A religiosa Mary (Makamatine) Lembo, vigária geral das Irmãs de Santa Catarina e investigadora sobre abusos de mulheres na Universidade Gregoriana acaba de ser nomeada pelo Papa para o cargo de consultora do Dicastério para Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica.
Mary Lembo, originária do Togo, desenvolveu a sua tese de doutoramento, dando voz a religiosas que foram vítimas de abusos, em vários casos, de missionários, tendo-se tornado das poucas especialistas que mergulharam nessa problemática. Pelo seu papel pioneiro na sensibilização para este tipo de abusos, ela foi, este ano, condecorada com o título de cavaleira da Legião de Honra pela Embaixada da França junto da Santa Sé.

“A irmã Mary Lembo, originária do Togo, desenvolveu a sua tese de doutoramento, dando voz a religiosas que foram vítimas de abusos, em vários casos, de missionários, tendo-se tornado das poucas especialistas que mergulharam nessa problemática.” Foto © Vatican News
Com ela o Papa nomeou mais 14 individualidades, entre as quais vários antigos ou atuais superiores gerais de congregações religiosas, assim como vários académicos, nomeadamente reitores e vice-reitores. Entre os novos consultores encontra-se também Maria do Disterro Rocha Santos, F.C.I.M., presidente da Conferência dos Religiosos do Brasil. No rol de nomeados pelo Papa encontram-se dois bispos, cinco padres, dois irmãos religiosos e seis irmãs religiosas.
Os setores que se dedicam a espiolhar a vida de pessoas nomeadas para, por essa via, catalogar o Papa Leão, de que dá conta, por exemplo, o site Sign of the Cross (sinal da cruz), já detetaram que, na lista de nomeados se encontram “diversas figuras que apoiaram publicamente posições heterodoxas associadas às reformas sinodais do Papa Francisco”. A “heterodoxia” diz, sobretudo, respeito ao papel das mulheres na Igreja e às reformas com vista a uma Igreja sinodal.

‘O caso visto como mais “problemático” é o da Irmã Patricia Murray, que foi secretária executiva da União Internacional das Superioras Gerais e “tem sido uma importante defensora da conceção de Francisco sobre a chamada sinodalidade na vida religiosa feminina” ‘ Foto © Rhina Guidos | Global Sisters Report
O caso visto como mais “problemático” é o da Irmã Patricia Murray, que foi secretária executiva da União Internacional das Superioras Gerais e “tem sido uma importante defensora da conceção de Francisco sobre a chamada sinodalidade na vida religiosa feminina”. Quem implicitamente critica esta nomeação lembra que esta religiosa defendeu que não se deveria excluir dos debates sinodais tópicos sobre os quais “as pessoas querem falar”, o diaconato feminino e o sacerdócio, ou o acolhimento da dor das pessoas LGBTQ+
A nomeação da irmã Maria Nirmalini, uma religiosa indiana que participou no Sínodo sobre a Sinodalidade de 2023, também levanta questões ao Sign of the Cross, porquanto, em declarações que fez, elogiou o Papa Francisco por incluir as mulheres, incentivando-as a “exigirem igualdade” e a oferecerem seus dons, porque “ninguém, nem mesmo a Igreja, tem o direito de negar os dons de Deus”. Por outro lado, Nirmalini entende que “uma das muitas inovações do Papa Francisco é o grande avanço que fez no diálogo inter-religioso, particularmente com os muçulmanos”.
Outro consultor tido por problemático é o irmão Emili Turú Rofes, um catalão que foi Superior Geral dos Irmãos Maristas e que é tido como forte promotor da transformação sinodal da Igreja. Para ele, o Sínodo é uma continuação e implementação do Vaticano II e acredita que um dia haverá um “novo estilo de relacionamento na Igreja… com crentes e não crentes”.

A América Latina está representada pelo sacerdote argentino Damián Guillermo Astigueta, S.J., pela mexicana María Rosaura González Casas, S.T.J. e pela brasileira Maria do Desterro Rocha Santos. Foto © Instagram aciprensa (pormenor)
Finalmente, a irmã mexicana María Rosaura González Casas, psicóloga e docente do Instituto de Psicologia da Pontifícia Universidade Gregoriana, também não passa imune no crivo do olhar conservador. Isso deve-se sobretudo, a declarações que terá feito ao modo como a Igreja Católica tem tratado as mulheres – como “cidadãos de segunda classe” e mera “mão de obra. Ela atribuiu essa situação ao que designou “influência da cultura eclesial e das estruturas hierárquicas”, que também causam “abusos contra freiras”. “Se isso continuar, “não teremos futuro como Igreja”, terá dito numa entrevista em 2022.



![Apelo de Metz [texto integral] O Papa no encontro no Centro de Congressos Robert Schuman, em Metz. Foto Vatican Media](https://setemargens.com/wp-content/uploads/2026/09/O-Papa-no-encontro-no-Centro-de-Congressos-Robert-Schuman-em-Metz.-Foto-Vatican-Media-480x252.jpg)






