Papa Francisco à ONU: “De uma crise, ou saímos melhores ou saímos piores”

| 26 Set 20

A comunidade internacional tem tido pouca capacidade de cumprir as suas promessas, e precisa de ser mais unida e determinada, disse o Papa perante a assembleia geral das Nações Unidas. Mas deve fazer-se um esforço para que as instituições sejam realmente efetivas na luta contra flagelos como a covid-19, desigualdade, os refugiados, o armamento, a crise ambiental, a violência contra as crianças ou a discriminação das mulheres. 

papa francisco assembleia geral onu, print screen

O mundo precisa que “a ONU se converta numa oficina para a paz cada vez mais eficaz”, afirmou Francisco no seu discurso perante a assembleia geral das Nações Unidas, este ano em vídeo-conferência. Foto da transmissão do Vatican News.

 

Em 26 minutos, o Papa tirou uma radiografia ao mundo, fez o diagnóstico, identificou causas e apontou soluções. Assim se poderia resumir o seu discurso perante a assembleia geral das Nações Unidas, ao início da tarde (manhã nos EUA) desta sexta-feira, 25 de setembro. Covid-19, desigualdade, refugiados, armamento, crise ambiental, violência contra as crianças, discriminação das mulheres: numa mensagem gravada em vídeo, Francisco falou de todos estes “flagelos”, reconheceu que a comunidade internacional não tem sido eficaz na luta contra eles e incitou a aproveitar a crise como uma oportunidade para fazer melhor.

“De uma crise, não se sai igual: ou saímos melhores ou saímos piores”, sublinhou o Papa, na sua mensagem, já que a assembleia decorre em vídeo-conferência. “Por isso, nesta conjuntura crítica, o nosso dever é repensar o futuro da nossa casa comum e projeto comum”, uma tarefa que “requer honestidade e coerência no diálogo, a fim de melhorar o multilateralismo e a cooperação entre os Estados”, defendeu. E nessa tarefa, continuou Francisco, a ONU pode e deve ter um papel fundamental.

“As Nações Unidas foram criadas para unir as nações, para aproximá-las, como uma ponte entre os povos” e a pandemia veio mostrar, precisamente “que não podemos viver sem o outro, ou pior ainda, um contra o outro”, assinalou o Papa. E a solidariedade, essa, “não pode ser uma palavra ou uma promessa vazia”.

Neste momento, Francisco identifica dois caminhos possíveis: “um leva ao fortalecimento do multilateralismo”, da solidariedade e da unidade, e o outro dá “preferência a atitudes de autossuficiência, nacionalismo, protecionismo, individualismo e isolamento, deixando de fora os mais pobres, os mais vulneráveis”.

Ficou claro que o Papa defende o primeiro, mas não escondeu as suas dúvidas de que “as principais ameaças à paz e à segurança, como a pobreza, as epidemias e o terrorismo” possam “ser enfrentadas efetivamente quando a corrida às armas, incluindo armas nucleares, continua a desperdiçar recursos preciosos que seria melhor utilizar em benefício do desenvolvimento integral dos povos e para proteger o meio ambiente”. E quando “as crises humanitárias se converteram no status quo”, onde os direitos à liberdade, à segurança e nem mesmo à vida são assegurados.

“De facto, é doloroso ver quantos direitos fundamentais continuam a ser violados com impunidade. A lista destas violações é muito grande e faz-nos chegar à terrível imagem de uma humanidade violada, ferida, privada de dignidade, de liberdade e de possibilidade de desenvolvimento”, disse Francisco.

 

“Imploro que prestem especial atenção às crianças”

Entre as vítimas destas violações, o líder da Igreja Católica destacou os trabalhadores (cada vez mais afetados pela “incerteza” e “robotização” do mercado laboral), os “crentes religiosos” (que “continuam a sofrer todo o tipo de perseguições, incluindo o genocídio”), e as mulheres (muitas delas “vítimas de escravidão, tráfico, violência e exploração”).

Mas foi notória a sua preocupação particular com as crianças, nas quais a crise associada à covid-19 “teve consequências devastadoras”, assinalou. “A violência contra as crianças, incluindo o horrível flagelo do abuso infantil e da pornografia, também aumentaram dramaticamente”, lamentou Francisco. “Além disso, milhões de crianças não podem regressar à escola”, o que promove “um aumento do trabalho infantil, a exploração, os mais tratos e a desnutrição”, alertou. “Imploro, pois, às autoridades civis que prestem especial atenção às crianças a quem são negados os seus direitos e dignidade fundamentais, em particular, o seu direito à vida e à educação”.

