Dioceses e paróquias podem ter certificação verde

Papa lança Plataforma Laudato Si’, plano de sete anos para dar à Igreja uma consciência e planos ecológicos

e | 24 Mai 21

Será um ambicioso plano de sete anos, com metas, responsáveis e estratégias definidas. O Papa pretende colocar dioceses, paróquias e outras estruturas católicas em sintonia com o “grito da terra” e o “grito dos pobres”. A Plataforma Laudato Si’ será apresentada nesta terça-feira, 25. O 7MARGENS e a Família Cristã falaram com o responsável do Vaticano sobre esta nova iniciativa.

O padre Joshtrom Isaac Kureethadam (na foto, com o Papa), responsável pelo sector da Ecologia e Criação do Dicastério para o Desenvolvimento Humano e Integral. Foto: Direitos Reservados

 

O Vaticano anuncia nesta terça-feira, 25 a criação de uma Plataforma Laudato Si’, como forma de continuar o dinamismo provocado em vários grupos e regiões do mundo pelo ano Laudato Si’, que pretendeu impulsionar a aplicação da encíclica dedicada ao “cuidado da casa comum”, publicada faz nesse dia precisamente seis anos.

O próprio Papa Francisco referiu-se à criação da Plataforma neste domingo, na sua alocução do Regina Coeli. “É um caminho que devemos continuar juntos, ouvindo o clamor da Terra e dos pobres. Por isso, terá início imediatamente a Plataforma Laudato Si’, um percurso operativo de sete anos, que guiará as famílias, as comunidades paroquiais e diocesanas, as escolas e as universidades, os hospitais, as empresas, os grupos, os movimentos, as organizações, os institutos religiosos a assumir um estilo de vida sustentável”, afirmou, citado no Vatican News.

A ideia da Plataforma é termos paróquias Laudato Si’, ou dioceses Laudato Si’, um título que será uma espécie de certificação”, explica o padre Joshtrom Isaac Kureethadam, coordenador do sector Ecologia e Criação no Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, do Vaticano. O padre Joshtrom, salesiano, originário de “uma diocese que vem do tempo do apóstolo S. Tiago, da Igreja Assíria Cristã da Índia, e dos missionários portugueses”, será um dos três intervenientes que, além do cardeal Peter Turkson, farão a apresentação da iniciativa, numa conferência de imprensa no Vaticano.

Em entrevista ao 7MARGENS e à Família Cristã, o padre Joshtrom, salesiano, indiano de Kerala, diz que será proposto um caminho de sete anos, cada um dos quais com um objectivo. No primeiro ano, dedicado ao “grito da terra”, o tema prioritário é a energia; no segundo, sobre “o grito dos pobres”, trata-se de “garantir que os pobres estão no centro da nossa viagem; os anos seguintes propõem, sucessivamente, “mudar o paradigma da economia; mudar estilos de vida, fazer educação ecológica; promover a relação entre ecologia e espiritualidade; e dar uma dimensão comunitária a todas as metas.

Papa ajudar a empurrar estes sete próximos anos, o Papa gravou já um vídeo que será apresentado com o lançamento da iniciativa. Um portal de notícias e documentos, em nove línguas, está pronto também para ser colocado em linha, com o apoio de diversos grupos e instituições: Movimento Católico Global de Acção pelo Clima, Caritas Internationalis, CIDSE – Cooperação Internacional para o Desenvolvimento e Solidariedade, Repam – Rede Eclesial Pan-Amazónica e várias congregações religiosas.

 

Energias renováveis nas Filipinas, 700 mil árvores no Bangladesh
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Plantação de árvores na sede da Conferência de Bispos Católicos do Bangladesh, início da campanha dos bispos para a plantação de 400 mil árvores (agora já 700 mil) no país. Foto: Direitos reservados

 

Joshtrom Isaac diz que é preciso multiplicar iniciativas que concretizem o pensamento e as propostas da Laudato Si’: “Na Europa andamos há muito tempo a falar do meio ambiente, de partidos ecológicos e muitas pessoas não estão por dentro dos conteúdos” da encíclica, afirma. “O Papa Francisco já disse várias vezes que é muito mais que isso, mas o problema mantém-se. “Nós falamos na casa comum, mas nem sempre se entende isso na sua globalidade, e é algo que que deve ser trabalhado também.

