Papa Francisco deu “licença” ao arcebispo Gänswein para ele ter mais tempo para Ratzinger

| 5 Fev 20

O arcebispo Georg Gänswein, prefeito da Casa Pontifícia e secretário pessoal do Papa emérito Bento XVI, presidindo, em Julho de 2017, às exéquias do cardeal Joachim Meisner. Foto © Raimond Spekking/Wikimedia Commons

 

O arcebispo Georg Gänswein, prefeito da Casa Pontifícia e secretário pessoal do Papa emérito Bento XVI, estará desde há duas semanas mais confinado ao mosteiro Mater Ecclesia, no Vaticano, onde reside Joseph Ratzinger, tendo deixado praticamente de aparecer ao lado do Papa Francisco nas cerimónias oficiais em que era suposto estar.

A notícia, que começou por ser avançada pela imprensa alemã na manhã desta quarta-feira, seria depois desenvolvida por vários jornais italianos, que acrescentaram vários detalhes: o arcebispo teria tido uma espécie de licença ou permissão do Papa para estar mais tempo com Ratzinger.

Terminariam deste modo, ingloriamente para Gänswein, os quase sete anos de “coabitação”do arcebispo alemão com Francisco, comenta a edição italiana do Huffington Post.

“Não há nenhuma licença, nenhuma informação nesse sentido”, contestou o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, citado pela mesma fonte. De manhã, o jornal alemão Die Tagepost – que o Huffington Post define como próximo das posições de Ratzinger – publicou a informação da concessão de uma licença ao bispo.

Além de desmentir qualquer enfermidade impeditiva de aparecer em público, Bruni acrescentou: “A ausência do bispo Gänswein durante determinadas audiências nas últimas semanas, ficou a dever-se efectivamente a uma distribuição normal dos vários compromissos e funções do prefeito da Casa Pontifícia, que tem também o papel de secretário particular do Papa emérito.”

Os vários jornais citam, entretanto, os actos oficiais em que ele deveria ter estado presente: audiências ao vice-presidente dos Estados Unidos (24 de Janeiro), ao Presidente do Iraque (25), chegada do Presidente argentino (31) e do príncipe do Bahrain (3 de Fevereiro, segunda-feira passada). E ainda, para somar à lista, a última audiência geral das quartas-feiras em que esteve foi a de 15 de Janeiro – ou seja, não esteve nas de 22 e 29 de Janeiro, nem na desta manhã de 5 de Fevereiro.

Georg Gänswein, 63 anos, foi secretário particular do Papa Bento XVI durante o seu pontificado e continuou com a tarefa depois da renúncia daquele ao papado. Em Dezembro de 2012, dois meses antes de renunciar, Ratzinger nomeou-o, entretanto, arcebispo e prefeito da Casa Pontifícia, lugar que manteve com Francisco.

 

Várias situações embaraçosas

Por trás da decisão e do desaparecimento público de Gänswein está a polémica provocada pela publicação do livro Do Fundo dos Nossos Corações, cuja autoria é do cardeal Robert Sarah e do Papa emérito.

O livro defende a doutrina prevalecente do celibato obrigatório. O Papa Francisco prepara-se, entretanto, para publicar a exortação apostólica pós-Sínodo sobre a Amazónia, na qual pode vir a abrir a possibilidade da ordenação de homens casados. A publicação da obra – a primeira edição saiu em França dia 15 de Janeiro – foi vista, por isso, como uma interferência clara de Ratzinger no pontificado de Francisco.

Num segundo momento, sugiram notícias e declarações de Gänswein a dar conta de que Ratzinger, afinal, não sabia que o objectivo do cardeal Sarah era publicar um livro. Mas o cardeal da Guiné-Conacri, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, publicou a correspondência dele com Ratzinger, deitando por terra os argumentos de Gänswein. A imagem do secretário do emérito terá sido a que saiu mais conspurcada, mas a polémica atingiu também a figura de Ratzinger, que completa 93 anos no próximo dia 16 de Abril.

Finalmente, o Papa emérito terá pedido que o livro aparecesse apenas como sendo da autoria do cardeal Sarah, “com o contributo de Bento XVI” – exactamente como aparecerá na edição portuguesa, a publicar dentro de poucos dias.

Aliás, o facto de a assinatura aparecer como “Bento XVI” também foi considerada despropositada – o Papa emérito assinara a sua obra Jesus de Nazaré como Joseph Ratzinger/Bento XVI, precisamente para afirmar que era uma obra pessoal e não do seu magistério enquanto Papa. A comparação torna ainda mais estranha a assinatura do presente livro, aumentando a confusão sobre a existência de dois “papas”.

Não é a primeira vez que Georg Gänswein cria situações embaraçosas para os seus dois superiores. Numa apresentação de um livro, em Maio de 2016, falava de um papado “partilhado” entre Bento XVI ou Francisco – um “contemplativo” e o outro governante.

Pouco depois, o autor do livro que apresentara seria o destinatário de uma carta do ex-núncio nos EUA, Carlo Maria Viganò, pedindo a demissão do Papa Francisco porque este, alegadamente, soubera do que se passara com o cardeal McCarrick, acusado de abusos sexuais, entretanto demitido e a quem foi retirada a ordenação. E há cerca de um ano, poucos dias antes da cimeira sobre pedofilia, no Vaticano, com o Papa Francisco a falar do abuso de poder por parte dos padres abusadores, uma revista do clero alemão publicou um longo texto de Ratzinger defendendo que o problema dos abusos era da revolução sexual dos anos 1960.

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