Francisco no Chipre e Grécia

Papa faz viagem escaldante e talvez leve afegãos para Roma

| 2 Dez 21

“A Europa não pode ignorar o Mediterrâneo”, diz o Papa, que inicia nesta quinta-feira uma viagem para recordar a convivência inter-religiosa que Chipre já viveu e a osmose entre o pensamento grego e o cristianismo. Mas Francisco atravessará terreno escaldante, tensões políticas e tragédias humanitárias ao rubro: a última capital do mundo partida ao meio, Grécia e Turquia zangadas, refugiados, migrações, diálogo com os ortodoxos, convivência com os muçulmanos…

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O Papa Francisco e o patriarca ortodoxo Bartolomeu com refugiados, em Lesbos, em Abril de 2016. Foto: Direitos reservados.

 

O Papa Francisco pode regressar na próxima segunda-feira, 6, da sua viagem ao Chipre e à Grécia na companhia de vários refugiados. Se isso acontecer, será uma repetição do que aconteceu em 2016, quando ele esteve na ilha grega de Lesbos e levou consigo, para Roma, doze pessoas de três famílias de refugiados sírios.

A hipótese foi admitida terça, dia 30 de Novembro, pelo porta-voz da Santa Sé, Matteo Bruni. Essa era uma “opção que está a ser estudada”, disse, mesmo acrescentando que as circunstâncias são diferentes das de há cinco anos.

Durantes estes quatro dias no extremo sudeste da Europa, a agenda do Papa prevê dois encontros com migrantes (Nicósia, capital do Chipre, na sexta, 3) e refugiados (ilha de Lesbos, Grécia, no domingo). Francisco aterra em Larnaca (Chipre) à uma da tarde (hora de Lisboa), viaja para Atenas no sábado às 8h30 e estará em Lesbos no domingo, também às 8h30 da manhã. Vários momentos do programa serão transmitidos pelos canais vídeo do Vaticano.

O próprio Francisco avisou, na mensagem de vídeo que enviou aos dois povos, como já se tornou habitual antes das suas viagens (esta é a 35ª fora de Itália): “A Europa não pode ignorar o Mediterrâneo”. Falando da visita como uma peregrinação às fontes do cristianismo, da fraternidade e da humanidade, o Papa lamentou: “Hoje o nosso mar, o Mediterrâneo, é um grande cemitério. Como peregrino às fontes da humanidade, irei a Lesbos outra vez, convicto de que as fontes do viver em comum só florescerão de novo na fraternidade e integração: juntos. Não existe outra forma e irei até vós com esta visão.”

(Vídeo falado no original italiano

O tema das migrações e dos refugiados será, assim, dominante nestes dias. Se ainda é só uma possibilidade que Francisco repita em Lesbos o gesto de há cinco anos e meio, é já seguro que meia centena de refugiados que estão em Chipre viajem para Roma em meados de Dezembro – uma decisão ao abrigo de um acordo entre o Vaticano, Chipre e Itália, recorda o La Croix, e que será concretizada pela Comunidade de Sant’Egidio. O mesmo grupo católico já ajudou a acolher em Itália 200 refugiados que estavam em Chipre ou Grécia à espera de uma análise aos seus pedidos de asilo ou migração.

“É uma forma de dizer a toda a Europa que deve mostrar solidariedade e não deixar que os países pequenos façam todo o trabalho”, diz um diplomata não identificado, citado pelo jornal francês. Não é para menos: como recorda a mesma fonte, Chipre foi deixado de lado pelos traficantes nas primeiras vagas de refugiados, mas tem-se visto a braços, nos últimos tempos, com um aumento do seu número: são agora cerca de quatro por cento numa população estimada em 1,2 milhões de habitantes (mais de metade dos quais na parte grega da ilha, cujo norte está ocupado pela Turquia). Mas a viagem surge também num momento em que a Europa se fecha cada vez mais na sua fortaleza: no “cemitério” do Mediterrâneo, no muro grego ou no dinheiro dado à Turquia para servir de tampão, no muro da Polónia com a Bielorússia ou no jogo do empurra no Canal da Mancha, entre França e Reino Unido.

“Chipre recebe actualmente mais requerentes de asilo per capita do que qualquer outro país da Europa”, diz entretanto Elizabeth Kassinis, da Cáritas Chipre, citada pelo National Catholic Reporter (NCR), dos Estados Unidos. “É difícil de acreditar, porque é um lugar tão pequeno que está meio escondido no canto sudeste da Europa”, acrescenta. E cita números: os dez funcionários da Cáritas acolhem entre 300 a 400 refugiados por dia, quando antes da pandemia eram 100 a 150.

 

Afegãos no voo papal?
Papa viagem lampedusa sauda migrantes, Foto Vatican News sem creditos

Francisco a saudar migrantes na sua viagem a Lampedusa, quando falou na “globalização da indiferença” Foto © Vatican News.

 

O Papa prometera que regressaria a Lesbos – numa rara repetição de visita a um mesmo local –, mas o que ele irá encontrar é também diferente do que se vivia em 2016. Em Setembro de 2020, um incêndio destruiu o campo de Moria, onde Francisco esteve, e que albergava cerca de 12 mil refugiados. Agora, há uns quatro mil requerentes de asilo alojados no campo de Mavrovouni. Cerca de 60% deles são afegãos, ao contrário do que acontecia em 2016, quando a maioria era síria – o que significa que pode haver afegãos, desta vez, a apanhar boleia no voo papal.

