O Papa Francisco apela à transformação de um mundo de “cálculos e algoritmos”, com novas críticas à economia que “mata”, nas meditações para a Via-Sacra do Coliseu, nesta Sexta-feira Santa.
“Construímos um mundo que funciona assim: um mundo de cálculos e algoritmos, de lógicas frias e interesses implacáveis. A lei da vossa casa, Senhor, a economia divina é outra coisa”, refere Francisco, em meditações divulgadas pelo Vaticano.
“A economia de Deus não mata, nem descarta, nem esmaga. É humilde, fiel à terra. O vosso caminho, Senhor Jesus, é a via das bem-aventuranças. Não destrói, mas cultiva, repara, guarda”, acrescenta.
O Papa convida a “mudar de rumo”, destacando que a Via-Sacra é a “oração de quem está em movimento” e desafia uma “religiosidade estéril”. “Viestes para mudar o mundo: para nós isso significa mudar de direção, ver a bondade das vossas pegadas, deixar trabalhar no nosso coração a memória do vosso olhar”, assinala, nas suas reflexões.
Este é o segundo ano consecutivo em que Francisco assina as reflexões, mas delega a presidência das celebrações que marcam o Tríduo Pascal.
A Via-Sacra do Coliseu (21h15 de Roma, uma hora menos em Lisboa) vai ser conduzida pelo cardeal Baldo Reina, vigário-geral da Diocese de Roma. “Educai-nos nos tempos da terra, que não são os artificiais. Deposto no túmulo, Senhor Jesus, partilhais a condição que a todos nos iguala, e atingis as profundezas que tanto nos assustam. Vede como fugimos delas, multiplicando as nossas atividades”, escreve o Papa.
Francisco fala ainda de “juízos que matam”, convidando a rezar pela abertura do coração. “Vós continuais, silenciosamente, diante de nós: em cada irmã e irmão expostos a julgamentos e preconceitos”, apela.
Os textos do Papa evocam a figura de Maria e de Simão de Cirene, que ajudou a carregar a cruz de Jesus no caminho para o Calvário. “Precisamos de quem nos faça parar, por vezes, e nos ponha aos ombros um pedaço de realidade que simplesmente tem de ser carregado”, indica.
“Vós, Senhor Jesus, quebrais a cadeia do inevitável, quebrais os automatismos que destroem a casa comum e a fraternidade. Dais, àqueles que esperam o vosso Reino, a coragem de se apresentarem à autoridade: como Moisés ao Faraó, como José de Arimateia a Pilatos. Capacitai-nos para grandes responsabilidades, tornai-nos corajosos”, apela Francisco.
A invocação final cita São Francisco de Assis, com as expressões Laudato Si’ e Fratelli Tutti, que inspiram as encíclicas de 2015 e 2020, sobre a ecologia integral e a fraternidade humana.
“Percorremos a Via-Sacra, voltamo-nos para o amor do qual nada nos pode separar. Agora, enquanto o Rei dorme e um grande silêncio desce sobre toda a terra, fazendo nossas as palavras de São Francisco, invoquemos o dom da conversão do coração”, conclui.
Em 2024, o Papa evocou as vítimas das guerras e as pessoas exploradas em nome de “lucros iníquos”, nas inéditas meditações que escreveu para a Via-Sacra de Sexta-feira Santa, no Coliseu de Roma.
Esta foi a segunda vez que o atual Papa redigiu as meditações da tradicional Via-Sacra no Coliseu; os textos sobre as 14 estações – momentos ligados à prisão, julgamento e execução de Jesus Cristo – tiveram como tema “Em oração com Jesus na Via-Sacra”.
“Porquê eles e não eu?” — o Papa na visita à prisão
O Papa Francisco visitou a prisão Regina Coeli, em Roma, na Quinta-feira Santa, e encontrou-se com 70 reclusos no pátio da prisão, “num extraordinário testemunho de amor cristão”, como descreveu a America Magazine, na sua edição online.
Recebido por Claudia Clementi, diretora da prisão, Francisco acenou gentilmente enquanto era conduzido ao pátio pelo seu enfermeiro e acompanhado pelo seu secretário argentino, descreveu a publicação. Um vídeo divulgado pelo Vaticano mostra o Papa a ser recebido pelos reclusos com aplausos calorosos e gritos de “Grazie, Padre!” (“Obrigado, Padre!”) e “Libertá! ” (“Liberdade!”).
O Vaticano informou que os reclusos que encontrou eram “de várias nacionalidades” e “participam regularmente nas atividades e na catequese organizada pelo capelão da prisão”.
Depois de uma breve saudação da diretora, que expressou a gratidão de toda a comunidade pela visita, o Papa Francisco dirigiu-se aos reclusos, dizendo: “Gosto de fazer todos os anos na prisão o que Jesus fez na Quinta-feira Santa, o lava-pés”. E acrescentou: “Este ano não o posso fazer, mas posso e quero estar perto de vós. Rezo por vós e pelas vossas famílias.”
Ao sair da prisão, sentado no banco do passageiro, o Papa parou para falar com os jornalistas e disse-lhes, de acordo com a America Magazine: “Sempre que entro por estas portas, pergunto-me: ‘Porquê eles e não eu?’”
O Papa explicou em várias ocasiões que todas as pessoas são pecadoras, incluindo ele próprio, mas que a graça, a providência, a educação familiar e outros fatores desempenham um papel determinante.










