Papa Francisco em Moçambique: bênção ou nem tanto?

| 2 Abr 19 | Entre Margens, Últimas

Moçambique vem vivendo, desde a descoberta das chamadas “dívidas ocultas” contraídas pelo anterior governo de Armando Guebuza, um arrocho financeiro insuportável para o povo. Tudo encarece, incluindo os alimentos básicos, e a vida normal do país vai-se afundando, sobretudo a educação e a saúde. Nos hospitais faltam até os mais elementares medicamentos anti-maláricos, por vezes só existindo nos mercados de rua, circuitos ilegais, a preços inacessíveis ao normal cidadão pobre.

A corrupção endémica de figuras gigantes do regime surge cada dia mais na ribalta pública, após a prisão do ex-ministro Manuel Chang, na África do Sul, por mandato da Justiça norte-americana. O próprio Presidente Filipe Nyusi (lê-se Nhussi), porque foi ministro da Defesa do seu antecessor imediato – Guebuza – está sob suspeita, não sei se judicial mas, ao menos, popular. Neste contexto político, social e económico, causou surpresa a recepção que lhe foi concedida pelo Papa Francisco, em setembro passado.

Como é trivial nestas circunstâncias, Nyusi convidou o Papa a visitar Moçambique. Nada de novo nem de especial. E logo começou a ser alvitrada a hipótese de ela se concretizar a curto prazo. Faltaria o convite dos bispos? Nem esse, já que, como também é quase rotina, desde 2016 que ele repousava na mesa de Francisco. Estava, portanto, nas mãos do Papa e dos seus serviços diplomáticos definir o quando.

Há cerca de um mês começou a circular nas redes sociais o “segredo” revelado pelo padre Giorgio Ferreti, pároco na catedral do Maputo e membro da Comunidade de Santo Egídio: “Ainda neste ano o Papa Francisco estará connosco!”.

Logo se desenharam opiniões contraditórias sobre a oportunidade, ou não, desta visita ainda neste ano, sobretudo antes das eleições previstas para Outubro próximo. Desde o anúncio oficial da viagem para os dias 4-6 de setembro, as opiniões cruzam-se.

Os que estão contra argumentam a inoportunidade em momento eminentemente eleitoral, pela vantagem que pode trazer ao Partido Frelimo, responsável pelo estado em que o país se encontra depois de 44 anos de governação. Transcrevo testemunhos que me chegaram:

  • “Acho que não devia vir nas vésperas de eleições, logo no mês da campanha eleitoral. E que viesse por iniciativa do Vaticano. Assim como está a acontecer, mais parece uma agenda política. (…) Prefiro ele como pastor da Igreja e não como chefe de Estado. Desde já digo que, se vier a Nampula, não irei vê-lo”.
  • “Eu nem perderei tempo em ir vê-lo.” (um residente no Maputo)
  • “Embaraçados estarão alguns bispos e padres que não gostariam que se associasse este governo ilegítimo com o Papa. Mas, como padres, terão de fingir que está tudo bem. É o politicamente correcto a imperar!”
  • “Ou seja, o Papa vem a convite do seu homólogo, para participar na pré-campanha eleitoral!”
  • “Sim. Lamentável!”
  • “Do ponto de vista religioso, não é mau vir ter com Zaqueu. Mas não é o caso. Não vem converter ninguém da doença da corrupção e das fraudes eleitorais. Pior ainda, pode estar a legitimar esses actos.”

* “Sim, vem ajudar e encorajar a usar todos os meios para o homólogo se manter no poder.”

* O Papa viria a Moçambique por causa do ciclone, se não fosse o precipitado compromisso que firmou aquando da visita do Nyusi?

* “Uma coisa é certa e o Papa deve ser informado disso: a sua visita está envolta em polémica”.

Perguntando a um padre daqui de Nampula a sua opinião sobre a oportunidade de tal visita, ele manifestou a sua concordância: “É muito bom que venha! O grande beneficiário é o Nyusi que está a ter grandes opositores internos no seu Partido Frelimo que querem recuperar o poder impondo o Samora Júnior. É a luta entre o Norte e o Sul dentro da Frelimo.” Mas então concordas que, assim, a Frelimo se beneficia também da visita do Papa, observei eu. “Não, não há esse perigo, porque o Povo já sabe bem o que quer. Aqui, Nampula, nunca mais a Frelimo vai conseguir”, respondeu.

Resolvi, então, sondar o presidente do Município de Nampula, Paulo Vahanle, como se sabe, da Renamo. Respondeu prontamente: “É muito bom que o Papa venha; precisamos é de preparar os nossos corações para a sua visita”.

À minha observação sobre se a visita em tempo eleitoral não prejudicaria o seu partido e se não seria melhor que ela tivesse lugar após as eleições, foi peremptório: “Depois do burro morto, que podemos ainda esperar dele? É bom que venha e ajude a que as nossas eleições sejam de facto justas, livres e transparentes. Que não haja aquelas manobras a que sempre temos assistido. Que nos adiantaria o Papa vir depois das eleições quando o mal e as viciações já tivessem sido feitas?”

Como vemos, uma visita que poderia ser inteiramente desejada, sem objecções, pela quase totalidade dos moçambicanos, está a ser questionada por alguns.

