O Papa Leão XIV é claro no seu primeiro documento formal: o amor ao dinheiro é realmente a raiz de todos os males.
Em conferência de imprensa no passado dia 9 de outubro, o Vaticano apresentou a sua exortação apostólica, Dilexi Te (“Eu amei-te”). Mais uma apresentação pastoral do que um tratado teológico abrangente, ela critica a expansão da riqueza em detrimento dos pobres do mundo. Agora parte do magistério oficial da Igreja, Dilexi Te é franca na sua visão da economia mundial. Ela destaca a “elite rica, vivendo numa bolha de conforto e luxo, quase noutro mundo em comparação com as pessoas comuns”.
Isto incluiria Elon Musk, cujo potencial pacote salarial de 860 mil milhões de euros Leão criticou anteriormente. O problema, disse Leão na altura, é que as prioridades estão invertidas. Os CEO ganham 600 vezes mais do que os trabalhadores. Pior ainda, a riqueza é apresentada como o objetivo de cada ser humano.
Na conferência de imprensa, os vaticanistas perguntaram se o documento se referia ao tratamento dos imigrantes nos Estados Unidos e à teologia da libertação.

Cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, “foi especialmente claro ao descrever o problema do “pecado estrutural”, males pelos quais todos na sociedade partilham alguma responsabilidade.” Foto © Vatican media
O cardeal Michael Czerny, prefeito do Dicastério para o Desenvolvimento Humano, o departamento do Vaticano responsável pela imigração e pelos direitos humanos, respondeu à maioria destas questões. Falando em inglês, explicou que seria um erro ler o documento em termos políticos, mas que, em vez disso, deveria ser recebido tal como ele é — uma exortação apostólica que visa ajudar a Igreja a compreender o Evangelho à luz dos acontecimentos mundiais.
Czerny foi especialmente claro ao descrever o problema do “pecado estrutural”, males pelos quais todos na sociedade partilham alguma responsabilidade. Apresentou o tráfico internacional de droga como um exemplo de como se infiltrou em todas as áreas da vida pessoal e política, transportando um “fardo esmagador de crime e maldade” no mundo.
Ignorado na conferência de imprensa foi o reconhecimento de Leão, na sua exortação, de que as mulheres suportam o peso de cada golpe desferido contra os pobres. Citando amplamente o Papa Francisco, a exortação diz:
Recordemos que «duplamente pobres são as mulheres que padecem situações de exclusão, maus-tratos e violência, porque frequentemente têm menores possibilidades de defender os seus direitos. E, todavia, também entre elas, encontramos continuamente os mais admiráveis gestos de heroísmo quotidiano na defesa e cuidado da fragilidade das suas famílias». [8] Embora em alguns países se observem mudanças importantes, «a organização das sociedades em todo o mundo ainda está longe de refletir com clareza que as mulheres têm exatamente a mesma dignidade e idênticos direitos que os homens. As palavras dizem uma coisa, mas as decisões e a realidade gritam outra», [9] especialmente se pensarmos nas mulheres mais pobres.
Mas, enquanto Leão se esforça por levar o Evangelho ao mundo, será que não consegue perceber que o mundo questiona a forma como a Igreja vê as mulheres?
Czerny afirmou que Dilexi Te é “o magistério da Igreja”, ou o ensinamento oficial da Igreja. Mas onde é que a Igreja afirma as mulheres, a não ser com palavras e nomeações de chefia? Leão fala sobre a Igreja quando repete a afirmação de Francisco: “As palavras dizem uma coisa, mas as decisões e a realidade gritam outra”.
Czerny disse: “O mundo está mal organizado”. Poderíamos acrescentar que a Igreja também está mal organizada.
E, como Czerny também afirmou: “Que aquele (ou aquela) que tem ouvidos, ouça.”
Phyllis Zagano integrou a Comissão para o Estudo do Diaconado das Mulheres (2016-2018). É investigadora na Universidade de Hofstra, Hempstead, Nova Iorque, e o seu livro mais recente é Just Church: Catholic Social Teaching, Synodality, and Women (Paulist, 2023) [Igreja justa: ensino social católico, sinodalidade e mulheres]. Este texto foi inicialmente publicado no Religion News Service e é publicado em Portugal por cedência da autora e daquela publicação ao 7MARGENS.










