patriarca Bartolomeu, da Igreja Ortodoxa, manifestando a ideia de que a “caminhada conjunta dos últimos cinquenta anos “ permite já “experimentar estar em comunhão, embora esta ainda não seja plena e completa”. Esse trabalho “rumo à comunhão plena deve continuar”, acrescenta o Papa, para que os cristãos possam responder às necessidades de “tantos homens e mulheres do nosso tempo, sobretudo os que sofrem de pobreza, fome, doença e guerra”.

A carta seguiu para o Fanar, a residência do primaz ortodoxo, na passada sexta-feira, 30 de Novembro, dia da festividade de Santo André, que é o patrono da Constantinopla cristã. Francisco e Bartolomeu já se encontraram várias vezes, tal como os seus antecessores, desde 1964, quando o patriarca Atenágoras e o Papa Paulo VI puseram fim a nove séculos de excomunhão mútua.

“Ambas as Igrejas, com um sentido de responsabilidade para com o mundo, sentiram o apelo urgente que leva cada um de nós, que foi baptizado, a proclamar o Evangelho a todos os homens e mulheres”, escreve ainda o Papa. Por essa razão, católicos e ortodoxos podem “trabalhar hoje em busca da paz entre os povos, pela abolição de todas as formas de escravatura, pelo respeito e dignidade de cada ser humano e pelo cuidado com a criação”. (texto integral aqui, em castelhano)

Apesar da reafirmação do desejo de unidade, esta mensagem surge num contexto em que Constantinopla e o patriarcado (também ortodoxo) de Moscovo estão de relações cortadas, depois de um acumular de tensões nos últimos anos e, sobretudo, nos meses mais recentes. Em causa, está o facto de o patriarca Bartolomeu ter reconhecido a autonomia da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, até agora dependente do patriarcado de Moscovo. 

O problema é que, às razões e tensões religiosas juntam-se as divergências políticas: Moscovo e Kiev estão em guerra aberta no leste da Ucrânia, depois da anexação da Crimeia pela Rússia. E ambas as lideranças políticas apoiam a respectiva Igreja nacional na argumentação que é utilizada por ambos. 

Maldições e intromissões políticas

A zanga entre Moscovo e Constantinopla passou já por afirmações de maldição, orações que se deixaram de fazer e intromissões políticas, culminando com o corte de relações desde Outubro. Antes dele, os ortodoxos russos tinham deixado de rezar pelo patriarca Bartolomeu, de Constantinopla – que tem a primazia de honra na ortodoxia –, e este acusara o metropolita Hilarion Alfeyev (número dois e “ministro” dos estrangeiros do patriarcado russo) de ter mentido no processo. 

No final de Agosto deste ano, Bartolomeu e o patriarca Cirilo, da Rússia, encontraram-se, mas o conteúdo da conversa só foi conhecido no início de Outubro. O diálogo apenas terá agravado a situação. Em causa, a presença ortodoxa na Ucrânia. “Os ucranianos não se sentem cómodos sob o controlo da Rússia e querem liberdade eclesiástica plena, da mesma forma que têm a independência política”, terá dito o patriarca Bartolomeu a Cirilo, segundo o ReligionDigital, citando o Orthodoxia.info. O que levou os ucranianos, em sínodo, a pedir a Constantinopla (a única Igreja com jurisdição e poder para tal) a sua autonomização. A decisão do sínodo é “irreversível”, defendeu o patriarca Bartolomeu. 

O patriarca Cirilo argumenta, no entanto, que a ideia da autonomia de “uma nação ucraniana separada” foi “desenvolvida no século XIX pelos ‘uniatas’”, os católicos de rito litúrgico ortodoxo. Estes queriam, na altura, “expandir-se no território e separar-se do czar”, acrescentava Cirilo. 

A Ucrânia mantém uma guerra adormecida com a Rússia, depois da invasão da Crimeia e do leste do país por forças russas ou apoiadas por Moscovo – há dias, registou-se um novo e grave episódio no conflito. O que leva Cirilo a argumentar, usando os mesmos argumentos do governo do seu país, que a liderança ucraniana “tomou o poder com um golpe de estado”. Agora, as autoridades ucranianas querem também a autocefalia da Igreja, “para fortalecer a sua autoridade, já que têm o poder de forma ilegítima”, dizem os ortodoxos russos. Mas, defende Cirilo, “o povo está quase a derrubá-los e desalojá-los e, por isso, procuram o apoio e o prestígio do Patriarcado Ecuménico”.

Um comunicado dos hierarcas russos na diáspora, divulgado no sítio do patriarcado de Moscovo na internet, repete os argumentos do patriarca, condenando o envio de eclesiásticos de Constantinopla para a Ucrânia, “sem o consentimento e permissão” de Cirilo. Uma “incursão sem precedentes de uma Igreja local num território canónico distante, que tem a sua própria Igreja local”, e que “ameaça a unidade da Santa Ortodoxia”, acusavam. Diga-se que, na ortodoxia, uma Igreja local coincide normalmente com as fronteiras de um país. 

Mentiras e interferências 

Bartolomeu, no entanto, considera-se vítima de mentiras: o metropolita Hilarion Alfeyev, que esteve em Lisboa em Setembro passado, dizia, em entrevista à Renascença, que Bartolomeu está sujeito a interferências dos Estados Unidos

E, antes disso, terá acusado o patriarca ecuménico de receber subornos de ucranianos “cismáticos”, nomeadamente do Presidente ucraniano, Petro Poroshenko, de acordo com as fontes citadas. 

“Pergunto-lhe directamente: pode provar isso?”, questionou o patriarca de Constantinopla a Hilarion, também presente na reunião com Cirilo, a 31 de Agosto. “Se não pode, está cometendo uma injustiça com a Igreja-mãe e, consequentemente, será amaldiçoado por ela.” Enganar os outros “por meio de mentiras, não tem perdão”, acrescentou, dizendo ainda não ser a primeira vez que Hilarion tem comportamentos do género. 

O encontro resultou no rompimento prático das relações do patriarcado russo com Constantinopla e o fim das orações por Bartolomeu, nas liturgias da Igreja russa. O corte de relações deu-se já durante o mês de Outubro. 

A agravar a questão, Moscovo – designada como “a terceira Roma”, depois da sede do papado e de Constantinopla – pode olhar com desdém o papel do patriarcado de Constantinopla, reduzido a poucos milhares de crentes e encravado numa Turquia esmagadoramente muçulmana e sem liberdade política. 

Na Rússia, ao contrário, os números do patriarcado (se verdadeiros), traduzem um crescimento exponencial: desde 1988, o número de paróquias passou de seis mil para 36 mil e os mosteiros, de 21 para quase 1000; abrem ao culto três novas igrejas por dia – ou seja, 1100 por ano. O que faz o patriarcado russo ambicionar o papel de primazia da ortodoxia, em detrimento de Constantinopla. 

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