Papa Francisco: “Alegrai-vos e exultai”. Santidade e ética

| 15 Abr 19

No quinto aniversário do início solene do seu pontificado, a 19 de março de 2018 (há pouco mais de um ano), o Papa Francisco publicou a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, “sobre a santidade no mundo atual”. Parte do capítulo V da Constituição do Vaticano II, Lumen Gentium.Aí se propõe a santidade para todos os cristãos, entendida em dois níveis: a santidade como atributo de Deus comunicada aos fiéis, a que se pode chamar “santidade ontológica”, e a resposta destes à ação de Deus neles, a “santidade ética” (cfr LG39-40). Não somos nós que “nos santificamos”, é Deus que “nos santifica”; compete-nos viver na santidade e dar frutos.

O Papa pretende “fazer ressoar mais uma vez a chamada à santidade, procurando encarná-la no contexto atual, com os seus riscos, desafios e oportunidades” (GEx2).Relevante é a referência, no capítulo II, a “dois inimigos subtis da santidade”: o gnosticismo e o pelagianismo. Trata-se de “um imanentismo antropocêntrico, disfarçado de verdade católica. […] Duas formas de segurança doutrinária ou disciplinar, que dão origem a um elitismo narcisista e autoritário” (GEx35).

Para o teólogo Marciano Vidal, este capítulo “está pensado para apoiar a proposta global do Papa Francisco para a Igreja de hoje. Pense-se, como uma verificação concreta de tal proposta, nas orientações da Exortação Amoris Lætitia”. As denúncias do gnosticismo e do pelagianismo “têm um significado forte para consolidar uma orientação moral que supere o rigorismo, o legalismo, o objetivismo e outras formas de entender a moral cristã afastada do Evangelho da Misericórdia. Com esta Exortação pretende-se continuar a consolidar um paradigma de moral cristã que, sem esquecer o polo objetivo, sublinhe a função do polo subjetivo: a pessoa como sujeito moral, a consciência como lugar de moralidade, o discernimento como caminho de busca da verdade moral concreta”. É um documento também sobre teologia moral / ética teológica. Nesta perspetiva, citamos passagens significativas.

 

Gnosticismo: falta coração e ternura

O gnosticismo é a proposta de um conhecimento salvífico. Considera que a salvação vem da adesão a doutrinas, mas falta coração e ternura. Coloca a santidade na capacidade de conhecer: o conhecimento torna-nos santos. Apresenta-se no âmbito moral como um código rígido, com pouca misericórdia. “O gnosticismo é uma das piores ideologias, pois, ao mesmo tempo que exalta indevidamente o conhecimento ou uma determinada experiência, considera que a sua própria visão da realidade seja a perfeição. […] Por vezes, torna-se particularmente enganadora, quando se disfarça de espiritualidade desencarnada” (GEx40).

A “espiritualidade desencarnada” é a que se desinteressa da história concreta, da realidade da vida, da paixão pelo mundo. “Concebe uma mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros, engessada numa enciclopédia de abstrações” (GEx37).

Por outro lado, o gnosticismo pode “assumir o aspeto duma certa harmonia ou duma ordem que tudo abrange” (GxE38); um conhecimento que tudo sabe, tudo controla. Mas “quem tem resposta para todas as perguntas”, quem tudo pretende conhecer e dominar, perde a noção de que “Deus nos supera infinitamente, é sempre uma surpresa e não somos nós que determinamos a circunstância histórica em que O encontramos, já que nem o tempo, nem o lugar, nem a modalidade do encontro dependem de nós. Quem quer tudo claro e seguro, pretende dominar a transcendência de Deus” (GEx41).

Há que reconhecer os limites do conhecimento perante a realidade de Deus e da vida, porque “Ele está misteriosamente presente na vida de toda a pessoa. […] Se nos deixarmos guiar mais pelo Espírito do que pelos nossos raciocínios, podemos e devemos procurar o Senhor em cada vida humana” (GEx42).

Isto tem consequências importantes: “não podemos pretender que o nosso modo de a entender nos autorize a exercer um controlo rigoroso sobre a vida dos outros. […] Na Igreja, convivem legitimamente diferentes maneiras de interpretar muitos aspetos da doutrina e da vida cristã, que, na sua variedade, ajudam a explicitar melhor o tesouro riquíssimo da Palavra. A quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isto poderá parecer uma dispersão imperfeita” (GEx43).

De facto, “a doutrina, ou melhor, a nossa compreensão e expressão dela, não é um sistema fechado, privado de dinâmicas próprias capazes de gerar perguntas, dúvidas, questões. […] As perguntas do nosso povo, as suas angústias, batalhas, sonhos e preocupações possuem um valor hermenêutico que não podemos ignorar, se quisermos deveras levar a sério o princípio da encarnação. As suas perguntas ajudam-nos a questionar-nos, as suas questões interrogam-nos” (GEx44).

 

Pelagianismo: a santidade é fruto da vontade e não da graça

O pelagianismo sublinha o esforço pessoal, a confiança em si próprio, o cumprimento exato de leis e preceitos, como se a santidade fosse fruto da vontade e não da graça. Coloca a santidade na capacidade de fazer: a vontade torna-nos santos.“Quem se conforma a esta mentalidade, embora fale da graça de Deus com discursos edulcorados, no fundo, só confia nas suas próprias forças e sente-se superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico” (GEx49).

