AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Leão XIV, comovido, quando falou pela primeira vez aos fiéis na Praça de São Pedro. Foto Agência EcclesiaPR
O Papa Leão, comovido, quando falou pela primeira vez aos fiéis na Praça de São Pedro, depois da sua eleição no dia 8. Foto © Agência Ecclesia/PR

A eleição e os primeiros sinais

Papa Leão, uma escolha também geopolítica, onde África e Ásia ainda não entraram (muito)

A eleição de Robert Prevost como Papa, adoptando o nome de Leão, significa que um dos factores que pesaram no conclave foi a “atenção à geopolítica”, nomeadamente a relação do Vaticano com países como os Estados Unidos e a China, dizem vários observadores entrevistados pelo 7MARGENS sobre a escolha do novo líder católico. Por diversas razões, África e Ásia contaram pouco e deverão agora ser incluídas no “olhar universal” de Leão XIV.

“Trata-se de uma escolha de moderada continuidade com Francisco, mas mais atenta à relação do Vaticano com outros estados, em particular com EUA e China”, diz Valerio Gigante, 52 anos, jornalista da Adista, agência de informação religiosa e política sedeada em Roma e com muito prestígio em Itália. Um outro factor importante é que Robert Prevost, tendo em tempos, aparentemente, sido votante do Partido Republicano, terá agora, como Papa, confrontos inevitáveis com os Estados Unidos – como aliás já aconteceu enquanto cardeal. Nesse sentido, diz Gigante, será “um elemento de contradição” e terá “uma forte descontinuidade” com a actual Administração dos EUA.

Já outras duas regiões do mundo – sobre as quais se especulava se poderiam ter o seu primeiro Papa –, elas ainda não são muito significativas. O padre Manuel Augusto Ferreira, 75 anos, dos Missionários Combonianos, que trabalhou nas Filipinas vários anos e conhece bem a China, diz que a Ásia “não conta ainda: os cristãos são minoria e o cristianismo ainda é visto como uma religião de fora; o presente ainda é, para já, da África e das Américas”. O futuro da missão, admite, estará na Ásia, “mas o presente do cristianismo está na América e na África”.

Em relação aos Estados Unidos, o padre comboniano, que foi também geral da congregação e regressou a Lisboa no próprio dia da eleição do novo Papa,  diz que pode ter pesado também na escolha a difícil situação económica da Santa Sé, cujos défices se têm acumulado nos últimos anos e que, só em 2023, terá atingido 83 milhões de euros. A Igreja Católica dos Estados Unidos é a mais importante contribuinte líquida para as necessidades do Vaticano. O facto de o novo Papa ser norte-americano, ter formação matemática e ser conhecido como um homem rigoroso e metódico, podem também ter sido argumentos importantes em relação a esta matéria.

Já quanto à China, “é difícil ousar fazer cenários”, para lá de perceber a estratégia de expansão comercial e económica que o país tem seguido. No caso do Vaticano, o Papa Francisco optou por fazer um acordo com Pequim, negociado pelo cardeal Pietro Parolin, que pretendia regular as nomeações de bispos, que deveriam passar a ter o acordo da Santa Sé.

“A linha a manter tem de ser essa”, diz Manuel Augusto Ferreira. “Estamos perante uma cultura diferente, confucionista”, com uma perspectiva que já existia antes da instauração do regime comunista, “em que a religião está sujeita ao poder político”. Por outro lado, a tecnologia deu ao Estado um poder imenso sobre os cidadãos. Por isso, terão de ser “os católicos chineses a encontrar o seu próprio caminho” na relação com o Estado e o Partido Comunista no poder.

 

África sem cardeais de peso

Bispo Prevost a cavalo no Peru. Foto DR

O então bispo Prevost a cavalo no Peru: “Tendo sido missionário no Peru, é de esperar que tenha um olhar universal sobre a Igreja”, diz Tony Neves. Foto: Direitos reservados.

Quanto a África, o problema é outro: “Não há ainda cardeais africanos com muito peso”, diz o padre Tony Neves, 62 anos, assistente geral da congregação dos Missionários do Espírito Santo (ou Espiritanos), que trabalha em Roma desde 2018. “Confesso que não esperava já um papa de um país africano”, diz. “Aguardemos que o Papa Leão escolha agora mais cardeais africanos e que haja um ou outro mais carismático, para ser opção num futuro conclave”, diz.

O comboniano Manuel Ferreira presume que o novo Papa conhece menos a realidade da Ásia, que “é realmente diferente” do resto do mundo. Por isso, é de esperar que ele tenha uma atitude de “abertura como disponibilidade para o diálogo”, inclusive com as religiões asiáticas. “É um caminho ainda para descobrir”, afirma.

Tony Neves também tem outra expectativa: “Espero que o Papa Leão, tendo sido missionário no Peru e prefeito do Dicastério dos Bispos, tenha um olhar universal sobre a Igreja. E que, tendo sido nomeado cardeal por Francisco, tenha posições franciscanas sobre temas como as migrações e a ecologia integral.”

Valerio Gigante vê o novo Papa, nos seus primeiros sinais e intervenções, muito empenhado em temas sociais como os trabalhadores, o clima, os migrantes e a pastoral missionária”. São os elementos que a sua biografia sublinha, diz, para afirmar que Leão é uma figura bergogliana moderada, conservadora”. Mas, acrescenta, durante o pontificado, “os papas libertam-se sempre” do seu passado, as suas “biografias não ficam as mesmas”. Hoje ainda mais, porque vivemos “num tempo muito incerto e é muito difícil antever” a sua acção, tendo em conta a incerteza sobre o futuro da humanidade.

