Papa Francisco: uma Teologia Moral que “suje as mãos”

| 19 Fev 19

A Teologia Moral ou Ética Teológica é um dos saberes mais problemáticos e mais debatidos no seio da teologia e da Igreja. Isso decorre do seu próprio âmbito: a vida vivida, e a vida a viver, os valores presentes e, por vezes, em conflito, os ideais e as realidades concretas, a fragilidade humana, etc.

As temáticas são as do agir humano, do seu sentido e das suas possibilidades. Há as questões fundamentais, como a fonte do seu conhecimento: a razão humana e a fé, a liberdade e a autodeterminação, a lei, a consciência, os juízos morais, etc. Ao mesmo tempo e em circularidade, são tratadas as questões da vida afetiva, da sexualidade, da bioética, da política, da economia, etc. Como se vê, são temáticas não exclusiva ou prevalentemente teológicas; são partilhadas com outros saberes, sobretudo a filosofia e as ciências humanas, daí a amplitude da sua discussão e a pluralidade dos enfoques.

A Academia Alfonsiana – Instituto Superior de Teologia Moral, de Roma, instituto de investigação e de formação na área da Ética Teológica, muito tem contribuído para o cultivo deste ramo do saber teológico. Fá-lo na linha da proposta do Concílio Vaticano II (1962-1965). Aliás, alguns dos seus docentes tiveram nele notável influência. É de salientar Bernhard Häring (1912-1989) considerado o renovador da Teologia Moral. O Papa Francisco destacou-o em 2016: “Bernhard Häring foi o primeiro que começou a procurar um novo caminho para fazer reflorescer a Teologia Moral”. Até então estva muito marcada pela casuística.

No dia 9 deste mês de fevereiro, a Alfonsiana completou setenta anos. Foi recebida pelo Papa em audiência. No discurso que este fez, realçou a sua atividade e indicou caminhos, aliás já presentes em documentos precedentes. Destacamos algumas passagens:

Ao saber moral “compete a difícil, mas indispensável tarefa de fazer encontrar e acolher Cristo no concreto da vida quotidiana”. A investigação e ensino da Teologia Moral, “não se pode limitar à recordação daquilo que foi feito, mas deve sobretudo olhar em frente, para reencontrar entusiasmo na missão, para projetar passos corajosos de modo a responder melhor às expectativas do povo de Deus”.

Por isso tem que investir no “diálogo sem reservas; não como mera atitude tática, mas como exigência intrínseca para fazer a experiência comunitária da alegria da verdade e aprofundar o seu significado e implicações práticas”.

Há necessidade de “interdisciplinaridade” e “transdisciplinaridade” e atenção às várias tradições culturais e religiosas, “com a finalidade de estudar os problemas de grandeza epocal que hoje estão presentes na humanidade, chegando a propor pistas oportunas e realistas de resolução”.

Por outro lado, há que fomentar “uma teologia moral animada pela tensão missionária da Igreja em saída”, e que não fique “prisioneira em posições de escola e em juízos formulados longe da situação concreta e das efetivas possibilidades das pessoas e das famílias. Ao mesmo tempo, há que precaver-se de uma idealização excessiva da vida cristã”.

O caminho é colocar-se “em escuta respeitosa da realidade, procurando em conjunto discernir os sinais da presença do Espírito que gera libertação e novas possibilidades, para ajudar todos a caminhar com alegria no caminho do bem”. Escutar sobretudo “os sofrimentos e as esperanças”.

O seu âmbito é “o mundo, do qual não se trata de se defender e muito menos de condenar, mas de curar e libertar”. A Teologia Moral plasmada com a “lógica da misericórdia”.

Acentuando alguns pontos menos considerados no passado, pede que se supere uma “ética individualista”, se dê mais atenção às questões de ética social, à “dimensão ecológica”, ao “cuidado da casa comum mediante vias praticáveis de desenvolvimento integral”, ao “diálogo e ao compromisso” no “âmbito das novas possibilidades que o desenvolvimento das ciências biomédicas põe à disposição da humanidade”, assim como “o testemunho franco do valor incondicionado de todas as vidas”, sobretudo as “mais débeis e indefesas”.

Enfim, um “compromisso para uma Teologia Moral que não hesite em sujar as mãos com o concreto dos problemas, sobretudo com a fragilidade e o sofrimento daqueles que veem mais ameaçado o seu futuro”.

Jerónimo Trigo é padre católico e professor de Teologia Moral na Universidade Católica Portuguesa

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