E concretiza de forma incisiva: é “a justificação pelas suas próprias forças, a adoração da vontade humana e da própria capacidade, que se traduz numa autocomplacência egocêntrica e elitista, desprovida do verdadeiro amor. Manifesta-se em muitas atitudes aparentemente diferentes entre si: a obsessão pela lei, o fascínio de exibir conquistas sociais e políticas, a ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, a vanglória ligada à gestão de assuntos práticos, a atração pelas dinâmicas de autoajuda e realização autorreferencial. É nisto que alguns cristãos gastam as suas energias e o seu tempo, em vez de se deixarem guiar pelo Espírito” (GEx57).

Assim, “contra o impulso do Espírito, a vida da Igreja transforma-se numa peça de museu ou numa propriedade de poucos”. Isso verifica-se na “excessiva importância dada à observância de certas normas, costumes e estilos”. Deste modo, “reduz-se e manieta-se o Evangelho, despojando-o da sua simplicidade cativante e do sabor. […] Parece submeter a vida da graça a certas estruturas humanas” (GEx58).

Isso tem consequências: “sem nos darmos conta, pelo facto de pensar que tudo depende do esforço humano canalizado através de normas e estruturas eclesiais, complicamos o Evangelho e tornamo-nos escravos dum esquema que deixa poucas aberturas para que a graça atue. S. Tomás de Aquino lembrava-nos que se deve exigir, com moderação, os preceitos acrescentados ao Evangelho pela Igreja, ‘para não tornar a vida pesada aos fiéis, [porque assim] se transformaria a nossa religião numa escravidão’” (GEx 59).

Por outro lado, “é bom recordar frequentemente que existe uma hierarquia das virtudes, que nos convida a buscar o essencial. A primazia pertence às virtudes teologais, que têm Deus como objeto e motivo. E, no centro, está a caridade” (GEx60), e que “no meio da densa selva de preceitos e prescrições, Jesus abre uma brecha que permite vislumbrar dois rostos: o do Pai e o do irmão. Não nos dá mais duas fórmulas ou dois preceitos; entrega-nos dois rostos, ou melhor, um só: o de Deus que se reflete em muitos, porque em cada irmão, especialmente no mais pequeno, frágil, inerme e necessitado, está presente a própria imagem de Deus” (GEx61).

Tenhamos presente que “a Igreja ensinou repetidamente que não somos justificados pelas nossas obras ou pelos nossos esforços, mas pela graça do Senhor que toma a iniciativa” (GEx52). A santidade não é fruto de um esforço próprio, não é uma montanha que é preciso escalar com as próprias forças. Não há ações que “produzam” a santidade. O Papa propõe dois textos do Evangelho particularmente relevantes: Mt 5, 3-12: as bem-aventuranças e Mt 25, 31-46: a que chama “a grande regra de comportamento do juízo final” (cfr GEx67-99).

 

Dois erros nocivos dos que mutilam o Evangelho

Depois indica “dois erros nocivos” vindos de “ideologias que mutilam o coração do Evangelho”. “O erro dos cristãos que separam as exigências do Evangelho do seu relacionamento pessoal com o Senhor, da união interior com Ele, da graça. Assim transforma-se o cristianismo numa espécie de ONG, privando-o da espiritualidade” (GEx100).

“Mas é nocivo e ideológico também o erro das pessoas que vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando-o algo de superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista; ou então relativizam-no como se houvesse outras coisas mais importantes, como se interessasse apenas uma determinada ética ou um arrazoado que eles defendem. A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da vida humana, sempre sagrada. […] Mas igualmente sagrada é a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura, e em todas as formas de descarte” (GEx101).

E continua: “muitas vezes ouve-se dizer que, face ao relativismo e aos limites do mundo atual, seria um tema marginal, por exemplo, a situação dos migrantes. Alguns católicos afirmam que é um tema secundário relativamente aos temas ‘sérios’ da bioética. Que fale assim um político preocupado com os seus sucessos, talvez se possa chegar a compreender; mas não um cristão” (GEx102).

O Papa não esquece que “a vida cristã é uma luta permanente; requer-se força e coragem” (GEx158). Ressalta a importância do discernimento perante Deus (cfr GEx171-172).“Tal atitude de escuta implica, naturalmente, obediência ao Evangelho. […] Não se trata de aplicar receitas ou repetir o passado, uma vez que as mesmas soluções não são válidas em todas as circunstâncias e o que foi útil num contexto pode não o ser noutro. O discernimento dos espíritos liberta-nos da rigidez, que não tem lugar no ‘hoje’ perene do Ressuscitado. Somente o Espírito sabe penetrar nas dobras mais recônditas da realidade, e ter em conta todas as suas nuances, para que a novidade do Evangelho surja com outra luz” (GEx173).

Para o autor citado, há que “sublinhar a importância relevante da exortação […] para o enquadramento e sistematização da teologia moral no momento presente. […] Constitui mais uma peça para a reconstrução de um novo paradigma de teologia moral católica concordante com a nova estação eclesial de reforma do Papa Francisco”.

 

Jerónimo Trigo é padre católico, da Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Claretianos), e professor de Teologia Moral na Universidade Católica Portuguesa

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