Uma coisa é certa: a visita do Papa será eminentemente política. Num país governado por um partido a rebentar pelas costuras com casos de corrupção financeira a emergirem em cada dia até na barra dos tribunais, dá para perguntar: vai o Papa ter a coragem e a oportunidade de dizer a palavra profética que interpele as consciências, ainda mais do que os recentes documentos pastorais dos nossos bispos, e empurre o regime para uma verdadeiro Estado de direito democrático minimamente respeitador do jogo eleitoral feito com limpidez? Se a força contagiante de Francisco isso conseguir, todos teremos ganho. E, certamente também os “sábios” da Frelimo como Tomás Salomão, Jorge Rebelo e Teodato Hunguana (para citar apenas os que já apareceram na imprensa local a manifestar o seu descontentamento pelo estado político a que o país chegou), bem como mais alguns membros do mesmo partido governante, que até já me confessaram a sua vergonha pelo sucedido com as dívidas ilegais e ocultadas pelos seus altos dirigentes como Guebuza.

Claro que a palavra do Papa não pode substituir os cidadãos moçambicanos, a começar pelos responsáveis dos partidos políticos. Mas pode ajudar. Diz o conceituado analista Jaime Macuiane, já martirizado pelos esquadrões do crime que o deixaram entre a vida e a morte, abandonado à beira da estrada circular do Maputo, que a oposição moçambicana está fraca e a não fazer o seu trabalho. Que eu saiba, ainda nenhum partido político, a não ser a Comissão Política da Frelimo, apareceu a dar opinião sobre esta visita papal. Estamos expectantes.

Mas, como se vê pelo testemunho do presidente de Nampula, do Papa também não se espera mais do que persuasão contra actos ilícitos já sobejamente denunciados pelas vozes internas de Moçambique, desde os próprios bispos católicos até aos jornalistas livres.

Em suma, como se vê, a visita do Papa é, de facto, polémica! Tenho pena que assim seja. Espero que, pelo menos na sua vertente estritamente pastoral, venha relançar a marcha eclesial da nossa Igreja de pequenas comunidades ministeriais, como ela renasceu nos anos difíceis do ateísmo, sob a profética palavra de Manuel Vieira Pinto, o “visionário” de Nampula que, como Francisco, era surpreendente nos gestos e nas palavras!

José Luzia é padre católico, missionário em Nampula (Moçambique) há quatro décadas e autor de três livros sobre a Igreja em Moçambique

Artigos relacionados

“No tempo dividido” – Mistagogia da temporalidade na poesia de Sophia

“No tempo dividido” – Mistagogia da temporalidade na poesia de Sophia

Sophia chegou cedo. Tinha dez ou onze anos quando li O Cavaleiro da Dinamarca, cuja primeira edição data de 1964. É difícil explicar o que nos ensina cada livro que lemos. Se fechar os olhos, passados mais de 30 anos, recordo ainda que ali aprendi a condição de pe-regrino, uma qualquer deriva que não só nos conduz de Jerusalém a Veneza, como – mais profundamente – nos possibilita uma iniciação ao testemunho mudo das pedras de uma e às águas trémulas dos canais da outra, onde se refletem as leves colunas dos palácios cor-de-rosa.

Apoie o 7 Margens

Breves

Papa Francisco anuncia viagem ao Sudão do Sul em 2020 novidade

“Com a memória ainda viva do retiro espiritual para as autoridades do país, realizado no Vaticano em abril passado, desejo renovar o meu convite a todos os atores do processo político nacional para que procurem o que une e superem o que divide, em espírito de verdadeira fraternidade”, declarou o Papa Francisco, anunciando deste modo uma viagem ao Sudão do Sul no próximo ano.

Missionários constroem casa para cuidar e educar as vítimas do terramoto no Nepal

Mais de 400 crianças órfãs, pobres e com debilidades físicas vítimas do terramoto de 2015 no Nepal, residem hoje na casa de crianças Antyodaya em Parsa (centro do país). A casa, que foi construída em 13 de maio de 2017, tem o propósito “de alcançar as crianças mais desafortunadas das aldeias mais remotas, oferecendo-lhes educação e desenvolvimento pessoal”.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Entre margens

Manuela Silva e Sophia novidade

Há coincidências de datas cuja ocorrência nos perturbam e nos sacodem o dia-a-dia do nosso viver. Foram assim os passados dias 6 e 7 do corrente mês de Novembro. A 6 celebrou-se o centenário do nascimento de Sophia e a 7 completava-se um mês sobre a partida para Deus da Manuela Silva.

“Unicamente o vento…”

Teimosamente. A obra de Sophia ecoa. Como o vento. Como o mar. Porque “o poeta escreve para salvar a vida”. Aquela que foi. Que é. A vida num ápice. Luminosa e frágil. Do nascente ao ocaso. Para lá do poente. Celeste. Na “respiração das coisas”. No imprevisível ou na impermanência. A saborear o que tem. A usufruir do que teve. Na dor e na alegria.

Cultura e artes

Trazer Sophia para o espanto da luz

Concretizar a possibilidade de uma perspectiva não necessariamente ortodoxa sobre os “lugares da interrogação de Deus” na poesia, na arte e na literatura é a ideia principal do colóquio internacional Trazida ao Espanto da Luz, que decorre esta sexta e sábado, 8 e 9 de Novembro, no polo do Porto da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

As mulheres grávidas e o olhar feminino sobre a crise dos refugiados

Uma nova luz sobre a história dos refugiados que chegam à Europa, evitando retratá-los como “heróis ou invasores”. Francesca Trianni, realizadora do documentário Paradise Without People (Paraíso sem pessoas, em Inglês), diz que o propósito do seu filme, a exibir nesta quinta-feira, 31 de outubro, em Lisboa, era mostrar a crise dos refugiados do ponto de vista feminino.

Sete Partidas

Visto e Ouvido

Agenda

Parceiros

Fale connosco