O Papa Prevost terá uma atitude de “compromisso, de maior prudência, mas será alguém de continuidade”, antecipa Valerio Gigante. Será também teologicamente “mais prudente que Bergoglio, que tinha uma atitude mais laica e mais informal”. Nas perspectivas de reforma continuará várias intuições de Bergoglio, acredita o jornalista, mas com uma forma “mais compatível com a tradição”, de que a sua primeira aparição pública foi o exemplo, quando surgiu usando a murça e a estola vermelha que Francisco não usara. Mas estes são pormenores mais relevantes para dentro da Igreja, considera o analista italiano, que não pesarão muito para o exterior.

Aliás, Gigante nunca valorizou muito o facto de Francisco ter optado por residir na Casa de Santa Marta e não no Palácio Apostólico. “Não me parece muito importante.” E também através das escolhas que Leão XIV fará “passa a imagem de um papa que reassume um papel e uma representação mais tradicional”. O que não significa, adverte, que o novo Papa “não será muito reformador ou que não tomará decisões”, bem pelo contrário. “Não são os hábitos e as formas que dão a substância”, assegura.

 

No nome, o programa

Ordenem mulheres; Conferência pela Ordenação de Mulheres; Sínodo

Manifestação pela ordenação de mulheres, em Outubro 2024, em Roma, coincidindo com a abertura do Sínodo sobre a Sinodalidade: o tema pode não ter avanços com Leão XIV, dizem analistas. Foto: Direitos reservados

Neste aspecto, o nome escolhido é revelador do programa, analisa Valerio Gigante. Leão XIII, o nome que inspirou Prevost, como o próprio já explicou, foi Papa entre 20 de Fevereiro de 1878 e 20 de Julho de 1903, e o autor da encíclica Rerum novarum, sobre a condição dos operários, que acabou por iniciar o moderno pensamento social católico. Essa perspectiva social estará presente no novo Papa, acredita Gigante.

Onde Valerio Gigante não espera “nenhuma abertura” do novo Papa é na questão das mulheres: “Bergoglio era muito inteligente: sabia o que a sociedade pedia à Igreja e abriu debates, nomeou mulheres, promoveu uma abertura ligada às pessoas – ‘quem sou eu para julgar?’ – mas nos documentos não mudou nada de substancial”, diz. “Provavelmente, ele queria levar o debate por diante, até que uma maioria da Igreja se inclinasse por uma decisão”, analisa. Leão “não fechará o debate, nem com teólogos”, mas também não avançará para mudanças.

Neste campo, Phyllis Zagano reage ao 7MARGENS dizendo que “podemos alegrar-nos com a eleição do Papa Leão XIV, que promete continuar a impulsionar a Igreja no caminho sinodal”. A investigadora na Universidade de Hofstra, (Hempstead, Nova Iorque) integrou a Comissão para o Estudo do Diaconado das Mulheres (2016-2018) e os seus textos do Religion News Service são publicados em Portugal em exclusivo no 7MARGENS.

O Papa Leão “enfatizou o seu compromisso com os pobres e necessitados, os mais marginalizados da sociedade”, afirma Zagano. Numa conferência de imprensa no Vaticano em 25 de Outubro de 2023, recorda a investigadora, o agora Papa “reconheceu que a Igreja ainda está a discernir a questão da reintegração das mulheres no diaconado ordenado”. Mas Phyllis Zagano não tem dúvidas: “Em 2002, a Comissão Teológica Internacional declarou que a questão caberia ao ‘ministério do discernimento que o Senhor estabeleceu’. O discernimento já dura há mais de cinquenta anos. Só podemos esperar que o Papa Leão XIV decida.”

Manuel Augusto Ferreira acredita que Prevost uniu a maioria dos cardeais “tanto os que eram pró como os críticos de Francisco”. Apareceu como “alguém capaz de pôr a Igreja a funcionar e passar as reformas ao terreno – a Cúria para apoiar no governo, decisões sobre o papel das mulheres”. Havia muito a fazer, diz, e essa era uma “percepção partilhada” por muitos.

“Vejo que há uma continuidade de ideias” de Leão em relação a Francisco. “Parolin foi fiel ao Papa” que morreu dia 21 de Abril, “este será mais ainda”, em temas que impliquem a relação com mundo. Mas há uma “descontinuidade de personalidade e estilo, mais discreta, de alguém habituado a governar e com capacidade de passar reformas ao terreno”.

Os primeiros sinais, verifica o padre Tony Neves, “são de alguém que quer mostrar ao mundo que não é uma réplica de nenhum anterior”. O missionário espiritano apreciou “a comoção e as palavras” das primeiras intervenções do novo Papa: “deu continuidade à bênção pascal de Francisco, falou muito da paz desarmada e desarmante, da opção pela caridade e pelos que sofrem, insistiu na comunhão na diversidade e na missão sem medo e para todos”. Além do mais, falou em italiano para se afirmar como bispo de Roma, e em espanhol, para lembrar que foi missionário no Peru.

De resto, Tony Neves recorda que o novo Papa andou pela Amazónia e trabalhou muito pelo Sínodo. Por isso, aguarda decisões e posições que dêem continuidade aos sínodos sobre a Amazónia e a Sinodalidade. Tal como, nos dez anos da Laudato si, é de esperar também alguma continuidade à encíclica do Papa Francisco sobre o cuidado da casa comum. E ainda a temas como o diálogo inter-religioso, a luta contra ditaduras e o empenho pela paz, que serão “temas grandes deste pontificado”. “Acredito que Leão vai continuar Francisco.”

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This