Também os refugiados mereceram um destaque especial no discurso de Francisco. “Muitos veem-se obrigados a abandonar os seus lares”, e sofrem depois o abandono nos lugares para ondem fugiram. “Pior ainda, milhares são intercetados no mar e devolvidos à força a campos de detenção onde enfrentam torturas e abusos”, sublinhou o Papa, referindo ainda que muitos são vítimas de tráfico, escravatura sexual e trabalhos forçados. “Isto que é intolerável, no entanto, é hoje uma realidade que muitos ignoram intencionalmente”, denunciou o Papa.

E, apesar de não acusar as Nações Unidas de ignorar estas realidades, Francisco fez questão de assinalar que, entre o primeiro discurso que fez perante a assembleia Geral da ONU, há cinco anos, e o segundo, nesta sexta-feira, pouco mudou para melhor. “Devemos admitir honestamente que, apesar de ter havido alguns progressos, a pouca capacidade da comunidade internacional para cumprir as suas promessas de há cinco anos leva-me a reiterar que temos de evitar toda a tentação de cair num nominalismo declaracionista com efeito tranquilizador nas consciências. Devemos assegurar que as nossas instituições sejam realmente efetivas na luta contra todos estes flagelos”, afirmou o Papa.

Um mundo assim, em conflito, precisa que “a ONU se converta numa oficina para a paz cada vez mais eficaz”, insistiu Francisco. E isso implica “que os membros do Conselho de Segurança, especialmente os permanentes, atuem com maior unidade e determinação”. É preciso, sublinhou o Papa, “superar a tão difundida e inconscientemente consolidada cultura do descarte” e o “desejo de poder e de controlo absolutos que domina a sociedade de hoje”. E a ONU, concluiu, tem de ser uma peça-chave “para transformar o desafio que enfrentamos numa oportunidade de construir juntos o futuro que queremos”.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Antigo engenheiro militar sucede a Barbarin como arcebispo de Lyon

O Papa nomeou esta quinta-feira, 22 de outubro, Olivier de Germay, até agora bispo de Ajaccio (na Córsega), como novo arcebispo de Lyon. Está assim encontrado o sucessor do cardeal Philippe Barbarin, cuja renúncia tinha sido aceite por Francisco em março deste ano. 

Declarações do Papa sobre homossexuais “não afetam a doutrina da Igreja”, dizem bispos portugueses

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) considera que as declarações do Papa sobre a proteção legal a uniões de pessoas do mesmo sexo “não afetam a doutrina da Igreja” sobre o matrimónio. Em nota enviada à agência Ecclesia esta quarta-feira, 22, os bispos portugueses sublinham que as afirmações de Francisco contidas no novo documentário “Francesco” já eram conhecidas anteriormente e “revelam a atenção constante do Papa às necessidades reais da vida concreta das pessoas”.

Índia: Bispos fazem greve de fome em defesa das escolas cristãs

Três bispos católicos fizeram greve de fome na passada terça-feira, 20 de outubro, diante da Secretaria de Estado de Kerala (um dos 28 estados indianos), para reivindicar o cumprimento dos direitos constitucionais das escolas cristãs no país, divulgou a UCA News.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Facebook proíbe conteúdos que neguem ou distorçam o Holocausto

Facebook proíbe conteúdos que neguem ou distorçam o Holocausto

A decisão foi anunciada esta segunda-feira, 12 de outubro, pela vice-presidente de política de conteúdos do Facebook, Monika Bickert, e confirmada pelo próprio dono e fundador da rede social, Mark Zuckerberg: face ao crescimento das manifestações de antissemitismo online, o Facebook irá banir “qualquer conteúdo que negue ou distorça o Holocausto”.

É notícia

Luto nacional a 2 de novembro, missa pelas vítimas da pandemia no dia 14

O Conselho de Ministros aprovou esta quinta-feira, 22, o decreto que declara a próxima segunda-feira, 2 de novembro, dia de luto nacional “como forma de prestar homenagem a todos os falecidos, em especial às vítimas da pandemia”. No próximo dia 14 de novembro, será a vez de a Conferência Episcopal Portuguesa celebrar uma eucaristia de sufrágio pelas pessoas que já faleceram devido à covid-19 no nosso país.

