Papa Francisco aprovou canonização de Carlos de Foucauld, santo entre os tuaregues

| 4 Mai 21

Carlos Foucauld será canonizado na Igreja Católica pelo seu trabalho com os tuaregues. Foto Direitos Reservados

 

O Papa Francisco decidiu nesta segunda-feira, 3 de Maio, aprovar a canonização do francês Carlos de Foucauld, inspirador dos Irmãozinhos e Irmãzinhas de Jesus, que viveu como eremita no deserto argelino, entre tuaregues, e acabaria assassinado. Na cerimónia da sua beatificação, em 13 de novembro de 2005 (presidida pelo cardeal português José Saraiva Martins, então prefeito da Congregação para as Causas dos Santos), uma delegação tuaregue fez-se representar na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

A canonização ainda não tem data marcada, em virtude da pandemia, de acordo com o Vatican News, portal de notícias do Vaticano. Foucauld (1858-1916), que viveu num eremitério entre os tuaregues do deserto do Sara, queria que a sua vida fosse a de um “irmão universal”, que dialogava com todos – incluindo muçulmanos, num tempo em que o diálogo inter-religioso era inexistente e desconhecido.

O seu carisma, de vida solitária entre os mais pobres, acabaria por se tornar uma referência para dez congregações religiosas do século XX e para a renovação de outras já existentes.

Charles de Foucauld nasceu em Estrasburgo, em Setembro de 1858, filho do conde Charles-Eugène. Órfão aos seis anos, registou-se para servir no exército, em 1876. Na Escola de cavalaria de Saumur, ganha fama de folgazão. Aos 22 anos, é mobilizado para a Argélia, então colónia francesa mas aos 25 decide deixar a vida militar e dedicar-se à exploração geográfica em Marrocos.

O contacto com muçulmanos provocaria nele “uma profunda agitação”, como dirá depois; e leva a surgir de novo uma pergunta que já o abandonara há anos: “Será que Deus existe?”

Em 1886, Foucauld converte-se e vai de mosteiro em mosteiro experimentar a integração na vida religiosa. Insatisfeito, vai em 1900 para Jerusalém e Nazaré, onde se inspira para imitar o estilo de vida simples de Jesus, em Nazaré: “Sonho com qualquer coisa de muito simples, grupos pequenos e semelhantes às comunidades dos primeiros tempos na Igreja… viver a vida de Nazaré, no trabalho e na contemplação de Jesus… ser uma família pequena, onde tudo seja muito humilde e simples.”

Com essa ideia regressa ao fim de um ano à Argélia, onde escolhe o eremitério de Beni Abbès para viver. Entre curtas viagens a França e no interior da Argélia passa o seu tempo, ajudando os mais pobres dos nómadas do deserto, passando a viver em Tamanrasset, a partir de 1909. Recusa “instruir” os muçulmanos na religião cristã ou convertê-los, querendo apenas dar-lhes “a conhecer, mais com os actos do que pelas palavras, a moral cristã”.

O irmão Carlos dedica-se entretanto também à escrita de obras de linguística e cultura tuaregue, que depois se tornarão referência nos estudos sobre a matéria. Mas o eclodir da Grande Guerra Guerra 1914-18 cria-lhe dificuldades e acabará por ser assassinado, em 1 de Dezembro de 1916, por um grupo que se opunha aos cristãos e que lutava contra a colonização francesa. Tinha 58 anos.

 

“Identificação com os últimos”

 

 

Carlos Foucauld quis imitar o estilo de vida simples de Jesus, em Nazaré. Foto Direitos Reservados

 

Foi “um homem que venceu tantas resistências e deu um testemunho que fez bem à Igreja”, afirmou o Papa, a propósito do novo santo. “Peçamos que nos abençoe do céu e nos ajude a caminhar nos caminhos de pobreza, contemplação e serviço aos pobres”, acrescentou, na altura do centenário da sua morte, como recorda a Ecclesia. Também na encíclica Fratelli Tutti, publicada em Outubro, o Papa propõe o exemplo de Foucauld pelo seu ideal de “identificação com os últimos, os mais abandonados no interior do deserto africano”.

“Santo para o nosso tempo”, Carlos de Foucauld queria viver em “fraternidade no dia a dia com os que estavam ao seu redor, sobretudo com o povo tuaregue”, dizia o padre Vincent Feroldi, director do Serviço Nacional para as Relações com Muçulmanos, na Conferência Episcopal Francesa, em entrevista ao Vatican News.

“Carlos não estava ali para mostrar o caminho, mas para permitir a cada um encontrar Jesus, não necessariamente da maneira que ele inicialmente imaginou, mas na maneira que só Deus conhece, que é o caminho que é bom para cada um”, acrescentava o mesmo responsável. Para os muçulmanos, dizia ainda, o irmão Carlos “é um marabout, um homem de Deus” e representa “o itinerário de um homem em toda a sua complexidade, e que pouco a pouco, no seu desejo de encontrar Deus, o irá encontrar, o irá contemplar, o irá adorar, e que o convidará então a viver a fraternidade e o amor”.

No consistório em que aprovou a canonização de Foucauld, o Papa Francisco confirmou também a mesma decisão relativa a outros seis beatos.

Em Portugal, há uma comunidade dos Irmãozinhos de Jesus a viver em Setúbal, e três comunidades de irmãs nos bairros de Chelas (Lisboa), Apelação (Loures) e em Fátima.

“A primeira coisa a fazer é respeitar uma cultura diferente da sua, de procurar compreender a luz da verdade e descobrir nela o projecto de Deus sobre cada ser humano”, escrevia a irmã Magdeleine Hutin, ou Magdeleine de Jesus, que criou as Irmãzinhas de Jesus a partir da proposta e inspiração de Carlos de Foucauld. “É somente a partir do respeito das culturas, das civilizações e das religiões que será possível revelar aos outros o amor de Deus.”

 

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