“Ser ‘velho’ não significa ‘descartável’, como por vezes uma cultura degradada do descarte nos leva a pensar. Dizer ‘velho’, pelo contrário, significa dizer experiência, sabedoria, discernimento, ponderação, escuta, lentidão… Valores de que temos extrema necessidade!”. As palavras, das últimas escritas pelo Papa Francisco, constam no prefácio de um livro do cardeal Angelo Scola, prestes a ser publicado em Itália, e antecipado pelo jornal Avvenire.
Intitulado Esperando um novo começo, o pequeno livro de 80 páginas aborda o significado humano de envelhecer. Traz a chancela da LEV – Libreria Editrice Vaticana e tem por autor um cardeal que alguns setores gostariam que tivesse sido eleito Papa no conclave que elegeu Jorge Mario Bergoglio. Talvez por isso, este relembre no texto que, mal se viu revestido com a veste branca de pontífice, naquele longínquo 13 de março de 2013, se dirigiu precisamente a Scola para lhe dar um abraço.
Francisco começa por recordar os “delicados serviços” que o seu “irmão no episcopado” desempenhou na Igreja Católica – reitor da Pontifícia Universidade Lateranense, depois patriarca de Veneza e arcebispo de Milão – e manifesta-lhe gratidão por uma reflexão que entrelaça, por um lado, a experiência pessoal e, por outro, a sensibilidade cultural, ambas iluminando-se e alimentando-se uma à outra.
Sobre o livro, o agora falecido Papa diz que o leu com emoção e observa que o número reduzido de páginas engana o leitor, porquanto o conteúdo é denso, obrigando a ler e reler a obra. “Raras vezes tive ocasião de ler” uma reflexão assim, confessa Francisco.
Dialogando com o cardeal Scola, Bergoglio diz que “não devemos ter medo da velhice” nem “temer abraçar o tornar-se idoso, porque a vida é vida, e edulcorar a realidade significa trair a verdade das coisas”. O problema, para o Papa Francisco, não reside em tornarmo-nos idosos, mas no modo como nos tornamos idosos. “Se vivermos este tempo da vida como uma graça, e não com ressentimento; se acolhermos o período (mesmo que longo) em que experimentamos forças reduzidas e cansaço crescente do corpo e em que os reflexos já não iguais aos da juventude, com um sentido de gratidão e reconhecimento – então, a velhice torna-se também uma idade fecunda, como nos ensinou Romano Guardini, capaz de irradiar o bem”.
Retomando um tema tratado pelo autor do livro e que lhe foi caro ao longo do pontificado, o ex-bispo de Roma destaca o valor humano e social dos avós, que “é fundamental para o desenvolvimento equilibrado dos jovens e, em última análise, para uma sociedade mais pacífica”. Porque o seu exemplo, a sua palavra, a sua sabedoria podem promover nos mais jovens “um olhar amplo, a memória do passado e a ancoragem em valores perenes”, “um ‘algo mais’ para o seu próprio viver quotidiano”.
“No frenesim das nossas sociedades, tantas vezes voltadas para o efémero e para o gosto doentio pela aparência, a sabedoria dos avós torna-se um farol que ilumina a incerteza e aponta a direção aos netos”, reforça Francisco.
Repercutindo a reflexão do cardeal sobre o tema do sofrimento – “que tantas vezes acompanha o tornar-se idoso – e, consequentemente, à morte”, o Papa vê nelas ecos de uma teologia “feita de joelhos”, inspirada em Hans Urs von Balthasar e Joseph Ratzinger. Ele vê nelas não apenas frutos do pensamento, mas também da dimensão afetiva, “já que o cristianismo não é primariamente uma ação intelectual ou uma escolha moral, mas o afeto por uma Pessoa – aquele Cristo que veio ao nosso encontro e decidiu chamar-nos amigos”.
Finalmente, Francisco liga o título do livro de Scola com o que este diz na sua parte conclusiva e que é “uma confissão de coração aberto sobre como [o cardeal] se prepara para o encontro final com Jesus”: “devolve-nos uma certeza consoladora: a morte não é o fim de tudo, mas o início de algo. É um novo começo (…) porque a vida eterna – que quem ama já experimenta na terra, no dia a dia – é iniciar algo que não terá fim”.