Camarões: Padre jesuíta detido por fazer uma peregrinação a pé

Ludovic Lado, um padre jesuíta que se preparava para iniciar, sozinho e a pé, uma “peregrinação pela paz” entre as cidades de Japoma e Yaoundé, capital dos Camarões, foi detido pela polícia, que o acusou de estar a praticar uma “atividade ilegal na via pública”. O padre foi depois submetido a um interrogatório, onde o questionaram sobre eventuais motivações políticas e lhe perguntaram especificamente se era apoiante do líder da oposição, Maurice Kamto.

Twitter segue exemplo do Facebook e proíbe negação do Holocausto

Depois do Facebook, agora foi a vez de o Twitter banir da sua rede social conteúdos que neguem ou distorçam o Holocausto. “Condenamos fortemente o antissemitismo e a conduta de ódio não tem lugar absolutamente  nenhum no nosso serviço”, afirmou um porta-voz da empresa em comunicado à imprensa. O responsável garantiu também que irão agir “contra conteúdos que glorifiquem ou elogiem atos históricos de violência e genocídio, incluindo o Holocausto”.

Entre margens

… E as Cuidadoras? novidade

Durante o confinamento reli um livro de que muito gosto, “Passagens” de Teolinda Gersão, que ganhou o Prémio Fernando Namora em 2015. Trata-se de uma obra escrita a várias vozes, tomando como ponto de partida uma senhora idosa (Srª D. Ana, ex-farmacêutica) que morre durante o sono no lar onde residia. Ao longo do livro várias “falas” se fazem ouvir à sua volta, enquanto repousa no caixão na capela do lar.

A pena de morte na visão de Francisco: clareza e inspiração

Em boa hora este documento. Custa acreditar que a Igreja Católica, na sua representação máxima, tenha demorado 20 séculos após o nascimento do fundador do cristianismo – que foi vítima de pena de morte – a tomar posição inequívoca e final sobre o tema. Outros antecessores falaram sobre este assunto, Francisco encerra-o.

Ter ou ‘Bem Viver’?

“Todos nós, seres humanos, nascemos nesta terra com a mesma dignidade (…). Se alguém não tem o necessário para viver com dignidade, é porque outrem se está a apropriar do que lhe é devido.” Na encíclica Fratelli Tutti (“Todos irmãos”), caída ao húmus do mundo no início do outono, o papa Francisco desfaz o estuque do grande pilar do capitalismo e da grande ilusão do ocidente: a propriedade privada. E propõe: e se à ideia de propriedade sobrepuséssemos a de solidariedade?

Cultura e artes

O capitalismo não gosta da calma (nem da contemplação religiosa)

A editora Relógio d’Água prossegue a publicação em Portugal dos ensaios de Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha. O tom direto e incisivo da sua escrita aponta, num registo realista, as múltiplas enfermidades de que padece a sociedade contemporânea, que o autor designa como sociedade pós-industrial ou sociedade da comunicação e do digital, do excesso de produção e de comunicação. A perda dos referentes rituais – análise que o autor refere como isenta de nostalgia, mas apontando o futuro – é uma dessas enfermidades, com as quais a vivência religiosa está intimamente relacionada.

Documentário sobre Ferreira d’Almeida disponível na RTP Play

O documentário abre com Carlos Fiolhais professor de Física na Universidade de Coimbra, a recordar que a Bíblia é o livro mais traduzido e divulgado de sempre – também na língua portuguesa. E que frases conhecidas como “No princípio criou Deus o céu e a terra” têm, em português, um responsável maior: João Ferreira Annes d’Almeida, o primeiro tradutor da Bíblia para português, trabalho que realizou no Oriente, para onde foi ainda jovem e onde acabaria por morrer.

Uma simples prece

Nem todos somos chamados a um grande destino/ Mas cada um de nós faz parte de um mistério maior/ Mesmo que a nossa existência pareça irrelevante/ Tu recolhes-te em cada gesto e interrogação

Sete Partidas

Não ter medo da covid

Nesta crise da covid tenho ouvido cada vez mais falar em medo, em “manipulação pelo medo” em “não ceder à estratégia do medo”. Parece que há por aí quem acredite que os governos têm um plano secreto de instalação do totalitarismo, e a covid é apenas uma excelente desculpa para a pôr em prática.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco