Papa Francisco no Iraque: A fraternidade e o fermento cristão para a reconstrução de uma sociedade plural

| 7 Mar 21

A viagem do Papa Francisco ao Iraque, mais do que um acontecimento histórico, é um reencontro com a história de um dos berços de cultura e religiões de que todos somos, de algum modo, herdeiros; mas quer ser sobretudo um sopro de esperança que reacenda a vida que, especialmente nas últimas décadas, tem sido negada às gentes deste território.

Inspirando-se, mais uma vez, no seu homónimo de Assis, Francisco de Roma procurará mobilizar os crentes iraquianos a porem em prática a proposta, recentemente tornada texto na encíclica Fratelli Tutti, de uma fraternidade e amizade social alargadas a toda a família humana, independente das fronteiras políticas, religiosas, culturais ou étnicas. É um caminho a percorrer que esta visita quer impulsionar, contando com todos os homens e mulheres de boa vontade.

 

O Iraque na Bíblia

Rembrandt, Abraão (pormenor de Sacrifício de Isaac, 1635), Alte Pinakothek de Munique

 

O atual Iraque entra na história das religiões abraâmicas, muito antes do cristianismo. Aliás, antes da própria história. Segundo a narrativa do Livro do Génesis, do jardim do Éden, isto é, o berço da humanidade, corriam quatro rios, “o terceiro que se chama Tigre, corre a oriente da Assíria, e o quarto rio é o Eufrates” (2,10-13). A partir destas coordenadas de valor histórico difícil de comprovar, os historiadores antigos não hesitaram em colocar o “Paraíso” bíblico no território que o Papa Francisco está a visitar.

Passando do imaginário mítico para a história do povo bíblico, podemos dizer que as raízes, senão o berço, comuns do judaísmo, cristianismo e islão se encontram também em terras iraquianas. Uma vez que foi na cidade de Ur dos Caldeus (à beira do Eufrates, atual Al-Muqeiyar, onde o Papa esteve neste sábado, 6 de março) que nasceu Abraão, o “pai na fé” das três religiões. Daí partiu o grande patriarca, por mandato divino, a caminho da terra de Canaã (Palestina). A rota seguida por Abraão e seu clã familiar é conhecida graças a um documento antigo que alude a uma viagem semelhante que o rei da cidade de Mari, Zimri-Lim, fez no ano 1760 a. C., na qual gastou nove meses. Ur dista 322 km da atual Bagdad.

No Antigo Testamento são ainda importantes a cidade de Nínive, capital da Assíria, que ainda hoje mantém este nome nas proximidades de Mossul. Graças à intervenção do profeta Jonas, Nínive, capital do reino da Assíria que o próprio Jonas qualifica como “uma cidade muito grande, que levava três dias a atravessar (Jonas 3,3), foi poupada à destruição (cf. Livro de Jonas).

Já no Novo Testamento, o próprio Jesus refere-se a Nínive como um símbolo e exemplo da cidade que se salvou “pela penitência” (Mateus 12,41). Em 2014, as milícias do Daesh saquearam a cidade, destruindo património arqueológico com 3200 anos de história, e documentos com semelhante valor conservados na biblioteca e museu de Mossul. Nem a “mesquitas de Jonas”, dedicada à figura bíblica que o islão também considera profeta, foi poupada pelos extremistas que, em 2015, a dinamitaram.

Situada no coração do Iraque, a antiga cidade de Babilónia, capital da Mesopotâmia, é mencionada repetidas vezes na Bíblia. Sediada nas margens do Eufrates, foi berço das civilizações mais antigas, como a Suméria, Assíria, Babilónica, que legaram à humanidade feitos tão importantes como a escrita, as primeiras formas de direito (Código de Hamurabi).

Na versão bíblica, contudo, a fama da Babilónia não é a melhor, desde a lenda da torre de Babel (Génesis 11,1-9); até ao exílio que, no século IV a.C, obrigou o povo de Israel a trocar a sua terra pela mal-afamada Babilónia (desde então, o povo guardou na memória as lágrimas choradas “junto aos rios da Babilónia, com saudades de Sião, Salmo 137); passando pela simbologia francamente negativa que o último livro bíblico (Apocalipse, 18,2) associa a esta cidade e respetivo império.

Contudo, nenhuma dessas memórias e conotações menos positivas apaga o mérito de as três grandes religiões reconhecerem em Abraão o comum “pai na fé”. No caso dos cristãos (o nome de Abraão é citado 74 vezes no Novo Testamento), estes viram na missão universal do cristianismo a realização da promessa feita a Abraão, nascido em Ur: “Farei de ti uma grande nação” (Génesis 12, 1ss). Neste sentido, podemos dizer que, de algum modo, a pré-história do cristianismo começa também aqui. [ver também o texto de José Augusto Ramos no 7MARGENS, Os lugares do Papa no Iraque: uma viagem de regresso, reencontro e reafirmação de fraternidade]

 

O cristianismo no Iraque

Bíblias e livros cristãos recuperados ao Daesh em Mossul: As comunidades cristãs do Iraque são das mais antigas do mundo. Foto: Direitos reservados. 

 

O bispo de Roma visita, nestes dias, uma das comunidades cristãs mais antigas do mundo. Efetivamente, a presença cristã na atual região do Iraque remonta ao século I, quando o apóstolo Tomé e seus colaboradores Tadeu (Addai) e Mari levaram a mensagem de Cristo até à Mesopotâmia. O cristianismo chegou aí, vindo da antiquíssima igreja de Antioquia, sob a benéfica proximidade e influxo de Antioquia e da “escola de Nísibe”, continuou a florescer na região. De forma que no século IV era já uma Igreja solidamente estabelecida.

Desde cedo, as comunidades cristãs desta região se habituaram a conviver com a perseguição (desde o tempo do imperador Sapor II, no século IV). Na sequência do Concílio de Éfeso de 431, a situação de isolamento dos cristãos, desde então aderentes ao nestorianismo, agravou-se, conduzindo-os a um progressivo distanciamento geográfico e institucional relativamente à Igreja romana. Tal não impediu os cristãos desta região de desenvolver uma intensa atividade missionária que se estendeu até aos confins da Ásia. Efetivamente, a sua ação evangelizadora não se ficou pelas terras mais próximas (Damasco, Alexandria, Jerusalém, Chipre); foram os cristãos desta terra que fundaram a Igreja do Malabar, na India, e os primeiros a missionar na China.

No século VII, quando os Árabes ocuparam a região, os cristãos eram 50% da população. De língua e cultura siríaca, adotaram desde então o árabe como língua falada, mantendo o siríaco na liturgia, tal como os católicos fizeram com o latim, até ao Concílio Vaticano II. A dinastia abássida fez de Bagdad a capital e uma das principais cidades islâmicas.

Neste contexto, à semelhança do que sucedeu em Damasco, os cristãos, embora vendo os seus direitos condicionados, foram pacificamente integrados, desempenhando um importante papel na vida cultural e administrativa. Exemplo disso é o ilustre sábio Hunayn Ibn Ishâq al-‘Ibâdî, que traduziu dezenas de livros de filosofia (Platão, Aristóteles e outros) do grego para o siríaco e árabe, dando, assim, a conhecer estes pensadores que os árabes estudaram e divulgarão depois no Ocidente. Com a crescente islamização imposta pela dinastia abássida, os cristãos, obrigados a converter-se, foram perdendo direitos e vigor.

Em 1534, os turcos otomanos ocuparam a Mesopotâmia, mantendo o seu domínio até à Grande Guerra 1914-1918. Até esta data os cristãos não foram incomodados, aproveitando as condições de paz para reatarem novos laços entre si e com Roma. Um processo que culminou, no final do século XVIII, com a plena união com Roma da Igreja Caldeo-católica. Com a guerra, os cristãos destas terras experimentaram as agruras da perseguição. Para lá do milhão e meio de arménios massacrados, foram numerosos os mártires pertencentes às comunidades do atual Iraque.

 

Cristãos mártires e comunidades resistentes

As perseguições do Daesh provocaram, além de numerosos mártires, um enorme êxodo e consequente apagamento da memória. Foto © ACN-Portugal

 

Com a subida ao poder, em 1979, de Saddam Hussein, pertencente à minoria sunita, num país maioritariamente xiita, a comunidade sunita viu-se claramente favorecida. Ainda assim, sem grandes conflitos, já que o desequilíbrio de forças se verificava sobretudo a nível político. Após a remoção de Saddam, em 2003, os conflitos sectários entre as diferentes pertenças religiosas eclodiram dramaticamente. Milícias sunitas e xiitas combatem violentamente entre si, sem olhar a meios nem ao terror e sofrimento causados. Mais de 100 mil sunitas e xiitas perderam a vida nos meses que se seguiram à queda de Saddam.

Neste clima de guerra civil fratricida, as minorias religiosas não muçulmanas foram também vitimizadas. Especialmente os cristãos, que se viram atacados pelos jihadistas sunitas. No período que vai de 2003 ao começo de 2015, foram mortos 1.200 cristãos. Entre estes estão bispos e numerosos sacerdotes.

Em 2006, o arcebispo de Mossul (antiga Nínive), Georges Casmoussa, foi sequestrado e só não acabou martirizado graças ao modo sereno e corajoso com que enfrentou os tormentos da prisão. No mesmo ano a sede episcopal do bispo caldeu de Mossul foi totalmente destruída por explosivos. Dois anos depois, o próprio arcebispo de Mossul, Faraj Rahho, foi raptado e assassinado. Episódio ainda mais dramático sucedeu em 31 de outubro de 2010, quando, em Bagdad, durante uma cerimónia festiva na catedral siríaca católica, um grupo de terroristas lançaram granadas e dispararam contra os fiéis indefesos, chacinando 48 cristãos. A partir deste ato terrorista, e perante os sinais de cristianofobia crescentes, teve início o êxodo dos cristãos.

O pior estava, porém, ainda para vir, com o advento do “Estado Islâmico”, a partir do final de junho de 2014, quando o autoproclamado califado ocupou a cidade de Mossul e parte das planícies de Nínive. As rivalidades exasperaram-se entre sunitas e xiitas, e os cristãos voltaram a ser atingidos pelos “efeitos colaterais”, ou mesmo a ser o alvo direto dos ódios acesos e armados.

Em 2014, os “homens vestidos de negro” marcharam até Mossul ocupando a cidade. Nela viviam, então, 10 mil cristãos. Os invasores do Daesh assinalaram as suas casas com a letra “nun” (=nazareno), e impuseram-lhe a conversão ao islão ou que abandonassem a cidade sem nada levar consigo. A alternativa era a decapitação que alguns acabaram por sofrer. Os cristãos fugiram então para Erbil, região mantida pelos curdos. Só em Mossul e arredores foram incendiadas ou vandalizadas pelo menos 33 igrejas. O Daesh usou muitas delas como base militar, depois de terem sido espoliadas do seu património mais precioso.

Estas perseguições e ambiente de guerra provocaram, para além de numerosos mártires, um enorme êxodo e consequente apagamento da memória. Calcula-se que 66% dos cristãos abandonaram, após 2003, o Iraque. Em 2016, os deslocados cristãos eram mais de 120 mil. Como resultado de toda esta intolerância, a antiquíssima presença cristã neste território foi drasticamente reduzida. Em 2003 eram perto de 1 milhão e meio, o que rondava os 6% da população. Hoje, não chegam a 300 mil.

As outras minorias, como as comunidades mandeana, yazidi e yarsani, sofreram análogas perseguições e perdas. Em 217, diversas ONG denunciaram mais de 60 valas comuns no norte do Iraque. E não eram só cristãos que ali jaziam. Estima-se que foram mortos entre dois mil a cinco mil yazidis. Só numa dessas valas (em Khasfa) contaram-se mais de 4 mil cadáveres. A estimativa rigorosa das atrocidades está ainda por fazer, ou talvez nunca venha a ser feita com rigor.

 

Reacender a esperança

Mulher num centro de refugiados cristãos instalado num pavihão de desportos em Ankawa (Erbil, Iraque), cuja instalação foi apoiada pela Ajuda à Igreja que Sofre. Foto © ACN-Portugal.

 

Neste clima de horror e no meio dos mais dramáticos momentos, não faltaram gestos de generosidade da parte de alguns muçulmanos para com seus concidadãos cristãos. Em contrapartida, estes cristãos perseguidos queixaram-se, muitas vezes, da falta de solidariedade dos seus irmãos na fé do Ocidente. Tudo isto conduziu a uma justificada perda generalizada da esperança desta comunidade profundamente ferida. Ainda assim, os que puderam regressar, fizeram-no ou pensam fazê-lo e estão a fazê-lo. Neste difícil processo de cura e recuperação da esperança, os pastores e comunidades cristãos estão a ter um papel fundamental, incentivando ao regresso dos fiéis às suas terras. Em setembro de 2017, uma cerimónia oficial celebrou, na maior cidade de Nínive, o regresso de cerca de 500 famílias cristãs. Em junho do ano seguinte regressaram a Qaraqosh 25.650 cristãos. Nos anos seguintes, muitos mais têm retornado para tentarem refazer suas vidas.

O presente e o futuro estão longe de ser de certezas para a minoria cristã. As leis e a religião dominante continuam a discriminar os cristãos e demais minorias. Se um muçulmano se converter ao cristianismo arrisca o seu futuro e modo de vida. A lei continua a proibir casamentos entre homens cristãos e mulheres muçulmanas. Caso uma mulher cristã case com um muçulmano, os filhos devem obrigatoriamente ser educados na fé islâmica. Um cristão tem muito mais dificuldade do que os outros de arranjar emprego ou entrar na universidade. Quando à segurança, os motivos de receio estão longe de estar dissipados: desde o começo de 2020, mais de 25 aldeias cristãs, no norte do país, foram atacadas, obrigando a novo êxodo.

Neste cenário de um povo ferido na sua memória e dignidade, esta viagem papal é, sobretudo para os resilientes cristãos locais, uma porta de esperança. Foi especialmente a pensar neles que o Papa Francisco empreendeu esta corajosa viagem apostólica ao Iraque. Ao fazê-lo, quer mostrar a estes e outros cristãos perseguidos que a Igreja não os abandona. Mas quer também lembrar aos demais cristãos que passivamente e “à distância” assistem indiferentes aos que, em tantas partes do mundo, continua a ver seus direitos elementares violados e sua vida ameaçada.

O Papa pretende também levar uma mensagem de paz e promover o diálogo entre as religiões, ciente do papel positivo que os cristãos têm tido, como fermento de pacificação e são convívio entre as diversas fações étnicas e religiosas. Ao querer preservar a vetusta comunidade cristã do Iraque não se trata, portanto, de uma mera defesa de um património histórico, mas há também a convicção de que esse fermento cristão é fundamental para a reconstrução de uma sociedade plural e de um estado respeitador das liberdades e direitos humanos.

 

Isidro Lamelas é padre da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) e professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

 

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