Por vezes, admite, fala-se muito sobre o documento do Papa, mas pouco se concretiza: “Por isso é que marcámos este ano, para que fosse um ano de reflexão, mas também de acções concretas, especialmente nas periferias.” E dá exemplos de iniciativas já tomadas e que podem servir de referência: na diocese filipina de Maasin, “todas as paróquias utilizam fontes de energias renováveis”; na Índia, na província de onde o padre Johstrom é originário, na sequência de vários seminários temáticos, as 31 comunidades passaram a funcionar com energia solar, em apenas um ano.

Outro exemplo vem do Bangladesh: há cerca de um ano, a Conferência Episcopal propôs-se promover a plantação de mais de 400 mil árvores, tantas quantas o número de católicos que há no país.  “Foi no âmbito deste ano Laudato Si’”, explica o coordenador da Ecologia no dicastério vaticano. “Tínhamos proposto a plantação de jardins, mas eles queriam plantar três milhões de árvores, porque lhes foi dito que poderiam reduzir em um terço as alterações climáticas com essa plantação, e dar nova vida à biodiversidade e criar comunidade”.

A dada altura, foi decidido que, depois do baptismo de cada criança, se plantaria uma árvore, como se ficasse a criança de tomar conta dela… Agora, o objectivo já é de plantar 700 mil árvores, quase o dobro do previsto na decisão inicial.

As florestas são uma barreira natural contra tempestades e condições meteorológicas severas. Mas no Bangladesh, a desflorestação, impulsionada pelo abate ilegal de árvores, assentamento não regulamentado e limpeza de terras para a agricultura industrial – diminuiu esta protecção e mais de meio milhão de pessoas morreram no país por causa de ciclones desde 1970, recorda o National Catholic Reporter.

“E isto envolveu bispos, padres, catequistas, professores, crianças, todos… são os tais movimentos participativos que temos de dinamizar”, diz o padre Joshtrom. “Alguns lugares do mundo fizeram caminho, mas ainda não suficiente. Por isso precisamos de elevar o nível de conversão ecológica à acção, não ficando apenas pela conversa, mas colocando as coisas em prática. Esse deve ser o nosso horizonte.”

 

Palavras duras às petrolíferas
poluicao ambiente fabricas co2 clima Foto Direitos Reservados

Os combustíveis fóssseis são um dos factores responsáveis pela emregência climática. Foto: Direitos reservados.

 

A preocupação do Papa com a questão traduz-se em outras iniciativas. Por exemplo, nas reuniões que ele já promoveu, incluindo com responsáveis de companhias petrolíferas, convidados por duas vezes para ir ao Vaticano. “Foram reuniões muito difíceis e o Papa falou-lhes com palavras duras, indicando muito claramente que eles deveriam mudar a tecnologia”, recorda o padre Joshtrom. “Num dos discursos, o Papa dizia ‘não nos podemos dar ao luxo de deixar um mundo onde as nossas crianças não possam viver’, e estava quase em lágrimas. Ele entende muito estes problemas, pelo que não ficaria surpreendido se ele aparecesse” na COP (Conferência das Partes) 26 de Glasgow, insiste. De qualquer modo, tal como nas restantes conferências, estará presente o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano.

O plano de sete anos que será apresentado pretende abarcar diferentes sectores: famílias; paróquias e dioceses; universidades e escolas; hospitais e centros de saúde; trabalhadores, empresas e sector económico; grupos e movimentos; e congregações religiosas. Entre as instituições que irão liderar a animação e propostas para cada sector estão instituições e grupos como o Movimento dos Focolares, a Cáritas Britânica-Cafod, Lantern, Jesuítas, Salesianos e Scholas Ocurrentes.

O trabalho (re)começa agora. E o primeiro ano será para planear muitas iniciativas. “A beleza disto é a rede internacional que se vai criar. As paróquias e dioceses vão aderir a esta grande rede e receber recursos e subsídios, mesmo com alguma ajuda financeira, principalmente para os países do Sul”, diz. “Talvez uma diocese de Portugal possa caminhar em conjunto com uma diocese do Brasil, ou da Índia. O mesmo para escolas, paróquias ou hospitais”, exemplifica. Mas, conclui, “importante é perceber onde é que as nossas igrejas estão e, se há muito caminho para fazer, começamos a fazer. Isto é um desafio e uma oportunidade.”

 

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