Papa Francisco e arcebispo de Cantuária irão ao Sudão do Sul juntos, se houver Governo em vez de guerra

| 19 Nov 19

Mulher no Sudão do Sul: a população anseia pela paz. Foto © ACN Portugal

 

O Papa Francisco e o arcebispo de Cantuária, Justin Welby, concordaram em ir juntos ao Sudão do Sul no próximo ano, se a situação política melhorar e permitir a criação de um Governo de unidade nacional nos próximos 100 dias, prazo previsto no acordo assinado recentemente em Entebbe, no Uganda.

A viagem conjunta tem sido referida como possibilidade, quer pelo Papa quer pelo arcebispo, desde 2016, altura em que os líderes das igrejas Católica, Anglicana e Presbiteriana do Sudão do Sul se encontraram com Francisco e Welby, com o intuito de explicar as tensões constantes entre grupos rivais, convidando-s ao mesmo tempo a deslocarem-se ao Sudão do Sul, levando uma mensagem de paz.

Quando visitou uma Igreja Anglicana em Roma, em Fevereiro de 2017, Francisco referiu, de acordo com o Crux, que ele e Welby estavam a “pensar se seria possível, se a situação no país não estaria muito difícil” para fazer a viagem. E acrescentou: “Temos de fazê-la porque eles – os três líderes religiosos do Sudão do Sul – querem a paz e estão a trabalhar juntos para conquistar essa paz.”

Refugiados sul-sudaneses no Emmaus Center Katikamu para refugiados, nos campos de Bidibidi e Palorinya (Uganda): a fuga aos conflitos armados é a solução para muitas pessoas. Foto © ACN Portugal

 

Na quarta-feira, 13 de Novembro, o arcebispo da Cantuária, Justin Welby reuniu-se com o Papa no Vaticano e, como refere o Vatican News, concordaram em fazer a viagem, desde que se criem condições de estabilidade.

Apesar disto, os bispos católicos do país não estão muito otimistas: o atraso na negociação para a formação do novo Governo pode fazer ressurgir a guerra civil, dizem, numa mensagem lida no início do mês em todas as missas, e agora divulgada pela Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).

Em Abril, o Papa pedira aos dirigentes do país, reunidos no Vaticano, que se esforçassem por soluções pacíficas para os problemas e conflitos. O encontro reuniu os principais políticos do Sudão do Sul, incluindo o Presidente da República Salva Kiir, e o vice-presidente Riek Machar. O retiro espiritual, convocado pelo Papa, terminou com um gesto inédito: o Papa ajoelhou diante de cada um dos líderes, como forma de lhes pedir que procurassem soluções pacíficas.

O Sudão do Sul tornou-se um estado independente em 2011, após décadas de guerras contra o Governo e as forças militares do Sudão. Mas dois anos depois de se tornar independente, as crescentes tensões políticas irromperam em violência.

Militares no Sudão do Sul. Foto © ACN Portugal

 

Segundo os termos do acordo de paz, assinado em Setembro de 2018, os vice-presidentes deveriam assumir o cargo conjuntamente na próxima primavera, partilhando o poder e acabando com o conflito armado entre clãs e comunidades. A formação do Governo foi adiada até 12 de Novembro mas, apenas a cinco dias do fim do prazo, Kiir e Riek Machar anunciaram que seria atrasada novamente até Fevereiro de 2020.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas afirmou a sua preocupação pelo impasse político no país e, desapontado com este novo adiamento, Francisco fez um apelo público na alocução do Angelus, de domingo, 10 de novembro, para que “todos os envolvidos no processo político nacional” procurem unir-se, ultrapassando “o que os divide no espírito de verdadeira fraternidade.”

Além da crise política e do espectro do regresso da guerra, o Sudão do Sul está igualmente a enfrentar-se com cheias violentas que provocaram já mais de meia centena de mortos e obrigaram cerca de 420 mil pessoas a abandonar as suas casas, informa ainda a AIS.

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