Papa fala dos uigures como povo “perseguido” e provoca polémica com a China

| 25 Nov 2020

Defesa do rendimento básico universal, papel das mulheres na Igreja, sínodo sobre a Amazónia, oposição ao aborto e protecção do ambiente como equivalentes. Estas são algumas das ideias do Papa e temas abordados no novo livro de conversas com o jornalista Austen Ivereigh. Que, poucos dias antes de ser publicado, já fez uma primeira polémica com a China.  

uigures, China, Foto_ © Xinjiang Bureau of Justice WeChat Account

Uma imagem divulgada nas redes sociais do governo chinês mostra centenas de uigures detidos num campo de educação política em Xinjiang. Foto: © Xinjiang Bureau of Justice, através da HRW.

 

Ainda não foi publicado e já provoca polémica entre o Governo da República Popular da China e o Papa Francisco. O livro Let Us Dream: The Path to A Better Future, do jornalista inglês Austen Ivereigh “em conversa com o Papa”, como diz o subtítulo, sairá na próxima semana em vários países (e em Janeiro em Portugal, com o título Sonhemos Juntos) mas a antecipação de algumas das afirmações nele contidas já levou a China a reagir a uma delas.

No livro, adianta a CNN em espanhol, o Papa refere a minoria uigur, da China, pela primeira vez, entre vários povos perseguidos do mundo. É a primeira vez que Francisco fala sobra as acusações de violações generalizadas dos direitos humanos na região de Xinjiang.

“Penso frequentemente nos povos perseguidos: os rohingya [muçulmanos da Tailândia], os pobres uigures, os yazidi [creistãos do Iraque] – o que ISIS lhes fez foi realmente cruel – ou os cristãos no Egipto e no Paquistão mortos por bombas que explodiram enquanto rezavam na igreja”, diz o Papa, citado pela mesma fonte.

Várias informações de meios de comunicação ocidentais e documentos do Departamento de Estado dos EUA dizem que até dois milhões de uigures, na sua maioria muçulmanos, e outros grupos minoritários, foram levados para enormes centros de detenção na região de Xinjiang, no extremo oeste da China. Muitos antigos detidos testemunharam que foram sujeitos a doutrinação, abuso físico e esterilização, como o 7MARGENS também já referiu.

 

Governo chinês diz que liberdade de crença é protegida por lei

O Papa no Vaticano, junto a peregrinos chineses: Pequim diz que a afirmação de Francisco é “totalmente infundada”. Foto: Direitos reservados. 

 

Reagindo às notícias sobre o livro e ao comentário do Papa, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Zhao Lijian, disse que a inclusão do Papa numa lista de povos perseguidos é “totalmente infundada”.

“Há 56 grupos étnicos na China e o grupo étnico uigur é um membro da grande família da nação chinesa. O governo chinês sempre tratou (todos) os grupos minoritários da mesma forma e protegeu os seus legítimos direitos e interesses”, afirmou o responsável, citado no Global Times.

O Governo de Pequim tem argumentado que os campos são centros de formação profissional construídos para lidar com a ameaça do extremismo religioso e nega as acusações de violações dos direitos humanos.

Há um mês, o Vaticano e a China anunciaram a prorrogação, por mais dois anos, do acordo provisório sobre nomeação de bispos, contestado pela ainda vigente Administração dos EUA e cuja assinatura era vista como sendo um obstáculo a que o Papa falasse de questões como a liberdade em Hong Kong ou os uigures.

Na sua conferência de imprensa de imprensa diária, o porta-voz do Governo chinês disse que a província de Xinjiang está no melhor momento da sua história, e que pessoas de todos os grupos étnicos gozam dos direitos à vida e ao desenvolvimento. A liberdade de crença religiosa é garantida por lei, acrescentou, uma afirmação que é contestada por muitos testemunhos no terreno e por diversas organizações de defesa dos direitos humanos.

 

Pontificado de cinco anos, depois sete, depois a pandemia trocou as voltas…
Missa Papa Cristo-Rei- Entrega dos símbolos da JMJ a Lisboa.

O Papa na missa de domingo passado, em Roma: pela sua previsão inicial, nesta altura já não estaria no cargo. Foto © Tony Neves.

 

No livro, há outras novidades ou argumentos em que o Papa insiste: quando foi eleito, Francisco pensava ficar cinco anos no cargo; depois, prolongou os planos para sete. A pandemia alterou tudo mas deu-lhe energia, diz o jornalista entrevistador.

