A comunidade internacional tem tido pouca capacidade de cumprir as suas promessas, e precisa de ser mais unida e determinada, disse o Papa perante a assembleia geral das Nações Unidas. Mas deve fazer-se um esforço para que as instituições sejam realmente efetivas na luta contra flagelos como a covid-19, desigualdade, os refugiados, o armamento, a crise ambiental, a violência contra as crianças ou a discriminação das mulheres.

O mundo precisa que “a ONU se converta numa oficina para a paz cada vez mais eficaz”, afirmou Francisco no seu discurso perante a assembleia geral das Nações Unidas, este ano em vídeo-conferência. Foto da transmissão do Vatican News.
Em 26 minutos, o Papa tirou uma radiografia ao mundo, fez o diagnóstico, identificou causas e apontou soluções. Assim se poderia resumir o seu discurso perante a assembleia geral das Nações Unidas, ao início da tarde (manhã nos EUA) desta sexta-feira, 25 de setembro. Covid-19, desigualdade, refugiados, armamento, crise ambiental, violência contra as crianças, discriminação das mulheres: numa mensagem gravada em vídeo, Francisco falou de todos estes “flagelos”, reconheceu que a comunidade internacional não tem sido eficaz na luta contra eles e incitou a aproveitar a crise como uma oportunidade para fazer melhor.
“De uma crise, não se sai igual: ou saímos melhores ou saímos piores”, sublinhou o Papa, na sua mensagem, já que a assembleia decorre em vídeo-conferência. “Por isso, nesta conjuntura crítica, o nosso dever é repensar o futuro da nossa casa comum e projeto comum”, uma tarefa que “requer honestidade e coerência no diálogo, a fim de melhorar o multilateralismo e a cooperação entre os Estados”, defendeu. E nessa tarefa, continuou Francisco, a ONU pode e deve ter um papel fundamental.
“As Nações Unidas foram criadas para unir as nações, para aproximá-las, como uma ponte entre os povos” e a pandemia veio mostrar, precisamente “que não podemos viver sem o outro, ou pior ainda, um contra o outro”, assinalou o Papa. E a solidariedade, essa, “não pode ser uma palavra ou uma promessa vazia”.
Neste momento, Francisco identifica dois caminhos possíveis: “um leva ao fortalecimento do multilateralismo”, da solidariedade e da unidade, e o outro dá “preferência a atitudes de autossuficiência, nacionalismo, protecionismo, individualismo e isolamento, deixando de fora os mais pobres, os mais vulneráveis”.
Ficou claro que o Papa defende o primeiro, mas não escondeu as suas dúvidas de que “as principais ameaças à paz e à segurança, como a pobreza, as epidemias e o terrorismo” possam “ser enfrentadas efetivamente quando a corrida às armas, incluindo armas nucleares, continua a desperdiçar recursos preciosos que seria melhor utilizar em benefício do desenvolvimento integral dos povos e para proteger o meio ambiente”. E quando “as crises humanitárias se converteram no status quo”, onde os direitos à liberdade, à segurança e nem mesmo à vida são assegurados.
“De facto, é doloroso ver quantos direitos fundamentais continuam a ser violados com impunidade. A lista destas violações é muito grande e faz-nos chegar à terrível imagem de uma humanidade violada, ferida, privada de dignidade, de liberdade e de possibilidade de desenvolvimento”, disse Francisco.
“Imploro que prestem especial atenção às crianças”
Entre as vítimas destas violações, o líder da Igreja Católica destacou os trabalhadores (cada vez mais afetados pela “incerteza” e “robotização” do mercado laboral), os “crentes religiosos” (que “continuam a sofrer todo o tipo de perseguições, incluindo o genocídio”), e as mulheres (muitas delas “vítimas de escravidão, tráfico, violência e exploração”).
Mas foi notória a sua preocupação particular com as crianças, nas quais a crise associada à covid-19 “teve consequências devastadoras”, assinalou. “A violência contra as crianças, incluindo o horrível flagelo do abuso infantil e da pornografia, também aumentaram dramaticamente”, lamentou Francisco. “Além disso, milhões de crianças não podem regressar à escola”, o que promove “um aumento do trabalho infantil, a exploração, os mais tratos e a desnutrição”, alertou. “Imploro, pois, às autoridades civis que prestem especial atenção às crianças a quem são negados os seus direitos e dignidade fundamentais, em particular, o seu direito à vida e à educação”.
Também os refugiados mereceram um destaque especial no discurso de Francisco. “Muitos veem-se obrigados a abandonar os seus lares”, e sofrem depois o abandono nos lugares para ondem fugiram. “Pior ainda, milhares são intercetados no mar e devolvidos à força a campos de detenção onde enfrentam torturas e abusos”, sublinhou o Papa, referindo ainda que muitos são vítimas de tráfico, escravatura sexual e trabalhos forçados. “Isto que é intolerável, no entanto, é hoje uma realidade que muitos ignoram intencionalmente”, denunciou o Papa.
E, apesar de não acusar as Nações Unidas de ignorar estas realidades, Francisco fez questão de assinalar que, entre o primeiro discurso que fez perante a assembleia Geral da ONU, há cinco anos, e o segundo, nesta sexta-feira, pouco mudou para melhor. “Devemos admitir honestamente que, apesar de ter havido alguns progressos, a pouca capacidade da comunidade internacional para cumprir as suas promessas de há cinco anos leva-me a reiterar que temos de evitar toda a tentação de cair num nominalismo declaracionista com efeito tranquilizador nas consciências. Devemos assegurar que as nossas instituições sejam realmente efetivas na luta contra todos estes flagelos”, afirmou o Papa.
Um mundo assim, em conflito, precisa que “a ONU se converta numa oficina para a paz cada vez mais eficaz”, insistiu Francisco. E isso implica “que os membros do Conselho de Segurança, especialmente os permanentes, atuem com maior unidade e determinação”. É preciso, sublinhou o Papa, “superar a tão difundida e inconscientemente consolidada cultura do descarte” e o “desejo de poder e de controlo absolutos que domina a sociedade de hoje”. E a ONU, concluiu, tem de ser uma peça-chave “para transformar o desafio que enfrentamos numa oportunidade de construir juntos o futuro que queremos”.