O NCR observa que duas pequenas ilhas – Lampedusa e Lesbos – foram já cenário de duas “grandes declarações” do Papa. Em Lampedusa, em Julho de 2013, Francisco inaugurou as viagens fora de Roma, falando contra a “globalização da indiferença” a propósito da crise europeia de recusa dos refugiados; e em Abril de 2016, em Lesbos, levou para Roma as três famílias sírias.

“Eu diria que o Papa Francisco é o herói da ‘opção preferencial pelo migrante’, tal como o Papa João Paulo II falou sobre a ‘opção preferencial pelos pobres’”, diz o padre ortodoxo Nicolas Kazarian à publicação católica dos EUA.

Director das relações ecuménicas e inter-religiosas da Arquidiocese Grega Ortodoxa dos Estados Unidos, Kazarian considera que a mensagem do Papa ajuda a contrariar vozes que não podem chegar ao céu: “Muitas vozes populistas em toda a Europa estão a usar esta questão para fazer avançar as suas agendas. Como países do Mediterrâneo oriental, Chipre e Grécia estão na vanguarda” da questão das migrações.

Como cristãos, acrescenta Kazarian ao NCR, católicos e ortodoxos estão “ligados por um ethos de solidariedade fundamentado na mensagem do Evangelho”. Por isso, os gestos de Francisco mergulham num mesmo “testemunho comum” e a defesa dos migrantes tem constituído uma oportunidade de aproximação e trabalho conjunto entre católicos e ortodoxos, naqueles dois países em concreto.

Em Lesbos, o Papa esteve acompanhado do Patriarca Bartolomeu, de Constantinopla, e do arcebispo Ieronymos, de Atenas. Agora, em Chipre e em Lesbos, terá de novo responsáveis ortodoxos ao seu lado.

 

A “linha verde” que é um muro

Francisco repetirá, em palavras e gestos, a sua oposição à edificação de muros contra refugiados, também aqui com recados bem concretos: em Agosto, a Grécia concluiu a construção de um muro de 40 quilómetros para impedir a entrada de refugiados na Europa, decidido pelo Governo da Nova Democracia (direita). Mas as rotas de entrada diversificam-se, como mostra a crise na fronteira da Bielorrússia com a Polónia.

Haverá ainda outro muro que Francisco terá diante de si nesta viagem: o que divide a capital cipriota desde que, em 1974, a Turquia invadiu a ilha. Os seus apelos também repetidos a “construir pontes, não muros”, terão aqui um cenário explícito – Nicosia é a última capital do mundo dividida ao meio. E a casa onde reside o representante do Vaticano situa-se próximo da “linha verde”, que divide Chipre em duas metades, com muros e arame farpado.

No La Croix, uma fonte diplomática não identificada diz que a reunificação é o grande desejo de todos, mas o Papa não se deve referir à questão estritamente política nem atravessar a “linha verde” (não está previsto no programa e não deve haver surpresas de última hora). E um responsável do Vaticano diz ao mesmo jornal: “Apoiamos a reunificação da ilha, mas ela parece estar mais longe do que nunca.”

Situado no cruzamento entre a Europa, Médio Oriente e Norte de África, Chipre conseguiu manter a convivência entre diferentes credos, mesmo durante a ocupação muçulmana e otomana, que só se quebrou com a invasão turca de 1974. (Ironia da história: os turcos queriam à época garantir o respeito pela eleição democrática do arcebispo Makarios como Presidente do Chipre, contra o autoritarismo da junta dos coronéis que governava a Grécia; hoje, são as democracias grega e cipriota que estão nas mãos da autocracia turca.)

 

Jogo do empurra e heranças

A mais antiga imagem de São Paulo já encontrada: uma “oportunidade para realçar a herança comum”. 

 

Os refugiados, com a Turquia a oscilar no jogo do empurra ou de tampão em troca de dinheiro europeu, e a pandemia, além da luta pelos recursos naturais, são os temas que têm contribuído para o aumento do nível de zanga entre os dois vizinhos do Mediterrâneo Oriental.

A mensagem deverá centrar-se na necessidade da convivência pacífica e da intensificação dos esforços de reconciliação, o último grande tema da viagem: num país que já viu cristãos, judeus e muçulmanos a conviver pacificamente (Chipre) e noutro que simboliza a osmose entre o cristianismo e a filosofia (Grécia), o Papa não deixará de insistir na aproximação entre povos, culturas, religiões ou confissões diferentes.

Os católicos são uma pequena minoria nos dois países, onde predomina a ortodoxia (na Grécia, há cerca de 130.000 católicos em quase 11 milhões de habitantes; no Chipre, há cerca de 30 mil católicos). Nos dois casos, o programa prevê encontros com responsáveis ortodoxos, com os quais o clima nem sempre é o mais favorável.

A história recente dá exemplos: em 2001, João Paulo II foi recebido na Grécia com muitos protestos nas ruas de Atenas. Nove anos depois, vários bispos ortodoxos recusaram participar no encontro com Bento XVI, quando este esteve no Chipre. Agora, o gelo diminuiu de novo e Francisco parece ter melhor clima a aguardá-lo.

Na mensagem em vídeo já citada, o Papa falava em peregrinação às fontes: foi no Chipre que o apóstolo Paulo fez a primeira paragem das suas viagens, convertendo o governador da ilha.

Aristoteles Papanikolaou, co-director do Centro de Estudos Cristãos Ortodoxos da Universidade de Fordham, nos EUA, lembra ainda, em declarações ao NCR: seguir nos passos de São Paulo é uma “oportunidade para realçar a herança comum” e insistir na necessidade da aproximação entre católicos e ortodoxos.

Até segunda-feira, Francisco terá várias linhas para atravessar e heranças para recordar.

 

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