A conversa analisa o modo como o coronavírus abalou o mundo contemporâneo mas também como o Papa considera que ela pode ser uma oportunidade para transformar a sociedade. “O Papa é o director espiritual deste mundo em crise. Agora, mais do que nunca, ele acompanha a humanidade para apontar os obstáculos e as tentações e para a ajudar a abrir-se a Deus”, comentou Ivereigh, citado pela revista espanhola Vida Nueva.

Num encontro por vídeo, nesta segunda-feira, 23, durante o qual apresentou o livro, Ivereigh disse que o livro complementa a leitura da encíclica Fratelli Tutti, publicada em Outubro passado. “O livro pode ser visto como um comentário pessoal do Papa sobre a encíclica. Havia coisas nesse texto que ele agora desenvolve em profundidade, tais como as críticas ao populismo e ao individualismo tecnológico.”

Também a questão do papel de liderança das mulheres na Igreja merece comentários do Papa, que defende as nomeações de várias mulheres por ele feitas para cargos no Vaticano. Francisco acrescenta que elas não precisam de ser padres para serem líderes na Igreja e que “dizer que não são verdadeiros líderes porque não são padres é clericalista e desrespeitoso”, acrescenta o National Catholic Reporter.

A sua estratégia, diz, é tentar “criar espaços onde as mulheres possam liderar, mas de formas que lhes permitam moldar a cultura, assegurando que sejam valorizadas, respeitadas e reconhecidas”. No caso das escolhas de mulheres que fez para cargos na Santa Sé, ele pretendia que as nomeadas “possam influenciar o Vaticano, preservando ao mesmo tempo a sua independência”. E acrescenta: “A mudança da cultura institucional é um processo orgânico que exige a integração, sem clericalizar, dos pontos de vista das mulheres.”

Em países em que as líderes são mulheres, elas “reagiram melhor e mais rapidamente do que outros” à pandemia, “tomando decisões rapidamente e comunicando-as com empatia”, acrescenta.

 

Pensar o mundo pós-covid a partir dos não-cidadãos
carta aberta organizacoes covid-19

No livro, Francisco defende que o mundo pós-covid deve ser pensado apartir das pessoas mais frágeis. Foto © Maysa NYC/Flickr

 

Na conversa, Francisco aborda os protestos desencadeados pelo assassinato de George Floyd, reitera as suas críticas ao sistema capitalista de mercado, e manifesta ainda o seu apoio às propostas de que as pessoas recebam um rendimento básico universal para prover a necessidades básicas como alimentação e habitação.

“Reconhecer o valor para a sociedade do trabalho dos não-cidadãos é uma parte vital do nosso repensar no mundo pós-covid”, afirma. “É por isso que acredito que é tempo de explorar conceitos como o rendimento básico universal”.

Ao falar sobre o modo como alguns católicos continuam a criticar as reformas do Concílio Vaticano II (1962-65), o Papa diz que algumas pessoas demonstram uma “consciência isolada” e permanecem “reunidas no ‘seu’ grupo de puristas, [como] guardiãs da verdade”, mas manifestando apenas “obsessões de pequenos grupos”.

Ivereigh, autor de duas biografias do Papa – Francisco, o Grande Reformador e O Pastor Ferido, esta última publicada em Portugal há um mês (ambas na ed. Vogais) – diz que o novo livro não tem o formato tradicional de pergunta/resposta para que a narrativa fosse mais natural para o leitor. Mais de metade dos direitos de autor serão destinados a apoiar os afectados pela crise da covid-19, através de um fundo administrado pelo Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, do Vaticano.

Acerca do Sínodo sobre a Amazónia, do ano passado, afirma Francisco: “Muitos ficaram desapontados ou aliviados porque ‘o Papa não abriu aquela porta’. Foi como se ninguém estivesse interessado nos dramas ecológicos, culturais, sociais e pastorais da região; o sínodo tinha ‘falhado’ porque não autorizou a ordenação dos viri probati“, homens casados de maturidade comprovada.

Numa outra afirmação, Francisco diz que considera incompatível ser a favor do aborto, da pena de morte ou da eutanásia e, ao mesmo tempo, defender o ambiente: não são “problemas de uma ordem moral diferente”, mas estão na mesma categoria, defende.

Referindo-se a algumas questões pessoais, o Papa diz que a sua experiência de lhe ter tido removida parte de um pulmão na sequência de uma grave pneumonia, em 1957, lhe deu “alguma sensação de como as pessoas com coronavírus se sentem enquanto lutam para respirar nos ventiladores”. E acrescenta que tinha pensado terminar a sua tese sobre Romano Guardini, padre, teólogo e pensador alemão do século XX. A meta era 2012, quando fez 75 anos e pediu a sua demissão como arcebispo de Buenos Aires ao Papa Bento XVI. “Mas em Março de 2013 fui transferido para outra diocese”, diz, com ironia.

 

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